Darwin no Brasil - Parte III

Voltaire Schilling

Numa propriedade escravista
13 de abril. - Depois de três dias de viagem, chegamos a Socêgo, propriedade do Senhor Manuel Figuireda, parente de um membro da nossa comitiva. A casa era simples, e, embora tivesse a forma de um celeiro, estava bem de acordo com o clima. Na sala havia sofás e cadeiras douradas que faziam um enorme contraste com o teto de sapé, com as paredes caiadas e com as janelas sem vidraça.

A casa, os armazéns, o estábulo e a oficina para os negros, que tinham aprendido a fazer vários trabalhos, compreendiam um quadrilátero mal formado em cujo centro se via uma grande pilha de café a secar. Estas construções estavam localizadas sobre uma pequena colina que dominava os terrenos cultivados e se encontrava cercada por todos os lados pela ramagem verde escuro de uma luxuriante floresta.

O café é o principal produto desta parte do país. Cada pé deve produzir anualmente a média de um quilo, mas muitos são os que chegam a dar quatro quilos. A mandioca também é intensamente cultivada. Esta é uma planta cujas partes são todas úteis: as folhas e o talo servem de alimento aos cavalos; as raízes, depois de moídas em polpa, secadas e cozidas, formam a farinha que constitui o principal artigo de subsistência no Brasil. É fato curioso e bem conhecido que o suco desta planta tão nutritiva é um poderoso veneno. Há alguns anos morreu nesta Fazenda uma vaca, em conseqüência de o haver bebido. O Senhor Figuireda me disse que no ano anterior ele havia plantado uma saca de feijão e três de arroz, tendo colhido do primeiro oitenta e do segundo trezentas e vinte.

Os pastos mantêm um belo plantel de gado, e as matas encerram tanta caça que em cada um dos três últimos dias foi morto um veado. Essa abundância de alimento provou ser um almoço e tanto, e se as mesas não gemeram, os hóspedes, por sua vez, certamente o fizeram. Afinal, esperava-se que cada pessoa comesse de todos os pratos trazidos. Certo dia, tendo eu me programado para que nenhum prato deixasse de se provado, eis que vejo, consternado, aparecer ainda, em toda a sua substancial realidade, um suculento peru recheado e um porco assado.

Nas horas de refeição, havia um criado cuja única função era enxotar da sala alguns cães, bem como um grupo de crianças negras que se aproveitavam de todas as oportunidades para entrar. Pudesse ser banida a idéia da escravidão e haveria neste modo simples e patriarcal de viver um quê de fascinação: um retiro perfeito, independente do resto do mundo.

No instante em que se avista a chegada de qualquer estranho, um grande sino se põe a tocar e, em geral, ouvem-se salvas de pequenos canhões. A notícia é dada, deste modo, às pedras e às matas, mas a mais ninguém. Saí uma manhã, uma hora antes do alvorecer, a fim de admirar a solene quietude do cenário. Por fim, o silêncio se desfez com o hino matinal que, entoado por todos os trabalhadores negros, encheu o ar. Assim geralmente dão começo à sua lida. Em fazendas como esta, não duvido de que os escravos tenham uma vida feliz e contente. Nos sábados e domingos trabalham para si próprios, e, neste clima fértil, dois dias de trabalho são suficientes para garantir o sustento de um homem e de sua família durante uma semana.

Enfrentando um cipoal
14 de abril. - Deixando Socêgo, dirigimo-nos a outra propriedade, no Rio Macaé, o último pedaço de chão cultivado nesta direção. A propriedade contava quatro quilômetros de comprimento, mas o dono tinha se esquecido quanto media de largura. Somente uma pequena parte tinha sido roçada. Cada acre, contudo, era capaz de produzir todas as riquezas de uma terra tropical. Levando em conta a enorme superfície do Brasil, a proporção de terras cultivadas é insignificante se tomamos as extensões abandonadas ao estado de natureza selvagem: numa era futura, que população imensa este país não sustentará!

Durante o segundo dia da nossa jornada, encontramos a estrada tão fechada que foi preciso mandar um homem à frente de facão, a fim de abrir passagem no cipoal. A floresta abundava de lindos objetos. Dignos de admiração eram as samambaias arborescentes que, embora pequenas, ostentavam nas curvas elegantes de sua fronde uma folhagem verde e brilhante. Ao entardecer choveu muito, e senti bastante frio, apesar do termômetro marcar 18°C. Logo que parou de chover, foi curioso observar a extraordinária evaporação que começou a ocorrer sobre toda extensão da floresta. As colinas, a uma altura de trinta metros desapareciam sob uma densa neblina branca que se erguia como colunas de fumaça saindo das partes mais cerradas da mata, especialmente dos vales. Observei o mesmo fenômeno em várias ocasiões, e suponho que seja devido à grande superfície de folhagem, previamente aquecida pelos raios solares.

Cena terrível
Durante a minha permanência nesta propriedade, por pouco não fui testemunha-ocular de um desses atos de atrocidade que somente podem tomar lugar num país de escravos. Por questões de processo jurídico, o proprietário esteve prestes a tirar da companhia dos escravos todas as mulheres e crianças para vendê-as em separado nos leilões do Rio. O interesse, e não um genuíno sentimento de compaixão, foi o que impediu a perpetração deste ato. De fato, não creio mesmo que à mente do proprietário tivesse sequer ocorrido a idéia da covardia que seria separar trinta famílias, que há tantos anos viviam unidas.

Posso assegurar, no entanto, que, em matéria de humanidade e de boa índole, este cavalheiro está acima da média dos homens. Não há limites, pode-se dizer, à cegueira do interesse e do egoísmo. Menciono aqui a seguinte anedota que se passou comigo e que me impressionou muito mais intensamente de que qualquer história de crueldade que eu pudesse ter ouvido.

Certo dia, tomei uma balsa em companhia de um negro que era singularmente estúpido. Para ser compreendido, passei a falar alto e a gesticular por meio de sinais. Em algum momento, devo ter passado a mão tão perto demais de seu rosto. Ele, suponho, julgando que eu talvez estivesse irado e fosse acertá-lo, deixou os braços penderem, a fisionomia transfigurada pelo terror, os olhos semicerrados. Jamais poderei esquecer as sensações que em mim brotaram, mescla de surpresa, repulsa e vergonha por ver um homem tão grande e poderoso amedrontado demais para se esquivar sequer da pretensa bofetada que ele achava que iria receber no rosto. Este homem havia sido treinado para se acomodar a uma degradação mais aviltante que qualquer escravidão que pudesse ser imposta ao mais indefeso dos animais.

Na estrada de volta
18 de abril. - Ao retornar, passamos dois dias em Socê¬go. Ocupei-me em coletar insetos na floresta. A maioria das árvores, conquanto elevadas, não tinha circunferência superior a noventa centímetros ou a um metro. Há, é claro, algumas de dimensões muito maiores. O Senhor Manuel se encontrava, na ocasião, construindo uma canoa de 21 metros, com um tronco de enorme grossura, que antes medira 33 metros de comprimento. O contraste das palmeiras crescendo entre espécies dotadas de ramos comuns nunca deixa de dar à paisagem um caráter intertropical. Aqui as florestas são ornamentadas por palmeiras* - uma das mais belas de sua família. Com um caule tão fino que se poderia abarcar com as mãos, balança sua graciosa ramagem a doze ou quinze metros do solo. As trepadeiras lenhosas, por sua vez cobertas por outras trepadeiras, eram de grosso calibre: algumas, que medi, de cerca de sessenta centímetros de circunferência.

Jardim Botânico
Muitas das árvores mais velhas tinham uma aparência curiosa devido a tranças de liana que lhe pendiam dos galhos como se fossem molhos de feno. Se os olhos se voltassem do mundo de folhagens acima para o chão, seriam logo atraídos para a extraordinária elegância das folhas das samambaias e das mimosae. As últimas, em certos lugares, cobriam a superfície com um tapete de vegetação de poucos centímetros de altura. Cruzando estes densos canteiros de mimosae, deixa-se atrás de si um largo rastro que se faz notar pela mudança de coloração produzida pelo descaimento de seus sensíveis pecíolos. É fácil de se especificar os objetos de admiração individual nestas cenas grandiosas, mas não é possível transmitir uma idéia adequada do que sejam as sensações de maravilha, surpresa e devoção que enchem e elevam a mente.

De novo no Rio de Janeiro
19 de abril. - Deixando Socêgo, passamos os dois primeiros dias voltando pelo caminho andado. Foi tarefa das mais maçantes, visto que a estrada, em grande parte, seguia por uma planície de areia quente e brilhante, não longe da costa. Notei que o casco do cavalo rangia ao pisar na areia fina. No terceiro dia, tomamos uma direção diferente e passamos por um vilarejo alegre chamado Madre de Deus. Esta é uma das principais estradas do Brasil, entretanto se encontra em tão mau estado que nenhum veículo de rodas, a não ser o ruidoso carro de bois, pode transitar por ela. Em todo o nosso percurso, nunca atravessamos uma ponte sequer que fosse de pedra, e as feitas de madeira, que freqüentemente encontrávamos, estavam em condições tão precárias que precisávamos dar a volta a fim de evitá-las. Não se pode ter certeza de nenhuma distância. Em muitos pontos da estrada, em lugar de um marco milhar se vê uma cruz, indicando um local onde se derramou sangue humano. No entardecer do dia 23, chegamos ao Rio encerrando assim nossa pequena e agradável excursão.

Durante todo o resto de minha permanência no Rio, residi em uma quinta na Baía de Botafogo. Era impossível se desejar coisa mais deliciosa do que passar assim algumas semanas num país tão magnífico. Na Inglaterra. qualquer pessoa apaixonada pela história natural sempre tem nos passeios alguma coisa que lhe atraia a atenção: mas aqui, na fertilidade de um clima como este, são tantos os atrativos que não se pode nem mesmo dar um passo sem lamentar a perda de uma novidade qualquer.

Novas espécies
As poucas observações que fui capaz de fazer versaram quase que exclusivamente sobre animais invertebrados. A existência de uma divisão do gênero Planaria, habitante da terra seca. muito me interessou. Estes animais têm uma estrutura tão simples que Cuvier os fez figurar entre os vermes intestinais, embora nunca tenham sido encontrados no corpo de outros animais. Numerosas espécies habitam tanto a água doce quanto a salgada, mas estas de que falo são encontrada mesmo nas partes mais secas da floresta, embaixo de troncos podres, dos quais, creio eu, elas se alimentam.

Na forma geral, parecem-se com pequenas lesmas, porém são muito mais estreitas, e, além disso, várias representantes da espécie possuem riscas longitudinais de cores muito lindas. A estrutura é muito simples: próximo ao centro da superfície ventral existem duas pequenas fissuras transversais. Da fissura anterior pode se projetar uma boca excessivamente excitável em forma de funil, que retêm sua vitalidade algum tempo depois da morte completa do animal, provocada pela água salgada ou por outra causa qualquer.

Encontrei nada menos do que doze espécies diferentes de Planariae terrestres em diferentes partes do hemisfério sul*. Algumas espécies que obtive na Terra de Van Dieman se conservaram vivas durante quase dois meses, alimentando-se de madeira podre. Tendo seccionado transversalmente um dos animais, em duas partes iguais, observei, após um período de quinze dias, que as duas metades se apresentavam com a forma de dois animais perfeitos.

Eu tinha, no entanto, dividido o corpo de maneira que uma das metades contivesse os dois orifícios ventrais, nenhum restando para a outra. Vinte e cinco dias depois desta operação, mal se poderia distinguir entre a metade mais perfeita (que havia se desenvolvido) e qualquer outro indivíduo da espécie. A outra metade havia aumentado muito de tamanho. Podia-se distinguir, próximo a extremidade posterior, um espaço em claro na massa parenquimatosa, no qual se podia perceber a formação de uma boca rudimentar em forma de taça. Na superfície ventral, porém, nenhuma fissura correspondente se abrira. Se a intensificação do calor, ao nos aproximarmos do Equador, não tivesse destruído todos os indivíduos, não tenho dúvida de que esse último detalhe de estrutura teria sido completado.

Por muito conhecida que seja esta experiência, é sempre muito interessante acompanhar a formação gradual de cada órgão essencial, a partir da mera extremidade de outro animal. É extremamente difícil de preservar estas Planariae. Logo que a cessação da vida permite a ação das leis comuns de transformação, o corpo do animal se torna mole e fluido, com uma rapidez como nunca vi igual.

A importância da faca
A primeira vez que visitei a floresta onde estas Plenariae foram encontradas, foi em companhia de um velho padre português, que me levou para caçar consigo. O esporte consistia em soltar na moita alguns cães e fazer fogo contra qualquer animal que dali surgisse. Acompanhava-nos o filho de um fazendeiro vizinho ¿ bom exemplar de jovem nativo brasileiro. Ele vestia camisa e calças velhas, rasgadas, e vinha com a cabeça descoberta. Carregava uma espingarda antiquada e facão. O hábito de carregar uma faca é universal. E é quase um bem necessário ao se entrar no mato, por causa do cipó. A freqüente ocorrência de assassinatos pode, em parte, ser atribuída a isso.

Os brasileiros são tão destros na faca que são capazes de atirá-la com ótima pontaria a alguma distância, e com força suficiente para causar um ferimento mortal. Vi diversos meninos que praticavam a arte como meio de diversão, e, pela habilidade com que acertavam o alvo, um pau vertical, muito prometiam em caso de empreendimentos mais sérios.

O meu companheiro, no dia anterior, tinha matado dois grandes macacos barbudos. Esses animais possuem rabos com capacidade de apreensão, na extremidade dos quais podem, mesmo após a morte, suportar todo o peso de seus corpos. Um dos símios tinha ficado pendurado desta maneira no alto de um galho, e foi necessário se derrubar a árvore para apanhá-lo. Isso foi logo feito, árvore e macaco vindo abaixo estrepitosamente. O resultado do nosso dia de caçada foi, além do macaco, muitos papagaios verdes e uns poucos tucanos. Tive, no entanto, vantagem em ficar conhecendo o padre português, pois em outra ocasião me deu de presente de um belo exemplar do gato Yagouaroundi.

A beleza da baia do Botafogo
Todos já ouviram falar da beleza do cenário da Baía de Botafogo. A casa em que me encontrava hospedado estava situada bem debaixo da famosa montanha do Corcovado. Tinha-se afirmado, com muita verdade, que os morros cônicos e abruptos são os característicos da formação a que Hum¬boldt chamou de granito-gneiss. Nada mais admirável do que o efeito dessas colossais massas redondas de rocha nua emergindo do seio da mais luxuriante vegetação. Muitas vezes, eu me entretinha olhando as nuvens, que, rolando sobre o mar, vinham formar um manto logo abaixo do ponto mais elevado do Corcovado.

Como muitas outras, esta montanha, quando parcialmente velada, parecia se erguer a uma altura muito superior à sua real, que é de 700 metros. O sr. Daniell, em seus ensaios meteorológicos, observou que uma nuvem às vezes parece se fixar no cume de uma montanha, ainda que o vento continue a soprar sobre ela. O mesmo fenômeno se produz aqui, mas com aspecto um pouco diferente. Via-se claramente, neste caso, a nuvem rodear o cume e passar por ele rapidamente, sem que sofresse nenhum aumento ou diminuição de volume. O sol estava se pondo, e uma brisa suave do sul, cobrindo esse lado da rocha, vinha se mistura às correntes de ar mais frio das camadas superiores, dando oportunidade a que se condensasse o vapor. Contudo, à medida que as nuvens passavam pela encosta, e sofriam a influência da atmosfera quente do declive ao norte, as leves formações tornavam imediatamente a se dissolver.

O clima durante os meses de maio e junho, ou no começo do inverno, era delicioso. A temperatura média, recolhida às nove horas da manhã e da noite, ficava em torno dos 22°C. Freqüentemente chovia com abundância, embora logo os ventos secos do sul restituíssem o prazer dos passeios. Certa manhã, num período de seis horas, caíram quatro centímetros de chuva. Assim que esta tempestade passou por cima das florestas ao redor do Corcovado, as gotas da chuva, caindo sobre um número incalculável de folhas, produziam um ruído bastante peculiar, que se fazia ouvir a quatrocentos metros de distância. Após um dia de calor, era muito agradável sentar-se tranqüilamente no jardim e ver a tarde cair. A natureza, nestes climas, escolhe para seu coro animais mais modestos que na Europa.

Uma rã, do gênero Hyla, senta-se sobre a relva à beira d¿água e projeta o seu alegre coaxar. Quando várias estão reunidas, ouve-se, então, uma harmonia composta por diferentes notas. Encontrei muita dificuldade em apanhar um espécime dessa rã. 0s animais do gênero Hyla têm pequenas ventosas na ponta dos dedos. O exemplar que apanhei podia subir por uma parede de vidro quando posta absolutamente na perpendicular. Inúmeras cicidae e grilos produzem, ao mesmo tempo, um estridular ininterrupto, que, amainado pela distância, não é de todo desagradável. Todas as noites, depois de escurecer, começava o grande concerto, e freqüentemente eu me sentava para ouvi-lo, até que minha atenção fosse atraída por algum inseto curioso que passasse.

O piscar dos vaga-lumes
Nessas horas, vêem-se os vaga-lumes piscarem suas luzes aqui e acolá. Em uma noite escura, a luz pode ser vista a cerca de duzentos passos de distância. É digno de nota que, em todas as diferentes espécies de insetos luminosos, eláteros brilhantes e animais marinhos (como crustáceos, medusas, ne¬reidas e coralinas dos gêneros Clytia e Pyrosoma) que observei, a luz tem sido de uma cor verde muito acentuada. Todos os insetos luminosos que apanhei aqui pertencem à família Lampyridae (na qual se acham incluídos os vaga-lumes que se vêem na Inglaterra), e o maior número de espécimes são de Lampyris occidentalis*.

Verifiquei que os insetos emitiam seu maior brilho quando eram irritados: nos intervalos, os anéis abdominais ficavam escuros. O brilho era quase simultâneo nos dois anéis, mas a princípio apenas perceptível no anel anterior. A substância luminosa era fluida e muito pegajosa, e, nos lugares onde a pele havia sido tirada, continuavam pequenos pontos a brilhar com ligeira cintilância, ao passo que as partes intactas permaneciam obscuras. Decapitado o inseto, os anéis se mantinham com brilho ininterrupto, mas não tão intenso como antes: a excitação local com uma agulha sempre intensificava a vivacidade da luz.

Numa das experiências, os anéis retiveram sua propriedade luminosa durante quase vinte e quatro horas depois da morte do inseto. Destes fatos, parece provável que o animal tem apenas o poder de ocultar ou extinguir a luz durante curtos intervalos, e que, fora disso, a emissão de luz é involuntária. No cascalho úmido e lamacento dos caminhos pavimentados, encontrei um grande número de larvas deste lampyris: elas em muito se assemelhavam às fêmeas dos vaga-lumes ingleses. Estas larvas possuíam apenas fraco poder luminoso e, neste aspecto, eram muito diferentes dos insetos adultos. Aparentavam, ao mais leve contato, o estado de morte, deixando de brilhar. Nenhuma excitação conseguia fazer reaparecer a luminosidade.

Guardei por algum tempo várias larvas vivas: suas caudas eram um órgão bastante singular, pois elas agem por meio de um dispositivo adequado, como ventosa ou órgão de fixação, ao mesmo tempo em que funciona como reservatório de saliva ou líquido semelhante. Dei-lhes repetidas vezes carne crua, e sempre pude notar que, de momento em momento, a extremidade da cauda procurava a boca do animal, deixando uma gotícula de fluido sobre a carne no instante em que esta ia ser consumida. A cauda, apesar desse movimento tão freqüentemente praticado, parece não poder se dirigir à boca diretamente, uma vez que o pescoço acabava sendo invariavelmente tocado em primeiro lugar, aparentemente como um modo de localizar a abertura.

Quando estávamos na Bahia, um elátero ou besouro (Pyrophorus luminosus, IIlig) parecia ser o mais comum dos insetos luminosos. A luz neste caso se tornava mais intensa com a excitação do animal. Distraí-me, durante um dia, estudando o poder de saltar deste inseto, propriedade que, segundo me parece, não foi ainda convenientemente descrita**. O elátero, quando se achava de costas, preparando-se para o salto, recolhia a cabeça e o tórax de modo que a espinha peitoral sobressaía e tocava a borda de sua bainha. Na seqüência desse movimento para trás, a espinha se curvava como uma mola, sob a ação dos músculos, e o inseto tomava apoio com a extremidade da cabeça e dos élitros.

A cessação brusca dessa tensão fazia com que a cabeça e o tórax se projetassem para cima, e a reação do choque da base dos élitros contra a área de sustentação, lançava o inseto num salto de três ou cinco centímetros. As saliências torácicas e a bainha da espinha contribuíam para manter o equilíbrio do corpo durante o salto. Nas descrições que tenho lido, nunca se chamou suficientemente a atenção para a elasticidade da espinha: um salto tão súbito não poderia ser o resultado de simples contração muscular, sem auxílio de algum dispositivo mecânico.

Visitando o Jardim Botânico
Em várias ocasiões, desfrutei de algumas excursões muito agradáveis ainda que curtas pelas vizinhanças. Visitei, certo dia, o Jardim Botânico, onde cresciam muitas plantas famosas pela grande utilidade de suas propriedades. As folhas da cânfora, da pimenta, da canela e do cravo desprendiam um aroma muito delicioso; e a fruta-pão, a jaca e a manga disputavam entre si pela magnificência de suas folhagens. A paisagem dos arredores da Bahia quase que podia ser caracterizada pela predominância destas duas últimas árvores.

Antes de tê-las visto, eu não fazia a menor idéia de que houvesse árvores capazes de projetar no solo uma sombra tão preta. As duas estão para a vegetação sempre-verde destes climas na mesma proporção em que, na Inglaterra, os loureiros e os azevinhos estão para o verde mais pálido das árvores decíduas. Pode-se observar que, nos trópicos, as casas estão sempre rodeadas das formas mais belas de vegetação, somando-se a isso o fato de que muitas delas são ao mesmo tempo as mais úteis ao homem. Quem pode duvidar de que essas virtudes se achem reunidas na bananeira, no coqueiro, nas muitas variedades de palmeiras, na laranjeira e na árvore da fruta-pão?

Atmosfera translúcida
Durante este dia, tive meus pensamentos particularmente atraídos para uma observação de Humboldt, o qual alude freqüentemente ao ¿fino vapor que, sem afetar a transparência do ar, torna suas tonalidades mais harmoniosas e que abranda seus efeitos¿. Isto é coisa que nunca observei em zonas temperadas. A atmosfera, vista através de um espaço de setecentos metros ou mais, apresentava-se perfeitamente translúcida, mas de uma distância maior, todas as cores se misturavam, formando a mais linda névoa que se coloria de um pardo-francês pálido, matizado com traços de azul. A condição da atmosfera entre a manhã e o meio-dia ¿ quando o efeito era mais visível ¿, pouca mudança tinha sofrido, exceto no que diz respeito à falta de umidade. No intervalo, a diferença entre o ponto de orvalho e a temperatura subiu de 4 a 9 graus.

Em outra ocasião, parti cedo e andei até a montanha da Gávea. O ar estava deliciosamente fresco e fragrante, e as gotas de orvalho ainda brilhavam sobre as grandes liliáceas que cobriam com sua sombra a água clara dos riachos. Sentado sobre um bloco de granito, era deliciosos observar o vôo de vários insetos e pássaros. Os beija-flores parecem gostar imensamente destes recantos sombrios e isolados. Sempre que eu via uma dessas criaturinhas zumbindo em torno de uma flor, com suas asas quase invisíveis pela velocidade com que as movem, lembrava-me da mariposa esfinge, cujos hábitos e movimentos são, em muitos aspectos, realmente semelhantes

Fonte: Especial para Terra

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