História

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11 de fevereiro de 2011 • 18h49 • atualizado às 18h55

Nilo manteve a continuidade da cultura egípcia

O rio Nilo é diretamente ligado à história do Egito
Foto: Getty Images
 

Voltaire Schilling

O rio Nilo, o maior rio em extensão do mundo, também é o responsável direto por manter a continuidade de uma das mais antigas culturas que temos registro, a cultura egípcia. Saiba um pouco da sua história e do simbolismo das suas colossais construções.

José e as pragas do Egito
O hebreu José ainda estava encarcerado, vítima da perfídia da mulher de Putifar, quando o Faraó mandou chamá-lo para esclarecer um mistério. Precisava de alguém que lhe interpretasse um sonho que o atormentava há algum tempo. Nele o faraó estava à beira do rio Nilo e viu por ali passar sete vacas gordas que, em pouco tempo, foram devoradas por outras sete vacas magras. Em seguida, deparou-se ele com sete belas espigas de trigo para igualmente vê-las desaparecer engolidas por outras sete mirradas espigas.

José, que tinha o dom da adivinhação, disse ao imperador que se tratava de uma mensagem divina. Deus, por meio da sua estranha linguagem onírica, avisava o Faraó para que se precavesse. Haveria no Egito sete anos de abundância e, em seguida, sete anos de fome. José aconselhou-o então que mandasse recolher tudo o que fosse possível na época da anunciada bonança, porque os sete anos futuros seriam de estiagem generalizada. Tão impressionado ficou sua majestade que, rebatizando com o nome de Sefenat Fanec, encarregou o visionário hebreu de assumir uma função plenipotenciária, responsabilizando-o doravante pelo sucesso do armazenamento dos mantimentos, dando assim os começos da vida de sucesso de José (Gênesis, 37-50).

O Faraó e o Nilo
Este sonho em si sintetiza tudo na vida do Egito Antigo. Nele encontram-se os diversos elementos que compõem sua história: o Faraó como interlocutor entre os deuses e os homens; a banal e antiquíssima crença de que o sobrenatural se comunica com o natural através dos sonhos; a dependência que a população tinha da carne e do trigo e, finalmente a magna presença do rio Nilo.

E anuncia também a referência mágica do número sete. Algarismo de profundo significado hermético. Foi este número que orientou o faraó Ramsés II a que desse início entre os séculos 14 e 13 e a.C. na construção de sete templos sagrados espalhados pelas ribeiras do Nilo. Um deles Beit el-Wali, outro em Gerf Hussein, mais outro em el -Sebua, em el-Derr, os magníficos templos de Abu Simbel (onde ele se fez reproduzir em forma colossal), Aksha e, finalmente, o de Ibsambul. Durante muito tempo os arqueólogos quebraram a cabeça para entender seu significado, até concluírem que aquelas construções tratavam-se de "casas divinas" só acessíveis aos sacerdotes, aos sábios e ao próprio faraó, erguido para afirmar e assegurar a regularidade das preciosas cheias do rio.

Os deuses
Para os egípcios havia uma sagrada simbiose entre o Nilo e todos os reinos vivos da Terra. Nada havia na natureza que dele não dependesse. Tão forte era a crença que em todas as suas representações sagradas os seus deuses são pintados ou esculpidos de maneira zooantropomórficos, isto é , têm simultaneamente forma humana e animal: Bastet, a deusa da guerra, tem uma cabeça de leoa; Thot, deusa da escrita , uma de Íbis; Hátor, a deusa das mulheres e do céu, tem chifres de vaca e mesmo Rá, o deus-sol, um dos mais cultuados, ostenta sobre o disco solar , uma cabeça de falcão. Imaginavam eles que a vida tivesse emergido dos pântanos e concebiam a existência como uma harmonia entre o mundo humano, o animal e o vegetal. Bem ao contrário da cultura ocidental (que as separa em esferas distintas - reservando a superior para os humanos e a inferior para as demais), eles não faziam distinções entre os reinos. Tudo dotado de vida era uma manifestação do sagrado.

A lenda de Osíris
Atribui-se também à sua religião a ideia do deus morto e redivivo, reproduzida na lenda de Osíris: a história do deus morto à traição pelo seu perverso irmão Seth, o "Caim" dos egípcios. Essa história era uma representação simbólica das fases de estiagem do Nilo, quando em dezembro ele se encolhia. Osíris, todavia, ressuscitava voltando à vida, transbordando das suas margens e propiciando com seu humo as prodigiosas colheitas por todo o lugar onde passava.

Manifestavam eles a mais profunda fé no retorno futuro dos seus mortos ilustres. Daí mumifica-los. Os egípcios eram os apologistas da ressurreição. Não aceitavam que seus grandes simplesmente desaparecessem nos breus escuros da morte como acontecia aos demais mortais. Inconformados, envolviam os corpos dos grandes mortos em natrão (carbonato hidratado de sódio natural) e essências especiais. Enchiam-lhes as cavidades com panos ensopados em resina e sacos de matérias perfumadas com mirra e canela, enfaixando-os, por fim, com tiras de linho. Sepultavam-nos então seus faraós e grão-sacerdotes em prédios gigantescos, dignos da magnitude deles, em mastabas, pirâmides ou em templos no Vale dos Reis. No sarcófago ilustre deixavam parte dos seus bens e decoravam tudo com imagens que faziam o gosto do falecido, visto que esperavam que na outra vida ele pudesse usufruir daquilo que amara aqui na terra.

A grandeza do estado
Tais construções majestosas e imponentes, que se encontram em várias partes do alto e baixo Nilo, glorificavam ainda outra coisa. Foram elas as primeiras manifestações arquitetônicas celebrantes da grandeza do estado. As dimensões gigantescas e a estatuária extravagante da maioria delas, como é o caso das pirâmides da planície de Guizé, que até hoje impressionam qualquer visitante, são lembrança permanente do feito extraordinário que foi constituir-se um estado centralizado, soberano e independente, que se estendia por milhares de quilômetros quadrados do solo africano. O Antigo Egito formou uma sociedade emblemática. Nenhum dos seus reinos vizinhos, na Palestina, ou na velha Mesopotâmia ou no planalto do Irã, atingiu a sua duradoura continuidade. Com aqueles edificios-monumento o faraó desejava imortalizar não apenas a sua sobrevivência no mundo do além, no reino dos mortos, mas igualmente a perpetuação do poder do estado real. Era como se houve um trono imaginário no vértice das pirâmides contemplando dali os quatro cantos da Terra. O Estado é aquele que tudo vê e que tudo alcança com seu olhar. A base dele pode estar enraizada no chão, na realidade, mas sua cabeça coroada encontra-se nas alturas, perto dos céus e dos deuses, bem longe da vista dos simples mortais.

Construído as pirâmides
Geograficamente o Antigo Egito era uma confederação de oásis espalhados pelo Nilo e adjacências e bem poucas vezes, ao correr da sua longuíssima história, as antigas cidades de Mênfis, Tebas ou Heliópolis, gozaram de alguma autonomia política. Quem o dominasse o rio Nilo, dominava tudo. Deste modo, quando os governantes do Alto Nilo, situado próximo ao delta, unificaram todas as regiões mais ao sul, submeteram-nas a um único e sólido reino: o império dos faraós. E, para fixar definitivamente essa integração norte-sul, fizeram vir por barcaças e jangadas, enormes pedras de todas as partes do país para empilhá-las, uma a uma, formando assim as impressionantes pirâmides de Guizé. Os quatro pontos cardeais da base da pirâmide, os quatro cantos do império, tinham um só comando situado no seu topo.

Toda a dócil população ribeirinha do Egito, os felás, transformada num exército de operários, era então convocada para, nos períodos da entre-safra, vir a colaborar no erguimento delas, fazendo com que aquelas construções imperiais representassem também, em sua grandeza, a materialização das possibilidades coletivas da humanidade. As pirâmides não foram obra de gente escrava, mas sim de milhares de súditos de um Egito independente e orgulhoso.

O papiro e a memória
Nenhum rio do mundo sustentou a perenidade de uma civilização, de uma cultura e de um estado, durante tanto tempo como o Nilo o fez. Nascido bifurcado, resultado do Nilo branco e do Nilo azul, vindos ambos das profundezas do coração da África, ele cumpre uma sinuosa trajetória de mais de 6 mil quilômetros. Rasgando com suas águas mansas o deserto, termina por desaguar no Mediterrâneo. No seu berço ele é assistido por um monte de pedras e, ao longo das suas margens, contido pelas areias finas do Saara. O Sol inclemente acompanha suas corrente o tempo inteiro. Foi nas suas beiras que se multiplicou o papiro, utilizado como o papel da época, que proporcionou que se registrasse nele toda a sabedoria da Antigüidade. O Nilo, tal como os rios da Mesopotâmia, é assim um dos rios-mãe da humanidade, tudo por primeiro surgiu por lá, dali espalhando-se para o restante do mundo.

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