Escola falha na defesa da igualdade de gêneros, dizem especialistas

5 nov 2013
11h13
atualizado às 11h13
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<p>Exercício de livro que cita atividades para meninos e meninas foi publicado no Facebook e causou polêmica entre internautas</p>
Exercício de livro que cita atividades para meninos e meninas foi publicado no Facebook e causou polêmica entre internautas
Foto: Facebook / Reprodução

Meninos podem cuspir no chão; meninas, lavar louça. A indignação de uma mãe com um exercício didático que pedia para os alunos indicarem com que tipo de ação meninos e meninas teriam mais afinidade levantou o debate sobre sexismo na escola. A função dos educadores de instruir os estudantes para o respeito aos direitos iguais entre homens e mulheres, previsto no artigo quinto da Constituição Nacional, é ainda pouco levada em conta, acreditam estudiosos do assunto.

"A escola é uma das instituições da sociedade que deveria fazer essa desfamiliarização com questões cristalizadas que geram preconceitos, e uma delas é o sexismo", afirma Ana Cristina Nassif Soares, psicóloga e professora do departamento de Educação, Ciências Sociais e Políticas Públicas da Faculdade de Ciências Humanas e Sociais de Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp).

O debate sobre igualdade entre gêneros ainda engatinha nas escolas. O assunto fica normalmente restrito à militância e é pouco abordado por professores. Eleutéria Amora da Silva é professora de história e coordenadora geral da Casa da Mulher Trabalhadora (CAMTRA), instituição feminista, que, entre outras causas, defende uma educação não sexista.

Segundo ela, muitas das atitudes tomadas pelos professores são automáticas: "Nós fazemos perguntas simples, como por que separar meninos de meninas em algumas atividades, e ninguém sabe responder. As meninas precisam ser protegidas? Os meninos são incontroláveis? São coisas simples, mas os profissionais de sala de aula não se dão conta".

Iniciativas que buscam romper esta lógica são frequentemente rejeitadas pela direção das escolas e pelas famílias, diz Eleutéria. Ana Cristina ressalta que a escola não pode mais ser vista como uma instância hierarquicamente superior à família. "Não adianta a escola querer impor para a família ações não sexistas se a família ainda tem uma postura sexista. A escola tem que acreditar que pode ser parceira da família. Você não vence o preconceito de uma hora pra outra", afirma.

A escola é feita por pessoas, que naturalmente têm preconceitos difíceis de serem esquecidos. Para um processo gradual de mudança de mentalidade, Eleutéria acredita que o profissional que já está em sala de aula precisa de uma formação contínua nesse aspecto, enquanto que quem está se formando professor deve ter o sexismo entre as questões estudadas no curso.

Projeto de lei
Aprovado em outubro, o Projeto de Lei 7627/10, da deputada Janete Rocha Pietá (PT-SP), torna obrigatória a discussão da temática gênero nos currículos escolares. "Minha proposta não é criar no currículo uma matéria especifica, mas ter uma intersetorialidade no tratamento da questão de gênero, de forma intra e interpessoal", diz a autora. A ideia é que essa alteração na forma de educar, enxergando meninos e meninas com direitos iguais, leve a criança a discutir o tema em casa, e assim gradualmente modificar a cultura sexista.

"A gente tem que desconstruir o sexismo na sociedade", diz Eleutéria. Para ela, a escola tem potencial para fazer essa transformação, entretanto não só deixa de fazer isso, como reforça o aprendizado equivocado. Assim como a família e qualquer outra instituição, a escola está inserida em um contexto político, social e cultural que são determinantes para a formação do pensamento. Seria necessária uma grande mudança. Janete afirma: "Não adianta ter delegacia da mulher e Lei Maria da Penha, se não modificarmos a ideologia machista e violenta que há na sociedade. É preciso mudar a cultura".

Material didático
A defasagem dos livros didáticos em geral é destacada. "Parece que na história não tem mulheres, ela é contada a partir dos homens", diz Eleutéria. A representação de famílias brancas, com um pai que lê o jornal e a mãe que faz a tarefa doméstica é usual, acrescenta. Por outro lado, Ana Cristina ressalta que há uma corrente que acredita que para uma menina formar uma personalidade feminina é necessário dizer aquilo que é relativo a meninas. “É uma escolha teórica - que não é a minha. Eu acho que meninos e meninas têm que conviver com a maior diversidade de coisas possíveis”' diz.

Ainda que um material didático não deva incitar atitudes preconceituosas, ele é apenas uma ferramenta. Eleutéria afirma que o livro nunca é o fim, mas o ponto de partida para o professor.

A deputada Janete defende que a cultura de indicar o que meninos e meninas podem ou não fazer deve acabar. “Tem que ter cuidado ao dizer que carrinho é de menino e boneca é de menina. Por que o menino não pode aprender a cuidar do filho que ele vai ter? O filho é dos dois. Tem que mudar a mentalidade de que criança é só mulher que cuida.”

Bonecos sem sexo
Em 2011, uma pré-escola sueca gerou polêmica ao oferecer às crianças bonecos sem sexo definido, buscando combater o preconceito de gênero. Ana Cristina não vê a alternativa como a mais adequada: lidar com a questão biológica do sexo é fácil, o problema seria lidar com o gênero. "Crianças não tem preconceitos, nós é que botamos juízos de valor", diz. O segredo para ela é incentivar a convivência e a aceitação. Não basta palestras e debates, mas sim o convívio entre os diferentes.

 

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