A origem do vandalismo

18 jul 2013
15h11
atualizado às 15h12
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No remoto século 5 da era cristã, mais precisamente entre os anos de 428-9, um reduzido número de tribos germânicas, expulsas do sul da Ibéria, foi forçado a se transferir para o Norte da África. Elas ocuparam a então denominada Mauretania Caesarensis, ou Província da Mauritânia (hoje, reino do Marrocos), rapidamente se fixando em meio à administração romana (há versões que eles foram admitidos pacificamente pelo governador romano Bonifácio que procurou utilizar-se deles para reforçar o império naquela área sensível).

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O rei vândalo Genserico submete Roma ao saque (455)
Foto: O rei vândalo Genserico submete Roma ao saque (455) / Reprodução

A maior presença entre elas era a dos vândalos (vandalen), mas ainda havia alanos, godos e hispano-romanos. O historiador bizantino Procópio da Cesareia, no livro de Bello Vandalico, (A Guerra Vândala) calculou que perfaziam uns 80 mil, todos avassalados à autoridade do chefe vândalo Genserico (Genserich).  

Até então, nada indicava que especificamente aqueles bárbaros vindos do interior da Germânia desde os começos daquele século (provavelmente penetraram pelo limes romano em 407) tivessem demonstrado algum tipo de ferocidade ou de vocação predadora mais extremada do que os outros guerreiros da velha Teutônia (registraram 171 tribos germânicas na época das invasões, a maioria delas não atacou o império Romano do Ocidente).

Os vândalos eram resultado de uma união entre duas grandes correntes etno-tribais que viviam próximas na região da Silésia/Cárpatos, a dos Silingisch (silesianos) e os Hasdingische (asdinguianos).  Como tantas outras tantas tribos germânicas dos séculos 4 e 5 se deslocaram para o oeste devido à pressão das hordas hunas. Tratou-se da Völkerwandergun (migração de povos) que inundou as províncias ocidentais dos césares com milhares de guerreiros teutônicos e suas famílias.

As fortificações romanas ao longo do Rio Reno e do Danúbio lhes pareceram mais fáceis de serem suplantadas do que ter que enfrentar os terríveis predadores de Átila e seus descendentes que vinham do leste em marcha forçada.

Os vândalos, em parceria com os godos, adentraram na Gália Romana na altura da atual cidade de Moguntiacum, hoje Mainz, cortando o país em diagonal até, transpondo os Montes Pirineus, assentar-se na Ibéria. Pouco ali ficaram.

Genserico, de aliado federado a Roma, converteu-se em seu inimigo. Aproveitando-se das esquálidas guarnições que existiam na costa do Norte da África, pelo menos até a Tunísia de hoje, ocupou a cidade de Cartago e dali preparou uma sólida frota para acossar o que restava da presença imperial no Mediterrâneo Ocidental.

Estendeu seu domínio para as ilhas da Sicilia, Sardenha e Córsega, liquidando com o comércio naval romano com a Ibéria e a Provença. Deste modo o Império Vândalo-Africano tanto controlava a margem norte da África como expressivas partes do Mediterrâneo Ocidental.

O salto seguinte foi o cerco da própria capital do Império dos Césares. No ano de 455, Roma viu-se submetida ao saque dos vândalos. De nada serviu a intervenção do Papa Leão I Magno no sentido de demovê-lo da pilhagem. Ainda que não tenha promovido uma devastação como tantos temiam, Genserico decidiu destelhar o Templo de Júpiter Optimus Maximus (as telhas eram de ouro e bronze), o equivalente romano do Partenon de Atenas, maravilha que existia há mais de mil anos.

O historiador Procópio da Cesareia, ainda que relatando o episódio quase um século depois, o amaldiçoou. Atribuem a ele a má fama que os vândalos desde então passaram a ter: "o mais bárbaro dos povos bárbaros!" Entretanto, a legenda negra que passou a associá-los a depredações e destruição gratuitas e sem sentido tinha ainda outra origem do que a justa indignação pela profanação da Morada de Júpiter.

Genserico era de uma geração de bárbaros que havia nascido numa facção do Cristianismo, a dos arianos, e, durante o seu Império no norte da África, perseguira bispos e padres católicos, sendo que muitos ele matou ou expulsou para a Itália. Obviamente que a adoção desta política de franca hostilidade ao clero romano levou a que os historiadores cristãos fizessem por exagerar os estragos dos vândalos (*)

(*) Um século antes, os vândalos, tratados como federados, haviam aceitado terras num acordo com o imperador Constantino Magno, que lhes havia concedido áreas na Panônia ao redor de 330. Posteriormente, em 360, acataram em definitivo a fé em Cristo. Todavia, a versão da religião que eles adotaram era da facção dos arianos, considerados heréticos, e não dos católicos ortodoxos romanos o que provocou infindáveis conflitos.

O nascimento do vandalismo

Ainda que o filósofo Voltaire já fizesse uso da expressão para definir aqueles que atacam as obras de arte, o termo vandalismo ganhou seu estatuto definitivo durante a Revolução Francesa de 1789. O abade Gregoire, deputado do Terceiro Estado e depois integrante da Convenção Nacional, fora encarregado por seus colegas para fazer um levantamento dos danos. Quais eram os prédios, privados, públicos ou religiosos (palácios, galerias, portais, abadias, mosteiros, conventos, catedrais, igrejas, capelas, cemitérios, tumbas, etc.) que tinham sido alvo da ira popular?

Durante os anos anteriores, a partir da Queda da Bastilha em 14 de julho 1789, e do colapso da Monarquia Bourbon, em 20 de setembro de 1792, turbas pilharam diversos tipos de construções pela França inteira. Em forma de uma poderosa onda ou em pequenos grupos, rapinaram ou destruíram os mais variados livros raros, vitrais, quadros religiosos, estátuas de santos, reis ou nobres.

Abade Gregoire (1750-1831)
Abade Gregoire (1750-1831)
Foto: Wikimedia Commons / Reprodução

Qualquer coisa que fosse identificada com o Antigo Regime, com a Igreja Católica ou ainda com a Arte Romana, estava em perigo aos olhos da plebe feroz. Incitados pelo convencional extremista Barère, até mesmo a cripta dos reis franceses situada na basílica de Saint-Denis foi invadida em 31 de junho de 1793 e os restos mortais dos dinastas jogados em valas comuns.

Isto sem omitir-se o estrago causado nas memoráveis bibliotecas dos monges e das freiras, cujos livros sagrados foram rasgados ou jogados em pilhas fantasmagóricas.

Fogueiras eram acesas com eles e pequenas multidões dançavam em redor delas como nas imemoriais cerimônias pagãs feitas ao ar livre (alguns estudiosos do comportamento das massas ou turbas observam que, por vezes, a volúpia predadora resulta de uma momentânea ruptura com as injunções do mundo adulto e um regresso aos primeiros anos da infância: crianças sentem um evidente prazer em destruir tudo o que lhes cai nas mãos)

O relatório devastador
O resultado da investigação resultou no Rapport sur les destructions opérées par le vandalisme et les moyens d'y remédier (“Relatório sobre as destruições operadas pelo vandalismo e os meios de remediá-lo”), apresentado em três sessões na Convenção, a última em setembro de 1794, logo após a queda de Robespierre e dos jacobinos. As observações do abade foram tão precisas que serviram como um modelo das atuais politicas patrimonialistas adotadas na maior parte dos países ocidentais.

O levantamento era impressionante, quase não houve aldeia, vila ou cidade francesa poupada de alguma atrocidade contra as artes: Bayeux, Douci, Etain, Fontainebleau, Villefranche, Toulouse, Verdun, Versalhes, Chantilly, Arles, Chartres, Troyes e, acima de tudo, em Paris.

A primeira contradição apresentada pelos atos de vandalismo observou Gregoire, é que era uma escandalosa contradição com os ideais do Iluminismo, a qual a Revolução de 1789 se gabava de ser a herdeira. Como uma sociedade que se reclamava "das Luzes" poderia conviver de braços cruzados enquanto as maltas incendiavam, depredavam e saqueavam o que viam pela frente? O pior nem tanto era o roubo - pelo menos o objeto era mantido inteiro e poderia de algum modo vir a ser recuperado mais tarde -, mas a destruição gratuita e sem sentido.

Queimar por queimar, derrubar uma estátua no chão e dar marretadas até ela virar pó, apedrejar as vidraças dos palácios, por abaixo os candelabros de cristais, tocarem fogo nos tapetes caríssimos, estourarem os tonéis e garrafas nas adegas. Maravilhas do gênio humano em minutos viravam num nada, como foi o caso da enorme cabeça de Júpiter dilapidada em Versalhes.

Apelou então aos bons cidadãos para que não permitissem ou mesmo denunciassem ameaças aos monumentos das ciências e das artes do passado. Era o patrimônio da nação francesa que se via ameaçado por uma ação irracional, primitiva, bárbara. Os verdadeiros patriotas eram responsáveis por eles, todos deviam preservá-los por qualquer meio possível.

O abade Gregoire, homem extraordinário que lutara pela abolição da escravidão e pela integração dos judeus, atribuiu aquela insanidade a três motivos: à ignorância voluntária, à cupidez e ao oportunismo dos larápios e dos tratantes, a escória infiltrada na multidão. Não aceitou qualquer argumento que a justificasse. Nem o exaltado ódio ao passado, nem o justo ressentimento contra as castas dirigentes então depostas e exiladas.

Recomendou que as autoridades republicanas locais fossem alertadas e responsabilizadas para assegurar a preservação dos bens nacionais e que não recuassem frente à matilha doida e vingativa que empanava há cinco anos - desde a Queda da Bastilha - os bons propósitos da Revolução feita em nome do Esclarecimento.

Deste então, o termo "vândalo" se universalizou. Não há país que possa se orgulhar de jamais ter sido vítima de uma horda desatinada e predadora, palavra associada para sempre à destruição sem motivo algum, a um ato lunático e gratuito de barbárie. (*)

(*) Durante os primeiros meses do desenrolar da Revolução Russa de 1917, A. Lunacharski, o Comissário do Povo da Educação, chegou a ameaçar renunciar ao cargo devido às crescentes notícias de atos de vandalismo que chegavam de várias partes do império czarista recém caído. Populares e soldados juntavam-se para saquear as catedrais e as igrejas ortodoxas. Novamente o fenômeno revolucionário despertava nas massas o furor vandálico que, por igual, se reproduziu durante a Revolução Cultural chinesa por obra da Guarda Vermelha (1966-1976), patrocinada pelo próprio chefe da nação, Mao Tse Tung.  

Bibliografia
Boulad Ayub, Josiane  - Abbé Grégoire et la naissance du Patrimoine nacional, l 'suivi de trois rapports sur le vandalisme: Quebec, PULaval, 2012.
Castritius, Helmuy - Die Vandalen: Etappen Einer Spurensuche. Sttutgart:  Kohlhammer W., 2007.  
Chopelin_Blanc, Caroline – Chopelin, Paul  -  L'obscurantisme et les Lumières itinéraire de l'abbé Grégoire, évêque révolutionnaire. Paris: Vendémiaire, 2013.
Diesner, Hans-Joachim -  Das Vandalenreich. Aufstieg und Untergang.  Stuttgart: Kohlhammer, 1966.
Gibbon, Edward – The History of the Decline and Fall of the Roman Empire. Londres: Everyman's Library: 2010.
Hermat, Daniel - Destructions et vandalisme pendant la Révolution française, Paris:  Annales. Économies, Sociétés, Civilisations      Année   1978     Volume   33     Numéro   4     pp. 703-719.
Jacobsen, Torsten Cumberland – A History of Vandals. Londres: Westholme Publishing, 2012.
Merrilles, Andrew - Vandals, Romans and Berbers: New Perspectives on Late Antique North Africa. Aldershot: Ashgate Publishing Limited, 2004.
 

 

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Fonte: Especial para Terra
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