Deputado de SC quer banir os apelidos nas escolas

29 de setembro de 2007 • 17h07 • atualizado às 17h15

Fabrício Escandiuzzi
Direto de Florianópolis

Florianópolis


Um projeto de lei que está tramitando na Assembléia Legislativa de Santa Catarina pode criar mecanismos para combater o que antes era considerado uma prática comum entre crianças: colocar apelidos em colegas de escola. O autor do projeto, deputado Joares Pontincelli (PP), afirma que a prática pode atrapalhar o desempenho escolar do estudante que ganha o apelido. "Eu era da turma que colocava apelidos, mas naquela época eu não tinha idéia das consequências", admite.

» Você já teve ou deu apelidos? Quais?
» vc repórter: mande fotos e notícias

A criação de apelidos perjorativos vem sendo estudada por especialistas e ganhou um nome específico. O "bullying" pode ter seu significado traduzido como tiranizar, amedrontar, intimidar e humilhar e é o termo usado por educadores para definir o uso de apelidos com o objetivo de criar constrangimento. O estudo do comportamento surgiu na Suécia e Dinamarca em meados dos anos 70.

Para Pontincelli, o caso deve ser debatido entre os profissionais da Educação por se tratar de uma questão "extremamente séria". Ele atuou no magistério por 20 anos e destaca que o uso de apelidos em crianças pode trazer graves consequências na vida adulta.

"O caso não recebe a atenção devida, mas a humilhação, o constrangimento pode transformar a criança em uma pessoa traumatizada, capaz de atos extremos", diz, citando tragédias como o caso de Columbine e Virginia Tech, nos EUA. "Quantos vezes assistimos meninas e meninos sendo chamados de gorduchos, magrelas ou coisas piores?", questiona.

Pelo projeto de Ponticelli, as escolas deverão criar comissões formadas pelos educadores e pais de alunos, com o objetivo de reprimir os casos, ajudar os estudantes vítimas do "bullying" e impedir o uso de apelidos nas escolas. Ele destaca que a tarefa é muito difícil porque as crianças agem naturalmente.

"O primeiro passo é conscientizar os próprios professores de que o problema é sério, de que as pessoas ficam traumatizadas pelo resto da vida com apelidos indesejáveis", afirma. "Depois vamos explicar aos pais e passar a agir nas escolas, identificando os alunos que colocam apelidos e quais os que são vítimas do bullying".

A proposta é bem recebida pela comunidade, principalmente por quem enfrentou problemas do tipo. A balconista Nilva Maus Corrêa conta que seus dois filhos, de 12 e 7 anos de idade, enfrentam problemas deste tipo. As crianças não queriam mais ir à escola e não brincavam com nenhum colega. Ela só desconfiou quando eles perguntaram se seriam mesmo filhos dela, que é branca e casada com um negro. "Descobri que meu menino caçula era chamado de carvão pelos amigos", diz. "Conversei com a professora, mas ela me disse não há muito o que fazer".

Com apelido de "Orca", a comerciante Kalline Marina Moritz passou boa parte da infância e adolescência sendo maltratada na escola. Atualmente, com 28 anos, admite ser "obsessiva" por regimes, dietas e práticas de exercícios. "Odiava o apelido e jurei que nunca mais seria gorda¿, acrescenta ela, que tem 1,66 m de altura e 58 quilos. ¿Mas nunca me acho satisfeita com meu corpo".

Há casos em que os apelidos passam de brincadeira inocente para atos agressivos. A jovem Ana Lúcia Masseni Ferreira, 24 anos, começou a ser chamada de "Ana Banana" na escola onde estudava. Ela não gostava, mas não via nada demais na brincadeira. "Um dia encontrei no banheiro a frase 'Ana quer Banana' e me senti agredida por ser uma pessoa negra", lembra. "Chorei, contei para a professora e no dia seguinte todos repetiam e cantavam o que estava escrito na parede."

A terapeuta Claudete Fátima Longhi revela que vários de seus pacientes enfrentam sérios problemas devido aos apelidos usados na infância. Segundo ela, o que pode parecer uma brincadeira acaba trazendo limitações à pessoa na fase adulta. "Gera um sentimento de rejeição, mais o preconceito existente no ato", afirma. "A somatização causa queda de rendimento em trabalho, em universidade e traz influências na vida pessoal."

O deputado Ponticelli diz que esses casos ilustram o quanto o uso de apelidos pode ser prejudicial. O projeto dele ainda não cita quais as providências punitivas para os alunos que praticam o "bullying", mas o parlamentar quer que o caso passe a ser enfrentado nas escolas e dentro de casa.

"Parece uma marotice de criança, mas afeta no aprendizado pois a escola passa a se transformar num local de constrangimento. Quero resgatar valores de cidadania e tolerância", diz ele, que garante não ter tido nenhum apelido quando era estudante.

O projeto do deputado está sendo analisado pelas comissões da Assembléia Legislativa de Santa Catarina.

Bullying no Brasil
No Brasil, foi realizada uma pesquisa pela educadora Cleo Fante, em 2003, envolvendo dois mil alunos em oito escolas da rede pública e particular de ensino. O resultado mostrou que 49% estariam envolvidos no fenômeno. Ela é uma das pioneiras no estudo do tema no País, e realiza cursos em instituições de ensino para orientar os profissionais do setor.

No ano passado, o Instituto SM para a Educação (ISME), apresentou dados de pesquisas realizadas na Argentina, México, Brasil, Espanha e Chile. O Brasil foi apontado como o país campeão na prática. O estudo envolveu 4.025 alunos, de escolas públicas e particulares, de 6ª e 8ª séries do ensino fundamental e 2º ano do ensino médio. Os índices mostraram que 33% foram insultados ou alvo de comentários maldosos e 20% chegaram a apanhar.

Segundo os dados levantados pelo Centro Multidisciplinar de Estudos e Orientação sobre o Bullying Escolar (Cemeobes), a média de envolvimento de estudantes brasileiros é de 49%, acima da média mundial, que varia de 5 a 35%.

Redação Terra
 
Enviar para amigos
Fechar por:
Enviar para amigos
Fechar por:

Imprimir

Fechar
Mais vistos

Notícias

  1. Carregando...
leia mais notícias »