História

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02 de agosto de 2010 • 10h43 • atualizado em 03 de Agosto de 2010 às 13h53

Renascimento e o conceito de Homem

 
Voltaire Schilling

O conceito que se tem do Homem varia no tempo, como também na história. A percepção que se fazia dele na Antiguidade Clássica não era a mesma introduzida mais tarde pelo Cristianismo. Uma mudança significativa, que terminou por se projetar na modernidade, nos veio do Renascimento, quando uma nova formulação, um outro entendimento do que seria o Homem começou a predominar no cenário cultural do Ocidente.

A visão de Agnes Heller
Ex-discípula do filósofo marxista Georg Lukács, Agnes Heller, nascida em Budapeste, na Hungria, em 1929, dedicou-se a determinar num estudo acurado e erudito, intitulado 'O Homem do Renascimento', quais foram as transformações que ocorreram na época da Renascença italiana que mais contribuíram para que uma outra concepção de Homem gradativamente começasse a se impor aos olhos dos pensadores e escritores ocidentais.

Partindo da suposição de que nos tempos clássicos a concepção do Homem era estática, devido às enormes limitações que as potencialidades sociais e individuais sofriam, ela observa que o Cristianismo as ampliou. Mas mesmo assim o Homem encontrava-se balizado entre o Pecado Original e o Juízo Final, que atuavam como as fronteiras iniciais e derradeiras das possibilidades humanas. No Renascimento tudo mudou. Forjou-se naquela oportunidade um conceito dinâmico do Homem, que passou a ter sua própria história de desenvolvimento pessoal tal como a sociedade em que vivia.

E não era para menos. O Homem do Renascimento foi contemporâneo de notáveis transformações de toda ordem provocadas pela Revolução Comercial dos séculos XV-XVI que fez a glória e o esplendor das cidades-estados italianas, das cidades flamengas e alemãs, daquelas que compunham a Liga de Hansa no Báltico, ativadas pela vitalidade da economia monetária, pela emergência do sistema bancário (Banca Médici, Casa Fugger, etc.).

Além disto, inteirou-se das navegações atlânticas dos portugueses, da viagem de Cristóvão Colombo, da chegada à Índia de Vasco da Gama, e da volta ao mundo feita por Fernão de Magalhães. Se o Homem do medievo tinha o seu horizonte limitado pelo feudo ou pelo burgo em que nascera e vivia, o Homem do Renascimento viu seu olhar estender-se pelo mundo inteiro.

Novo entendimento do Cosmo
Mesmo que muitos deles não se intimassem com as teorias heliocêntricas de Nicolau Copérnico ou com a aceitação da existência dos diversos outros mundos defendida por Giordano Bruno, era evidente que as estas novas percepções do universo indicavam um profundo sintoma de mudança geral, entre outras razões porque superaram teorias cósmicas que duravam há mais de 17 séculos (como era o caso das teorias de Aristóteles e de Ptolomeu).

Há uma crescente confiança no Homem. Sobrevivente da Peste Negra do século XIV e dos tumultos da Idade Média, o renascentista começa a vislumbrar um outro cenário de atuação que o leva a pairar sobre o ilimitado, a sonhar com feitos até então impensáveis, tais como aparecem nos engenhos de Leonardo da Vinci( com seus projetos de submarinos e objetos voadores, além de uma quantidade incrível de máquinas fantásticas). Se ele ainda se sente minúsculo frente à grandiosidade do Cosmo, percebe-se grande, senão que gigantesco quando se trata da conquista do mundo, do aqui e do agora, daquilo que o cerca.

Esta nova liberdade, esta consciência de poder lançar-se no impossível foi fruto, segundo Heller, da ascensão do capitalismo. Ainda que em sua fase inicial, ele já se mostrava eficiente no processo de destruição e superação das relações dos indivíduos com a comunidade e com a família.

Isto não só abalou com a rígida hierarquia e estabilidade do medievo como serviu como um impulso para que as personalidades, livres dos liames familiares ou clãnicos, aflorassem desejando marcar sua posição no cenário social e na História. Não foi sem motivos que data do Renascimento o gosto pelo retratismo. Nobres, burgueses, papas e demais membros do clero, desejavam imortalizar-se pelas artes. Queriam afirmar a sua presença singular na Terra de modo definitivo, sendo perenizados pela mão do pintor, gravador ou do escultor.

O Culto ao Homem
Não é tanto uma celebração do individuo em si, mas sim um Culto ao Homem o que predomina. Ocorre o deslocamento do Teocentrismo para o Antropocentrismo. Não mais ao Homem Santo dos tempos medievais, voltado às orações e aos milagres em meio a uma vida de pobreza e castidade, mas aquele se faz por si mesmo e leva uma existência exuberante.

Celebra-se o aventureiro como Marco Pólo, trotador do mundo, ou o capitão mercenário que se torna senhor absoluto de uma cidade como ocorreu com Francisco Sforza (1401-1466) que se sagrou duque de Milão, ou ainda com Erasmo da Narni, dito Gattamelata, ditador de Pádua, tipos que saíram do nada e alcançaram a celebridade pela destreza das armas e pela audácia e ousadia sem freios.

Os príncipes de Maquiavel, gente sem escrúpulo, um tanto humanos, outro tanto feras, homens-lobos vorazes por fama e poder como foi César Borgia ou Giovanni dalle Bande Nere. Orgulhosos, arrogantes, contadores de vantagens e brigões, eram a antítese do ideal cristão.

Por não se deixarem coibir por regras ou pruridos morais da ética religiosa, viram-se compensados em seu atrevimento atrás da fortuna se tornando legendas ainda quando vivos.

O mesmo se aplica ao comerciante ou ao banqueiro bem sucedido, como foi o caso de Cosme de Médici em Florença, capaz de estabelecer ligações mercantis com lugares distantes da Europa ou do Levante.

Aos navegadores audazes que enfrentaram mares desconhecidos e viram de perto reinos longícuos, africanos, asiáticos, ou do Novo Mundo, que imaginavam lendários e não reais, como foi o caso de Diogo Cão que colocou as marcas lusitanas na foz do rio Congo, ou o condottiero-almirante Andrea Dória, os espanhóis Cortes e Pizarro, e tantos outros desbravadores. Todos eles homens de ação e não de contemplação, comprometidos com a vida excepcional, ativíssima, repleta de riscos e incertezas, e não com o ócio monacal, fizeram com que assim o 'homem se tornasse o centro do interesse'.

Deu-se então que a concepção de Gênio sucedeu a de Santo. Enquanto um estreitava a sua relação com o real (o gênio é inventivo) o outro se mantinha ligada ao sobrenatural (ao milagre); O resultado disto foi o interesse crescente pelas coisas da Terra e não somente do Céu. Estudar o habitat, verificar o meio em que o Homem atua, as circunstancias sociais e materiais que o cercam e de que modo elas podem ser mais bem entendidas, daí a explosão dos mapa-múndi e da cartografia. A humanização da natureza foi um dos legados do Renascimento e o estudo das leis que a regem a sua conseqüência.

Ainda que a escolástica pudesse se sentir ameaçada e os dogmas sofressem perceptível desintegração, não houve ataque ateísta no Renascimento. Para isto foi preciso esperar-se pelo Iluminismo e pelo surgimento das escolas materialistas dos séculos XVIII e XIX.

Bibliografia
Cassirer, Ernest - Individuo e Cosmos na Filosofia do Renascimento. São Paulo: Martins Fontes, 2001.
Heller, Agnes - O Homem do Renascimento. Lisboa: Editorial Presença, 1984.
Maquiavel, Nicolau - O príncipe. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 1968.

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