
- Voltaire Schilling
Reconhecida a independência argentina em 1825, os ingleses voltaram a se atritar com os portenhos. Desta feita, pela ocupação das Malvinas, ilhas situadas a uma distancia mínima de 480 km da Patagônia, a 772 km a noroeste do cabo de Los Hornos, a 1.080 km a oeste das ilhas Geórgia do Sul e a 940 km ao norte da ilha Elefante, na Antártida. O arquipélago é formado por cerca de 200 ilhas, sendo que as maiores são a Grande Malvina (com 4.377 km²) e a Ilha Solidão (6.353 km²).
Falklands ou Malvinas: veja curiosidades sobre as ilhas
Elas ocupavam uma posição estratégica na medida em que é um ponto de observação e apoio relativamente próximo ao estreito de Magalhães, que liga os oceanos Atlântico e Pacífico. E aqui se faz necessário um ligeiro histórico do papel que elas representaram na relação entre os dois países.
Chamadas com justa razão pelos espanhóis de Ilhas Solidão, devido ao total desamparo, cercadas por um mar gelado e sem ninguém por perto, as Malvinas foram objeto de atenção dos navegantes ingleses a partir do século 18 - especialmente após a guerra dos Sete Anos (de 1756 a 1763).
Desejosos de "plantar" colônias nas áreas periféricas ao Império Espanhol, os britânicos delas se apoderaram por pouco tempo, rebatizando-as de ilhas Falklands, mas desistiram de lá permanecer em 1774, quando teriam obtido o reconhecimento espanhol de sua soberania.
O assunto do estatuto real das Malvinas parece não ter sido suficientemente esclarecido, pois se descobriu documentação indicando ter a Coroa Espanhola pago a um senhor de Bougainville a quantia de 618.108 libras francesas para que ele fixasse uma colônia nas Ilhas Solidão. Dificilmente os espanhóis fariam tal contrato se tivessem abdicado da soberania do arquipélago como alegaram os ingleses. O nome Malvinas deriva assim dos franceses arrendatários originários do porto de Saint-Malô, isto é Malouines.
As Malvinas tornam-se argentinas
Dez anos depois de terem dado início ao levante autonomista de 1810, o governo de Buenos Aires enviou para lá um capitão-de-mar mercenário que proclamou a posse das ilhas para as Províncias Unidas do Rio da Prata e advertiu os comandantes pesqueiros sobre os direitos de soberania. Neste tempo todo, elas haviam se tornado em local de reabastecimento de embarcações dedicadas à caça de focas e baleias, havendo muitas cabeças de gado por lá deixadas por alguns colonos espanhóis.
Reafirmada sua soberania, o governo argentino passou a estimular a ocupação através de concessões feitas ao direito de utilizar as pastagens bem como a pesca. Quem delas se aproveitou foi um francês de nome Louis Vernet, que terminou nomeado governador das Malvinas em 1829. Recém-empossado, estabeleceu disposições para evitar a presença estrangeira. Suas sanções visavam, com especial frequência, aos pescadores norte-americanos.
Americanos x argentinos
A resposta não demorou a vir. Com a natural truculência da diplomacia ianque da época, o cônsul americano em Buenos Aires, chamado George Washington Slacum, reclamou a vinda de uma fragata americana para pôr fim às disposições de Vernet. A tese americana era de que as ilhas Malvinas eram uma terra-de-ninguém, não cabendo aos pescadores obedecer às imposições do governador indicado por Buenos Aires.
A recém-chegada fragata Lexington não tardou em capturar Porto Luis e, além de se apropriar de uma partida de pelos de foca, levou para seus porões agrilhoados os principais moradores da Ilha. Seu destino seria responder à acusação de prática de pirataria. Formou-se uma confusão, pois um lado acusava o outro de crimes. Esse infeliz incidente, ocorrido em 1831, fez com que a Argentina rompesse relações diplomáticas com os Estados Unidos pelos 11 anos seguintes.
Impossibilitado de obter proteção dos argentinos e acossado pelos americanos, Vernet se insinuou junto ao governo britânico, narrando-lhes as vantagens estratégicas e comerciais do arquipélago. Na verdade, seu empreendimento havia falido e aqueles poucos habitantes que restaram ficaram reduzidos a uma vida semivegetativa. As Malvinas, de fato, estavam ao desabrigo, sujeitas ao primeiro aventureiro que as desejasse ocupar.
Selo argentino comemorativo a Vernet
A operação de captura e aprisionamento praticada pelos americanos em 1831 avivou o interesse britânico. O Foreign Office recebeu estimulantes sugestões por parte de dois observadores, Beckington e Langton, que procuraram demonstrar a importância das Ilhas, tanto como base militar como em oferecer uma rota alternativa no caminho para a Austrália.
