Japão: universidades têm até spa para atrair alunos

22 de junho de 2007 • 14h58 • atualizado às 15h17
Piscina térmica em spa é uma das novidades oferecidas pela Universidade Fukuoka de Economia Foto: The New York Times
Piscina térmica em spa é uma das novidades oferecidas pela Universidade Fukuoka de Economia
22 de junho de 2007
Foto: The New York Times

Martin Fackler

Japão


Quando Yasunori Iwanaga estava escolhendo uma universidade, três anos atrás, não foram o programa acadêmico, a forte equipe de judô - seu esporte favorito - ou mesmo o programa de estudo internacional na Inglaterra que o levou a optar pela Universidade Fukuoka de Economia. O fator decisivo foi a piscina térmica no alojamento de alunos.

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Acomodado na piscina, cercado por 12 colegas da equipe de judô, o aluno do primeiro ano do curso de economia diz que optou pela universidade ao ver uma foto de seu spa no panfleto. Os novos alojamentos que a instituição oferece, com qualidade semelhante à de um bom hotel, também estão equipados com salas privadas de karaokê, um jardim de rosas e uma piscina. "Foi a única universidade que tentou nos atrair oferecendo uma fonte de água quente", disse Iwanaga, 21 anos. "Eles realmente nos queriam como alunos".

O Japão tem um dos mais antigos e estabelecidos sistemas de Ensino Superior da Ásia, mas, hoje, suas universidades tentam encontrar novas formas de atrair estudantes. Décadas de queda nos índices de natalidade reduziram seriamente a população de japoneses em idade universitária, o que faz com que mais e mais escolas enfrentem problemas para encontrar alunos em número suficiente para manterem ocupados os seus campi e salas de aula.

O rápido envelhecimento da população japonesa já é sentido em outras partes da sociedade. Centenas de escolas primárias e secundárias, para as quais não existiam alunos suficientes, foram fechadas ou unidas ao longo das duas últimas décadas. Essa tendência começou a afetar o setor de educação superior recentemente.

O "baby boom" do pós-guerra japonês começou antes do americano. Como resultado, de acordo com estatísticas de recenseamento, o número de pessoas com 18 anos no país atingiu seu pico em 1992, com 2,05 milhões de pessoas, quando os filhos da geração "baby boom" estavam entrando na universidade. Desde então, esse número vem caindo regularmente e chegou a 1,3 milhão este ano. As estimativas indicam que o total deva chegar a 1,21 milhão dentro de dois anos.

Como resultado, este ano, cerca de um terço das 707 universidades públicas e privadas do país que oferecem cursos de graduação de quatro anos não conseguirão preencher todas as suas vagas, de acordo com o Ministério da Educação e associações setoriais do setor de ensino. Cerca de metade dos japoneses em idade universitária fazem cursos de ensino superior. Apenas três universidades faliram no país por falta de alunos.

Três anos atrás, a Universidade Risshikan, de Hiroxima, se tornou a primeira do Japão a falir desde a 2ª Guerra Mundial. "Estamos entrando na era da sobrevivência dos mais aptos", disse Yasuhiko Nishii, funcionário da Corporação de Promoção e Ajuda Mútua das Escolas Privadas Japonesas, uma associação setorial. "Precisamos encontrar maneiras de permitir que as universidades mais fracas fechem sem que isso prejudique a educação dos estudantes".

Muitas universidades reagiram ampliando seus esforços de recrutamento, tentando atrair estudantes estrangeiros e os "alunos de prata", aposentados que voltam a estudar por diversão. Em março, a Universidade de Osaka concedeu um doutorado em matemática a um aluno de 71 anos, engenheiro aposentado que decidiu começar seus estudos de pós-graduação ao deixar seu último emprego.

Na Universidade Fukuoka de Economia, localizada em Dazaifu, na ilha de Kyushu, a mais meridional do Japão, os dirigentes responderam à queda no número de candidatos investindo US$ 50 milhões em melhorias, desde 1999, para a construção de alojamentos suntuosos, nos quais todos os 700 quartos são individuais - um luxo nos campi tradicionalmente espartanos do Japão - e estão equipados com acesso à Internet.

A universidade também reduziu à metade o valor de sua anuidade, para 590 mil ienes, ou cerca de US$ 5 mil. Criou, além disso, um curso de "negócios para celebridades", especializado no treinamento de artistas profissionais, depois que seus dirigentes viram uma pesquisa segundo a qual muitos japoneses mais jovens sonham com carreiras criativas, como a música.

A perspectiva de universidades tendo que lutar para atrair e reter estudantes tem causado preocupação no país quanto ao futuro do Ensino Superior japonês. Desde a fundação da primeira universidade moderna do Japão, a Universidade de Tóquio, em 1877, as escolas superiores do país e seus exigentes exames de admissão vêm sendo o principal mecanismo de que dispõe a sociedade para selecionar seus jovens, encaminhando os mais inteligentes aos principais postos de trabalho no setor privado e no governo. Muitos temem que esse mecanismo saia prejudicado caso as universidades reduzam seus padrões em um esforço por atrair mais alunos.

Mas, em um país no qual a educação superior por muito tempo foi vista como uma pausa de quatro anos antes do ingresso na força de trabalho, alguns dirigentes universitários recebem com agrado a idéia de uma concorrência mais intensa, alegando que ela forçará as universidades a melhorar a qualidade da educação que oferecem - sob pena de fechamento.

Atsushi Hamana, presidente da Universidade Kansai de Estudos Internacionais, em Miki, diz que as escolas começaram a compreender que os jovens, na verdade, querem estudar para adquirir a capacitação necessária para concorrer em uma economia cada vez mais globalizada. "É irônico, mas foi preciso uma crise para que as universidades compreendessem que precisam educar, de fato, os seus alunos", disse Hamana.

Tradução: Paulo Eduardo Migliacci ME

The New York Times
 
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