atualizado em 27 de Abril de 2012 às 16h41

Malvinas, parte 1: o Império Britânico ataca a Argentina

Em 1806, ingleses tentaram tomar Buenos Aires Foto: Getty Images
Em 1806, ingleses tentaram tomar Buenos Aires
Foto: Getty Images
 

Voltaire Schilling

Causou enorme espanto e sentimento de impotência entre os sul-americanos o deslocamento da Royal Navy, a Marinha Real Britânica, em direção às frias águas do Atlântico Sul durante a Guerra das Malvinas, no ano de 1982. Reproduziu-se, naquela ocasião, o que fora um grande tormento um século e meio antes para as então jovens nações sul-americanas logo depois do Movimento da Independência - a "diplomacia das canhoneiras". A todos veio à memória que aquele tipo de operação punitiva permeou por várias vezes as relações das potências europeias com os povos sul-americanos durante o século 19.

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Ingleses no Rio da Prata
Para os argentinos, a ameaça de uma intervenção naval britânica não trazia nada de inusitado. Na verdade, a Guerra das Malvinas, ocorrida em 1982, foi o quarto enfrentamento entre os súditos de Sua Majestade e os habitantes do Prata desde os tempos colônias. Nesta rememoração, selecionamos dois desses confrontos: o primeiro deles ocorrido entre 1806 e 1807, conhecido como as Invasões Inglesas, e o segundo, aquele que se deu com a ocupação das ilhas Malvinas, em 1833.

Descontando-se as constantes ações de corsários ingleses na bacia do Prata, a primeira e mais séria demonstração de interesse britânico em se apossar de Buenos Aires ocorreu quando Sir Home Popham, atrás de "lucro e glória", como ele mesmo escreveu, organizou em 1806 uma expedição naval com fins da sua conquista, sem que para tanto tivesse recebido qualquer autorização oficial para isso.

Ele fora informado por um negociante norte-americano que a cidade de Buenos Aires, muito mal defendida, possuía uma considerável reserva em dinheiro avaliada em US$ 27 milhões, o que imediatamente fez crescer-lhe a cobiça.

Visualizou, por igual, a possibilidade de furar o protecionismo mercantil do decadente império espanhol, esperando fazer com que as mercadorias vindas de Londres penetrassem em definitivo no interior do continente Sul-Americano. Quem ocupasse a embocadura do Rio da Prata faria cair todo o cone sul em suas mãos.

Sir Home Popham, primeiro invasor de Buenos Aires
Tomando Buenos Aires, Popham desejava ter acesso direto a um desconhecido e exótico mercado. Contudo, os mercadores ingleses se frustraram mais tarde com o fato de que o hinterland do Cone Sul, formado pelas províncias de Entre-Rios, Corrientes e do Paraguai, era praticamente despovoado, estando longe das expectativas de formar um público consumidor relevante. Mas isso foi mais tarde.

O almirante inglês organizou então um comboio naval que transportaria 1,6 mil soldados e que teria como ponto de partida a recém-conquistada Cidade do Cabo, na África Austral, ocupada pelos britânicos em 25 de julho de 1805, e também a Ilha de Santa Helena, no Atlântico.

Num primeiro momento, a força expedicionária inglesa não teve dificuldades em tomar a capital do então Vice-Reino do Prata em 25 de junho de 1806, tendo em vista que a principal autoridade espanhola, o vice-rei Sobremonte, retirou-se para Córdoba sem resistir, levando consigo 9 mil onças de ouro do seu patrimônio.

Para surpresa dos britânicos, os portenhos não demoraram em reagir. Uma aliança entre comerciantes espanhóis, burocracia estatal-militar e estancieiros crioulos, representados, respectivamente, por Alzaga, Liniers e Pueyrredón, retomaram a cidade com certa facilidade.

Especial para Terra