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Governo amplia ensino formal sobre comunidades quilombolas

7 dez 2013 - 10h23
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A história e cultura das comunidades dos descendentes dos escravos africanos, os quilombolas, começarão a ganhar maior espaço na política educativa do Brasil após vários séculos de tratamento superficial nas escolas.

Embora a presença dos quilombos tenha sido fundamental para escrever o passado e o presente do país, sua história muitas vezes não é conhecida em profundidade nem por suas próprias comunidades, distribuídas no interior do Brasil, sobretudo nas regiões nordeste e sudeste.

Por isso, o Governo Federal e os governos estaduais decidiram prestar maior atenção para o assunto, sobretudo a partir de 2012, com a aprovação das diretrizes para a educação quilombola, que começaram a ser implementadas neste ano com o objetivo de dar valor a cultura afro-brasileira nessas comunidades.

Em 2013, as escolas públicas em comunidades quilombolas chegaram a 2.238, um número 32% superior ao de 2009, segundo dados do Censo Escolar deste ano.

A pedagoga e pesquisadora em História e Cultura Afro-Brasileira da Universidade de Campinas (Unicamp), Caroline Jango Feitosa, disse à Agência Efe que tais medidas são importantes para se fazer um contraponto à educação tradicional "eurocêntrica".

Essa educação, na sua opinião, "marginaliza todos os aspectos que envolvem a cultura africana e afro-brasileira".

"Em minhas pesquisas recentes constatei que as crianças negras se identificam com os padrões brancos de beleza e estética de modo que a construção da identidade negra fica extremamente prejudicada. Isso acontece por que as crianças não têm nenhuma representação de valor da cultura da qual são descendentes", afirmou.

Em São Paulo, por exemplo, o governo estadual anunciou durante a semana em que prestou homenagem a Zumbi dos Palmares - o último dos líderes do Quilombo dos Palmares, o maior do período colonial - a criação do primeiro Conselho de Educação Quilombola do país.

O órgão, que conta com a participação de líderes de comunidades quilombolas e especialistas das principais universidades, tem como objetivo aumentar o peso da cultura negra na educação, levando-se em conta que 50,7% da população do país é formada por negros e pardos, segundo o último censo.

De acordo com o diretor do conselho, Sérgio Cardoso, o ensino quilombola não vai deixar de transmitir o que já é estudado nas escolas regulares, mas vai intensificar a história das comunidades quilombolas em seu programa educativo.

"O programa de educação escolar dos quilombolas vai levar em conta todo o conteúdo oficial de São Paulo, mas, além disso, vai ensinar o valor dessas pessoas, o amor pela terra, pela religião, pela cultura dos antepassados e pelas doutrinas populares", destacou à Efe Cardoso.

Segundo diretor, o conselho terá uma atuação "mais específica" junto às comunidades quilombolas, mas também vai trabalhar com outras minorias.

A programação será concentrada nas relações étnico-raciais com um enfoque "transversal", que abordará também disciplinas como língua portuguesa, arte e história.

Cardoso afirmou que o programa de São Paulo, concretamente, pretende ir além, contemplando as disciplinas de filosofia, sociologia, e transformando os temas da bibliografia em uma matéria obrigatória para os professores que desejarem ingressar na rede pública estadual.

A pesquisadora Caroline lembrou que é fundamental a expansão desse tipo de educação para outras escolas, que estão fora do contexto, como uma forma de se oferecer acesso "ao direito assegurado por lei de aprender os conteúdos sobre a cultura africana".

"Não podemos esquecer que a educação quilombola não fala sobre os conteúdos ensinados, mas sobre uma maneira diferente de se educar, focalizada na perspectiva do africanismo, o que possibilita um espaço mais democrático e rico", explicou Caroline.

EFE   
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