Estudo aponta baixa capacitação de docentes no Brasil

Pesquisa feita com quase 3 mil profissionais pelo Instituto Ayrton Senna e consultoria dos EUA foi entregue ao ministro da Educação e apontou problemas e recomendações

7 jul 2014
17h27
atualizado às 17h52
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Uma pesquisa divulgada nesta segunda-feira, em São Paulo, apontou a falta de incentivo e a alta rotatividade como os principais entraves à capacitação de professores no Brasil –país em que há pelo menos dois milhões de docentes que carecem de ações de aperfeiçoamento profissional.

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O levantamento, inédito, foi realizado pelo Instituto Ayrton Senna, de São Paulo, em parceria com a consultoria norte-americana Boston Consulting Group (BCG), que há 30 anos atua na América Latina com escritórios no Brasil, Argentina, Chile, Colômbia e México. Criado em 1994, após a morte do piloto Ayrton Senna, o IAS atua em programas de capacitação em cerca de  1,2 mil municípios brasileiros. o resultado foi entregue ao ministro da Educação, Henrique Paim, durante cerimônia de apresentação na sede do instituto, em Pinheiros (zona oeste de São Paulo).

A pesquisa foi aplicada entre novembro de 2012 e março de 2013 com 2.732 professores, diretores de escola, supervisores de ensino, coordenadores pedagógicos e secretários de educação. A maioria dos profissionais que participaram é da atividade pública –especialmente da educação estadual -53%, diante de 40% da rede municipal, 6% da rede privada e 1% da rede federal de educação. Com 55% dos entrevistados, a região Sudeste foi a que teve maior parcela de consultados.

Além de apontar as carências e desafios na capacitação de docentes, o estudo ainda indicou alternativas a partir de exemplos de outros países em que há ações que são referência em educação, como Finlândia, Austrália, China, Chile, EUA e Portugal. Iniciativas bem sucedidas com alunos e professores no Brasil também aparecem entre os modelos de práticas a serem seguidas, como as de Sobral, no Ceará, e os Estados de Goiás, Minas e Espírito Santo. Além disso, 26 especialistas em educação brasileiros e estrangeiros foram consultados.

Principais problemas à capacitação

Entre os principais obstáculos à capacitação de professores, a pesquisa destacou a falta de tempo e de incentivos formais para participar de ações desse tipo, além da alta rotatividade dos profissionais nas escolas e do grande número de docentes hoje em contratações temporárias – pelos dados do Censo Escolar de 2012, do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), são mais de 507 mil professores temporários e mais de 1,3 milhão de efetivos no Brasil.

O instituto e a consultoria, a partir das entrevistas e da opinião dos especialistas, também detectou que a preferência por ações de curto prazo e de alta visibilidade, aliada à baixa aplicabilidade do conteúdo das ações que já são oferecidas, são outros entraves à capacitação dos docentes – especialmente quando a falta de alinhamento das ações de formação continuada colide com os planos de carreira e desenvolvimento profissional dos professores.

Pesquisadores apontam recomendações

O estudo apresentou também um conjunto de recomendações que contribuam para reverter a baixa capacitação de docente. Além da inspiração em modelos que deram e dão certo, dentro e fora do Brasil, ele ainda sugere a mudança das diretrizes curriculares para a formação docente –uma vez que, hoje, estão juntas com o bacharelado – e um acompanhamento mais rígido das licenciaturas no ensino superior –com a adoção, inclusive, de uma política específica de avaliação.

Outra recomendação é a criação “de uma forte política de normatização do estágio curricular para as licenciaturas”, já que, em geral, “não há convênios com escolas nem projetos”, além de campanhas que valorizem a capacitação.

A iniciativa comparou os resultados da pesquisa brasileira com os da Pesquisa Internacional Sobre Ensino e Aprendizagem (Talis) de 2008, coordenada em 24 países pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

“No estudo, 74% dos docentes brasileiros responderam que não há um programa de formação continuada para novos professores, enquanto nos demais países participantes da Talis, apenas 27% dos docentes reportam inexistência da formação em serviço. O mesmo padrão é observado quando se trata de coaching ou mentoria a novos professores: 71% dos docentes brasileiros reportaram inexistência de mentoria ante 23% nos demais países da Talis”, observaram os pesquisadores.

“Ao professor, assim como qualquer profissional, precisa de constante atualização para obter bons resultados no trabalho. A profissão é dinâmica e exige que o docente seja um eterno aprendiz. Portanto, a formação continuada deve ser parte integrante de sua vida profissional. O fato é que os professores brasileiros têm menos acesso a incentivos para a formação continuada do que educadores de outros países”, constata a pesquisa.

Fonte: Terra
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