Professor da UFBA renuncia ao cargo após declarações

05 de maio de 2008 • 11h45 • atualizado às 12h02

Fabiane Madeira
Direto de Salvador

Bahia


O coordenador do curso de graduação da Faculdade de Medicina da Universidade Federal da Bahia (UFBA), Antonio Natalino Manta Dantas, renunciou ao cargo após suas polêmicas declarações relativas a avaliação do curso no Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (Enade). O professor, em entrevista na semana passada, atribuiu o conceito 2 obtido pelo curso de medicina da instituição no Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (Enade) ao baixo QI dos baianos.

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Em nota, Dantas afirma não ser racista e não ter "restrições à inteligência da comunidade baiana ou qualquer outra, até mesmo por razões científicas". O professor destaca ainda que suas declarações foram distorcidas pela imprensa, que teria insistido para que o médico explicasse os motivos pelos quais o curso da UFBA tenha tirado nota 2 na avaliação do MEC. "Jamais tive a intenção de apontar o sistema de cotas, tampouco a implantação intempestiva da transformação curricular, como causa direta do resultado. Num universo de possibilidades, não posicionei certezas", diz o texto.

Dantas complementa dizendo que suas declarações a respeito do berimbau são fruto de sua ignorância em relação ao instrumento. Ele acrescenta que as explicações dadas por músicos especializados após suas declarações o fizeram conhecer melhor o instrumento. O professor ainda destaca que o resultado do Enade reflete administrações anteriores a sua, que assumiu o cargo há apenas um ano. Ao final do texto, o professor pede desculpa e afirma não ter tido a "intenção de ofender ninguém".

A nota com o pedido de renúncia de Dantas foi encaminhada ao diretor da Faculdade de Medicina, José Tavares Neto, durante o final de semana. O documento deve ser protocolado oficialmente na universidade hoje. Tavares Neto convocou uma assembléia geral da faculdade, na qual estudantes, professores e funcionários devem discutir a questão e a avaliação do MEC.

As medidas administrativas a serem adotadas contra o professor devem ser definidas amanhã, em reunião da Congregação da Faculdade de Medicina. Em nota, o Diretório Acadêmico da Faculdade de Medicina informou que a nota 2 foi resultado de um boicote dos alunos ao sistema de avaliação instituído pelo MEC.

O Ministério Público Federal solicitou que a universidade informe as medidas administrativas a serem adotadas contra o professor. O procurador da República, Vladimir Aras, também solicitou que Dantas apresente sua versão da entrevista. O professor pode ser enquadrado na lei 7.716, de 1989, que trata dos crimes de racismo.

Leia, abaixo, a íntegra da nota divulgada pelo professor Dantas:

"Com referência ao noticiário veiculado nos meios de comunicação acerca das declarações por mim prestadas sobre o mau desempenho dos estudantes da Faculdade de Medicina da Bahia no Enade (Exame Nacional do Desempenho dos Estudantes), esclareço à comunidade que aquelas palavras não refletiram o meu sentimento interior e não condizem com a minha história de vida, notadamente com a minha vida acadêmica.

Pessoas que privam do meu convívio diário conhecem a minha simplicidade, o meu perfil democrático, o meu senso de justiça e o lhano trato que dispenso aos estudantes, professores, funcionários, pacientes, enfim, a todas as pessoas, sem distinção de qualquer natureza.

Não sou racista e não tenho restrições à inteligência da comunidade baiana ou qualquer outra, até mesmo por razões científicas. Na condição de Professor Universitário da área médica, tenho perfeito conhecimento que, haja vista a apresentação tão homogênea do genoma na espécie humana, não se permite precisar ou definir a existência real de raças entre os indivíduos. Em outras palavras: os seres humanos são biologicamente iguais.

Instado por jornalistas para justificar o baixo desempenho dos estudantes de Medicina no Enade, e insistentemente cobrado a me manifestar sobre um resultado que ainda não era de meu conhecimento, fui colhido de surpresa. Por força de um estado emocionalmente comprometido e por uma profunda tristeza, uma irritação incomum e um assomo de destempero arrastaram me a uma manifestação inadequada, da qual expressamente me redimo.

Ela não reflete o que vem do meu íntimo, não traduz o meu pensamento, o que, aliás, vem sendo reconhecido e externado pelas pessoas que me conhecem.

Além disso, algumas das minhas declarações foram publicadas de forma descontextualizada, o que culminou num sem número de interpretações distorcidas e equivocadas, todas elas distantes do meu propósito e do seu real significado.

Se efetivamente entendesse ter o baiano QI baixo, não teria ressaltado, na mesma ocasião, o bom desempenho alcançado no Enade pelos estudantes da Faculdade de Medicina de Ilhéus e da Faculdade de Direito da Ufba, que também são baianos. Demais disto, sou baiano, como de resto toda a minha família e os mais longínquos dos meus ancestrais.

Conforme declarei, várias podem ter sido as causas que levaram os estudantes de Medicina ao desempenho insatisfatório.

Ante a insistência para que eu apontasse a causa desse resultado, limitei-me a esclarecer que isso certamente decorria da soma de múltiplos fatores. Jamais tive a intenção de apontar o sistema de cotas, tampouco a implantação intempestiva da transformação curricular, como causa direta do resultado. Num universo de possibilidades, não posicionei certezas.

Dos meus quase 70 anos de vida, 42 foram dedicados ao ensino da medicina, sempre tendo mantido com os estudantes um trato amistoso e sem incidência de problemas. Tenho respeito e admiração pelos mesmos, que são selecionados por um altamente competitivo e qualificado exame vestibular.

Embora isso nada tenha a ver com o Enade, fui incisivamente indagado por jornalistas acerca do meu gosto musical, o que certamente foi feito para criar polêmica relativamente à cultura afro-brasileira. Esclareço ter minhas preferências musicais, que são ou não coincidentes com as de outras pessoas, e tenho toda a liberdade de expressá-las. Aliás, como bem disse, recentemente, o Ministro Ayres Britto, do STF, a liberdade de expressão é a maior expressão da liberdade. Respeito os gostos alheios e queiram me desculpar aqueles onde o meu desagrado recaiu. Sobre o berimbau, por exemplo, a minha falta de familiaridade com o mesmo me levou a uma noção distorcida. Diante das explicações dadas nos últimos dias pelos experts, contudo, passei a concebê-lo como um instrumento musical complexo e de difícil execução.

Por outro lado, acrescento que esses resultados do Enade referem-se a período anterior a minha gestão de coordenador do curso de graduação da Fameb, cargo para o qual fui eleito há tão somente um ano, por unanimidade dos membros presentes na sessão, dentre professores e representantes estudantis.

Entretanto, em razão da repercussão e o mal-estar causado pela interpretação dada às minhas declarações, comuniquei a minha renúncia ao Sr. Diretor da Faculdade no dia 30.

Por fim, que fique evidente: não sou racista ou preconceituoso e acredito em Deus. Peço desculpas. Não tive a intenção de ofender a quem quer que seja."

Redação Terra
 
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