História

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06 de dezembro de 2010 • 14h44 • atualizado em 29 de Maio de 2012 às 07h24

A utopia de Hitler: o Império Ariano Europeu

Cartaz celebrando o domínio nazista sobre a Europa (1942)
Foto: Reprodução
Voltaire Schilling

Se confirmada a vitória nazista na Segunda Guerra Mundial, qual seria o panorama político da Europa controlada por Hitler e pelos seus seguidores? O ditador expressou seus desejos numa série de encontros com seus conhecidos mais próximos intitulado como Conversas de Mesa, ocorridas entre 1941-42, que podem ser consideradas como a exposição da utopia nacional-socialista de domínio do velho continente.

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O apogeu do domínio nazista
Na transição ano de 1941 para o seguinte, a Alemanha nazista estava no seu apogeu. As forças bélicas alemãs, que haviam invadido a URSS em 22 de junho daquele ano, enquanto mantinham Leningrado sob sítio, estavam a um passo de tomar Moscou.

O restante dos países europeus ou eram aliados de Hitler (caso da Itália, Romenia, Bulgária, Hungria, Finlândia) ou estavam ocupados por suas divisões (caso da Tchecoslováquia, Polônia, Noruega, Dinamarca, Holanda, Bélgica, França, Iugoslávia e Grécia), cabendo à URSS estar naqueles meses terríveis numa situação dramática visto ter perdido o controle da maior parte do seu território ocidental (Bielorússia, Ucrânia, Moldávia). Milhões de prisioneiros soviéticos, reduzidos à fome e ao desamparo, estavam nas mãos dos agressores alemães, enquanto a sua capital, Moscou, via-se ameaçada pela Operação Typhoon.

As divisões da Wehrmacht, mobilizadas desde 1º de setembro de 1939, estavam espalhadas desde os pontos extremos do norte da Noruega até, em numa linha diagonal, as proximidades da Criméia no Mar Negro, cobrindo um território de cinco milhões de quilômetros quadrados.

Ainda que a ofensiva alemã frente a Moscou fosse detida em dezembro e a Alemanha tivesse declarado guerra aos Estados Unidos naquele mesmo mês de 1941, Hitler imaginava um destino radiante para o seu futuro império. O sonho da conquista do Lebensraum, do espaço vital para o povo alemão estava ao seu alcance.

O espaço vital
A idéia de que havia uma injustiça histórica para com os alemães, ganhou forças a partir da unificação e da formação da II Reich (1871-1918). E ela se materializava no fato da nação germânica ser destituída de território correspondente à sua grandeza. Ao contrário dos anglo-saxões e dos russos, proprietários de imensas extensões marítimas ou continentais, eles estavam confinados no meio da Europa a pouco mais de 300 mil km² sem condições de poderem ampliar as suas terras.

Daí que os primeiros defensores do Lebensraum, inspirados nas teses do geógrafo Friederich Ratzel, pleitear naquele momento a posse de colônias na África para assim poder escoar o seu excedente populacional (o que impulsionou, a partir de 1884, a conquista da Namíbia, da África Oriental alemã, e do Togo).

Para Hitler, todavia, o espaço vital necessário aos alemães não estava no continente africano, como era o desejo dos colonialistas do século XIX, e sim dentro da Europa mesmo. Posição esta que fatalmente levaria, mais tarde ou mais cedo, a uma nova e generalizada guerra de conquista.

Esta posição foi enormemente influenciada por um livro que causou estrondoso sucesso editorial quando da sua aparição em 1926, intitulado 'Volk ohne Raum', do escritor Hans Grimm, que, além de ser próximo a Rudolf Hess, secretário particular Hitler, mais tarde tornou-se ideólogo do expansionismo nazista.

Nesta obra, Grimm narra como se fora uma epopéia a conquista alemã da África Oriental por um jovem conterrâneo Cornelius Friebott originário da Baixa-Saxônia, aventureiro que emigra em busca de terras para melhor viver, arrematando que "nenhum outro povo do mundo foi tão pouco privilegiado em termos de espaço para viver".

Em vista desta clamorosa injustiça, tinham todo o direito a declarar uma guerra germânica em favor de novas áreas devido a sua elevada densidade demográfica e a sua capacidade produtiva superior.(*)

(*) Por ter sido a Alemanha obrigada a entregar suas possessões africanas aos aliados, particularmente à Grã-Bretanha e à França depois da sua derrota na Primeira Guerra Mundial, acertada pelo Tratado de Versalhes de 1919, entende-se o significado de 'povo sem espaço' usado na novela de Grimm (que chegou a vender 400 mil exemplares antes da Guerra de 1939-1945).

Todavia, Hitler trocou de direção do impulso para a conquista. O espaço procurado se encontrava nas vastas terras da Polônia e da Rússia, habitadas pelos eslavos e mongóis, povos de raças inferiores aos alemães e que justamente em razão disto deveriam cedê-las ao Herrenvolk, ao Povo de Senhores liderados por ele. A perda das savanas africanas seria compensada pela Drang nach Östen, a conquista das vastas estepes habitadas pelos eslavos.

No seu livro 'Minha Luta', aparecido em 1925, ele foi bem claro quanto a isto:

Indo contra todas as "tradições" e preconceitos, ela a Alemanha deve encontrar a coragem para reunir nosso povo e suas forças para um avanço no caminho que vai levar esse povo a partir do seu espaço de vida presente restrito para uma nova terra e solo, e, portanto, também libertá-la do perigo... de servir como uma nação de escravos.--- Adolf Hitler, Mein Kampf 1

O Plano Geral para o Leste
Nas vésperas da entrada em ação da Operação Barbarossa que determinava a invasão da URSS, coube ao Reichsführer Heinrich Himmler, comandante-supremo da SS, preparar um programa para os amplos territórios a serem ocupados: o Generalplan Öst ou Plano Geral para o Leste.

Como deveriam os alemães proceder com as zonas tomadas e o que fazer com a população civil que ali vivia?

Naquela altura, transcorridos três anos de guerra, a SS (SchutzStaffeln), tida como a Guarda Pretoriana do Führer, havia se tornado um estado dentro do estado alemão. Ela encarnava os desejos mais profundos de Hitler quanto a mover uma guerra racial e ideológica contra os seus inimigos até os extremos da inumanidade. A SS era o exército ideológico do nacional-socialismo.

Não só tinha o controle sobre as instituições policias (SS Polizei Division), como também possuía o seu próprio serviço de informações (a SD ou SicherheitsDinst), além de contar com divisões militares exclusivas (as Waffen SS), formada tanto por ardorosos nazista alemães como por colaboracionistas ou voluntário anticomunistas das mais diversas nacionalidades, uma espécie de Brigada Internacional da extrema direita européia ( no final do conflito chegou a contar com 900 mil homens em armas).

E, evidentemente, cabia-lhe a supervisão de todo o complexo de campos de concentração e extermínio que começaram a se espalhar pela Alemanha e pela Polonia ocupada por meio de batalhões especiais: a SS-Totenkopfverbände, ou unidade caveira.

A peculiaridade da Guerra no Leste
Como para Hitler a guerra do Leste se revestia de um caráter especial, pois se tratava simultaneamente de um enfrentamento ideológico (contra o comunismo) e racial (contra o judaísmo e o eslavismo), cujas regras de condução não obedeceriam aos meios convencionais.

Reflexo desta disposição foi a ordem distribuída pelo Marechal Walter von Reichenau quando dos primeiros dias da invasão da URSS: 'o soldado do fronte oriental não é somente um combatente que segue as regras da arte da guerra, mas alguém que se porta de maneira racialmente desapiedada, pronto a castigar todas as bestialidades que ameaçam a etnia nacional alemã.'

Assim sendo o Führer aprovou a sugestão de Himmler em 'limpar o terreno', afastando a maior parte dos eslavos do solo russo ocidental (previam o desterro de 31 milhões deles para o outro lado dos Urais, para a Sibéria) e promovendo ao mesmo tempo o extermínio dos judeus soviéticos (uns cinco milhões, que inicialmente poderiam ser removidos para as regiões polares da Rússia), fazendo com que assim fosse 'destruída a substância biológica dos povos orientais'.

Como sinal do seu intento decretou a chamada Ordem dos Comissários que autorizava a execução imediata dos comunistas capturados para assim os russos ficarem desprovidos dos seus lideres e dirigentes.

A razão disto devia-se a que 'na luta contra o bolchevismo, não era possível confiar em que o inimigo se apegue aos princípios da humanidade ou do direito internacional público...podemos aplicar um tratamento cruel e desumano contra os nossos prisioneiros.'(cit. Ernst Nolte, pag. 418)

O Império Ariano
Então, do alto da sensação de vitória prestes a ser alcançada, foi que Hitler expôs numa serie de conversas - as Tischgesprächen - o seu plano para ocupar o espaço vital finalmente adquirido pela força das armas.

A dimensão do Império Ariano era realmente colossal, superior ao Império de Carlos Magno ou o de Napoleão, pois englobava as terras da Escandinávia até a região sul das estepes russas.

Este imenso continente que se abria - o Östimperium - era quase uma Índia a ser povoada e colonizada por fazendeiros alemães.

Somente a sua parte mais oriental (formada pela Bielo-Rússia, Ucrânia e Moldávia) chegava a 850 mil km², mais de duas vezes a dimensão da Alemanha.

Além dos colonos germanos haveria uma seleção genética para identificar tipos humanos arianizados existentes na França, Bélgica ou Holanda para igualmente serem transferidos para a nova área expurgada de eslavos e judeus e nela assentados.

A península da Criméia, de clima aprazível situada no Mar Negro, seria reservada como uma espécie de Paraíso Ariano, transformada num centro de cultura e lazer povoado por imigrantes tiroleses, mas aberta às viagens turísticas dos demais germanos.

O propósito final de Hitler era refazer o mapa europeu por meios estritamente raciais, no qual haveria o domínio absoluto dos germanos e dos germanizados - loiros de olhos azuis - que agiriam como Herrenvolk, como Povo de Senhores, reduzindo os habitantes locais ao imperativo da servidão obrigatória.

Deste modo entende-se a anotação deixada por Hans Frank nos seus diários, segundo a qual "recebi ordens para saquear totalmente os territórios conquistados a Leste, ou seja, transformando suas estruturas econômicas, sociais, culturais e políticas em um monte de escombros." (19 de janeiro de 1940).

A inspiração direta do Führer e seus seguidores mais próximos se originava evidentemente da experiência anterior do colonialismo europeu e da conquista o Oeste feita pelos norte-americanos (processo que ele tinha intimidade pela leitura de Karl May, um popularíssimo autor alemão, seu favorito, que narrava as façanhas incríveis do Velho Mão de Ferro e do apache Winnetou em suas caçadas e andanças pela América).

Portanto, a utopia do Império Ariano era uma recriação em solo europeu das aventuras sangrentas e pilhagens que os homens brancos haviam feito nos continentes do Terceiro Mundo nos séculos XIX e XX.

Jardim Antropológico
Os povos inferiores sobreviventes, os Untermensch, que viveriam dentro do Império não teriam acesso à educação ou à instrução mais elevada, sendo aptos apenas às regras mais elementares de convívio, trabalho e obediência.

Como uma espécie de viveiro humano, ou de Jardim Antropológico, no qual os germanos poderiam admirar visualmente exemplares das etnias derrotadas, o Governados Geral da Polonia ocupada, Hans Frank, desenvolvera o projeto do Menschengarten, composto pelas agrupações submetidas, a ser situado nas cercanias da cidade de Cracóvia.

Cada uma delas (judeus da Galícia, camponeses poloneses, russos ex-integrantes dos kolkozes, rutênios, ucranianos, etc.) formaria uma pequena aldeia ajardinada com suas choupanas e barracões nas quais manteriam o tipo de vida de acordo com a cultura de cada um, sendo então visitados por expedições organizadas a partir do Ocidente, como uma espécie de atração bizarra, naturalmente que vigiadas a distância pelas guardas SS.

Todos estes delírios imperiais e colonialistas começaram definitivamente a ruir dois anos depois quando o VI Exército alemão, sitiado em Stalingrado, viu-se obrigado a se render no dia 1º de fevereiro de 1943, dando início à catástrofe final do maior projeto reacionário do século XX.

Bibliografia
Bracher, Karl D. - La dictadura alemana. Gênesis, estructura y consecuencias del nacionalsocilaismo. Madri: Alianza Universitária, 1973.

Goldsworthy, Terry - Valhalla's Warriors: A History of the Waffen-SS on the Eastern Front 1941-1945. Indianapolis: Dog Ear Publisher, 2007.

Grimm, Hans - Volk ohne Raum. Munique Albert Languen Verlag , 1926.

Hillgruber, Andreas - Die Endlösung und das Deutsche Östimperium als Kerrnstück des rassenideologischen Programms des nationalsozialismus, in Hitler und die Mächte, Dusseldorf, 1976.

Kershaw, Ian - Hitler, 1936-1945 Nemesis. Nova York-Londres: W.W. Norton&Company, 2000.

Littel, Jonathan - As Benevolentes. São Paulo: Objetiva/Alfagara, 2007.

Nolte, Ernst - La guerra civil europea, 1917-1945. Nacionalsocialismo y bolchevismo. México: Fondo de Cultura Económica, 1994.

Schrnokel, Wolfe W. - Dream of Empire: German Colonialism, 1919 - 1945, Yale U. Pr., 1964.

Smith, Woodroff - The colonial novel as political propaganda. Hans Grimm Volk ohne Raum. Texas: University of Texas San Antonio.

Redação Terra