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Jim Dwyer
Na manhã de terça-feira, ela estava diante do edifício Dakota, onde vive desde 1962. Cerca de 90 anos atrás, ainda menina e criada a alguns quarteirões de distância de sua atual moradia, ela costumava parar e contemplar as ferozes criaturas de ferro fundido que adornam a cerca do edifício - difícil dizer se serpentes ou cavalos marinhos. "Eu vinha até aqui de patins, da rua 69, onde morava", conta Smith. "As gárgulas na grade nos apavoravam". Hoje, nada mais lhe causa medo.
Quatro dias por semana, ela apanha a linha 1 do metrô e desce em Rector Street, em uma unidade do City College que abriga o Quest (www.questonline.com), um grupo de homens e mulheres aposentados que ensinam uns aos outros. Nos dias em que não dá aulas sobre a Suprema Corte, pode estar fazendo um curso sobre as peças de Edward Albee, assuntos internacionais, ética e moralidade. Não há provas, nem lição de casa ou controle de presença. Mas os assentos dos 30 cursos oferecidos pela organização estão sempre lotados de pessoas que escolheram se manter ágeis mentalmente.
Isso ainda deixa a ela o problema de como chegar à parte sul da cidade. "Meus filhos ficam furiosos comigo porque vou de metrô e não de táxi", diz. E por que ela prefere o metrô? ¿Fico furiosa quando estou parada em um congestionamento e vejo o taxímetro rodar e rodar¿, responde Smith.
Entre seus colegas de estudo e de ensino, Smith é a mais velha. Ela encara a agenda da Corte Suprema em 2008 com tanta lucidez quanto recorda a Nova York do começo do século 20. A casa de sua família, na rua 69, era aquecida com carvão, que era despejado para dentro da casa por uma calha que começava na rua. Smith costumava andar no trem elevado da Nona Avenida antes que este fosse derrubado e a porção mais setentrional da via recebesse o nome de avenida Columbus. Na sua infância, o tráfego de veículos puxado a cavalo era tão intenso em Nova York que sua mãe a aconselhou quanto ao que fazer caso um cavalo disparasse e saísse correndo em sua direção. ("Abrigue-se na soleira de porta mais próxima", relembra Smith.)
Seu pai, Joseph Proskauer, era amigo de Alfred Smith, que investigou as condições horrendas de trabalho que geraram acidentes como o incêndio na fábrica Triangle Shirtwaist; ele também apoiava os imigrantes e, como governador, criou um modelo ativista de governo que Franklin Rooselvelt afirma ter inspirado o New Deal.
Com o advogado Proskauer ao seu lado, Smith disputou a presidência dos Estados Unidos em 1928. Certa noite, eles foram a Boston; Ruth Proskauer, então aluna do Radcliffe College, havia sido convidada a discursar em apoio a Smith em um comício. Em um jantar com o candidato e seu pai, ela admitiu que não sabia o que dizer. O governador revelou um truque simples. "Ele disse que ia me contar o que fazer", relembra Ruth Proskauer Smith. "O conselho dele foi que eu fizesse um gesto assim - um movimento amplo da mão direita, erguendo o punho -, e ele acrescentou que, depois disso, eu não precisaria de mais nada".
Proskauer Smith se casou pouco depois de se formar, e se divorciou depois da Segunda Guerra Mundial. Vivendo em Massachusetts, ela fez campanha contra a proibição do uso de métodos anticoncepcionais, no Estado. Mais tarde, de volta a Nova York, ajudou a formar um grupo de defesa do direito ao aborto. Agora, ela apóia os projetos de lei que permitem eutanásia, causa que sua mãe, Anna Naumburg Proskauer, já advogava nos anos 30.
Smith, que tem dois filhos, seis netos e seis bisnetos, mora sozinha. Em agosto, completará 101 anos. "Como o que quero", diz. "Costumava tomar meus drinques, meus drinques noturnos, com Walter Cronkite. Na época, eram dois ou três martínis por noite. Hoje, não posso mais". Na linha 1 do metrô, ela caminhou agilmente entre a multidão e se sentou rapidamente. Um ano atrás, preocupada com seu equilíbrio, ela começou a usar uma bengala em suas caminhadas pela rua. "Eu posso dizer que, agora que uso a bengala, consigo assento quase imediatamente", diz.
Enquanto os alunos chegavam para sua aula sobre a Corte Suprema, ela encontrou Martin Halpern, um advogado tributarista aposentado que faria uma apresentação sobre os membros atuais da corte. Com uma ponta de nervosismo, Halpern disse que ele quase nunca havia entrado em um tribunal - muito menos a Corte Suprema - ao longo de sua carreira. Mas era tarde demais. Além disso, ele havia lido dois livros para se preparar, e assistido, na semana anterior, a uma palestra de Sandra Day O'Connor, que se aposentou como juíza da Corte Suprema, e de Stephen Breyer, que é um dos nove integrantes atuais do órgão.
Às 10h30min em ponto, Smith se levantou. "A corte agora está em sessão", ela anunciou. Não foi preciso que ela batesse o martelo ou usasse o grande uppercut de direita que Al Smith ensinou há tanto tempo atrás. A sala imediatamente silenciou para escutá-la.
The New York Times
Ruth Proskauer Smith pega o ônibus em direção a mais uma aula
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