Sem professor, escola obriga alunos a fazer trabalho

01 de junho de 2007 • 11h05 • atualizado às 13h28
Cartaz avisa que os estudantes devem entregar os trabalhos, mesmo sem professor
Cartaz avisa que os estudantes devem entregar os trabalhos, mesmo sem professor
01 de junho de 2007
Carla Moraes/O Dia

Sem aulas desde o início do ano letivo, estudantes do ensino médio em São Gonçalo, no Rio de Janeiro, estão sendo obrigados a fazer trabalhos sobre disciplinas das quais não têm nenhum conhecimento para obter a nota do bimestre.

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As turmas do Colégio Estadual Trasilbo Filgueiras, Jardim Catarina, escolhem um dos temas listados no quadro e têm prazo de duas semanas para entregar pesquisas de física, química e português à coordenação da escola.

O diretor-geral do colégio, Orlando Lélio, afirma que o trabalho não valerá nota e que a intenção foi colocar alunos em contato com o conteúdo de disciplinas que não estavam sendo aplicadas. "Foi forma de pressioná-los a cumprir o prazo", diz.

"Só precisamos pesquisar em alguns livros e copiar. Isso não substitui a aula. Quem consegue aprender física só no livro? Vou passar sem saber nada", queixa-se Alexsandra da Silva, 18 anos, do 2º ano. De acordo com os estudantes, apesar da recusa inicial, foram obrigados a fazer o trabalho, senão ficariam com zero no boletim.

Sem explicação

"O professor só chegou esta semana, depois que a direção já havia passado o trabalho", desanima Dayvid dos Santos Rodrigues, 17 anos, aluno do 1º ano do ensino médio. Luiguy Carvalho, 17 anos, do 3º ano, fez a pesquisa. "Não tive opção. Mas tinha sem nota para se saber que não há professor", disse.

A medida surpreendeu educadores. "É perigoso equiparar um trabalho a uma aula que não foi dada. Só reforça a concepção errada de que o ensino não tem importância", espantou-se a antropóloga Maria de Lourdes Sá Earp, doutora em Sistema de Ensino brasileiro da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Para o Sindicato dos Professores Públicos do Estado (Uppes), a medida é absurda. "O mais importante para a criança não é a nota, e sim a freqüência à escola onde não só aprende, mas se educa", lamentou a presidente Teresinha Machado.

Procurada, a Secretaria de Educação não comentou o assunto. Apenas ressaltou que os alunos da rede estadual terão os 200 dias letivos. "O calendário de reposição de conteúdo será adequado às necessidades de cada unidade, com aulas no contraturno ou sábados e férias", diz a nota oficial.

Recomendações não foram seguidas

Um documento da Secretaria Estadual de Educação dirigido às coordenadorias de inspeção escolar informa que o histórico escolar deverá conter a avaliação obtida em cada série, a carga horária total do ano letivo, o percentual de freqüência do aluno e os resultados apurados no ano letivo em curso, em caso de transferência do aluno no decorrer do ano. Diz ainda que, em casos de transferência do aluno, "cabe à nova escola o ônus da regularização da vida escolar".

As recomendações, porém, não foram adotadas pela secretaria, que autorizou a emissão de boletins incompletos, contendo somente as disciplinas para as quais havia professor. Ontem, o histórico escolar irregular foi anexado pela Promotoria da Infância e Juventude de Duque de Caxias no inquérito civil instaurado pelo Ministério Público Estadual.

O documento será usado na ação civil pública que será ajuizada na Vara de Infância e Juventude do município. A ação vai cobrar a convocação de concursados do banco de 2004 para as escolas de Duque de Caxias.

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