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 Ioschpe: falta competência para fazer uma prova como o Enem
18 de janeiro de 2012 17h40

Angela Chagas

Passados quase três meses da aplicação da última prova, o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) continua provocando polêmicas. Além do indiciamento de dois funcionários de uma escola do Ceará pelo vazamento de 14 questões, nos últimos dias o Ministério da Educação (MEC) confirmou que errou na correção de pelo menos 122 redações. Para o economista e especialista em educação Gustavo Ioschpe, falta competência para gerenciar um modelo complexo de seleção. "Estamos na metade de janeiro e o Enem continua nas manchetes. Isso demonstra que o MEC não tem tido competência para administrar essa prova", afirmou em entrevista ao Terra.

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"O governo tem feito gastos absurdamente altos para que o exame aconteça com segurança e qualidade, mas o MEC tem falhado de maneira bastante visível. Quando houve o primeiro problema (em 2009, com o vazamento da prova dentro de uma gráfica) até poderíamos falar em acidente ou má-fé, mas agora não dá mais, são falhas sucessivas a cada edição", completa o especialista. Para ele, a solução de boa parte dos problemas seria possível com a aplicação de mais provas por ano.

Para 2012, o MEC havia confirmado a aplicação de duas edições, uma em abril e outra provavelmente em novembro, mas na semana passada o ministro Fernando Haddad recuou e disse que a prova de abril não estava confirmada. "A incerteza é muito grande, insistem em fazer uma prova da magnitude do Enem, para 5 milhões de pessoas, uma vez por ano. Assim, sempre ficamos na expectativa de que algo vai dar errado".

Ioschpe cita o modelo de seleção o teste feito nos Estados Unidos, o SAT, no qual as provas são aplicadas diversas vezes durante o mês. "O candidato se inscreve, marca o dia da sua prova no calendário e faz. Se não passou, no mês seguinte pode fazer a prova de novo. Assim reduz a importância de ter apenas uma única prova no ano, para muitos candidatos", afirma. Segundo o especialista, esse modelo é possível graças à Teoria de Resposta ao Item (TRI), também empregada pelo Enem. "Essa é a grande vantagem da TRI, poder elaborar quantos exames quiser com mesmo nível de dificuldade", explica.

No entanto, Ioschpe afirma que é preciso ter um banco de questões bastante elevado, o que não ocorre com o Enem. "Todos sabemos que o número de itens do Enem é pequeno, se não fosse não teria ocorrido o vazamento das questões do pré-teste no Ceará. A grande questão é que eu não sei o quanto isso é pequeno, se são seis mil perguntas disponíveis, 10 mil, 20 mil, é tudo muito nebuloso. Se nem a comunidade acadêmica entende direito como são feitas as coisas pelo MEC, imagina os candidatos ansiosos por uma vaga em uma universidade pública?", critica.

Enem não passou por planejamento"
Criado em 1998 como forma de medir a qualidade do ensino no País, o Enem passou a servir como seleção para ingresso em universidades públicas e privadas a partir de 2009, quando foi reformulado. "O Enem não é uma coisa nova, então por que antes de se mudar o modelo não foi feito um planejamento, testado se daria certo?", questiona Ioschpe ao destacar que houve "uma pressa eleitoreira em fazer acontecer". O problema, segundo o especialista, é que o MEC não estava preparado para organizar uma prova do tamanho do Enem. "Agora o ministério está tentando aprender errando, mas isso não pode acontecer com uma seleção que envolve a vida de milhares de pessoas. Se fossem problemas pequenos, em uma questão ou outra, mas são coisas grandes que prejudicam a credibilidade", diz ao destacar que as maiores universidades do País, como USP Unicamp e UnB, ainda não adotam o Enem justamente por causa dos erros.

O especialista cita ainda o exemplo dos erros na correção das redações, percebidas após alguns candidatos entrarem na Justiça e terem a nota revista, para justificar a necessidade de aplicação de mais provas por ano. "Não é fácil em um País com carência de mão-de-obra, fazer a correção tão rápida para um número muito grande de alunos. O resultado disso é a contratação de pessoas que não têm a qualificação necessária. Se tivéssemos dez, 12 provas por ano, talvez fosse possível formar um grupo mais coeso de professores, com um preparo maior. A grande questão é que querem fazer a coisa de uma maneira que não têm capacitação para fazer. O resultado é que não vai dar certo nunca. É a mesma coisa que construir um aranha-céu com bambu e corda, uma hora cai", completa.

Terra