Criado em 1998 pelo Ministério da Educação (MEC), o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) passou a ser aceito como via de ingresso na maior parte das instituições de ensino no Brasil a partir de 2009. Atualmente, todos institutos federais utilizam a prova, total ou parcialmente, como processo seletivo. Mas se a alta adesão pode ser vista como um destaque positivo, a execução do Enem ainda deixa muito a desejar. Professores apontam entre os problemas a falta de experiência e de zelo em realizar uma prova para cinco milhões de estudantes.
Veja o caderno que teria questões iguais às do Enem
As polêmicas do Enem: da prova que vazou ao endereço errado
Há dois anos, justamente quando sua importância crescia no cenário nacional, cadernos do Enem foram furtados poucos dias antes da aplicação do exame, gerando alteração nas datas em que a prova seria realizada. Esse adiamento fez com que muitas universidades mudassem a maneira com que utilizariam a nota do Enem, além de gerar um prejuízo estimado em R$ 30 milhões para o MEC. Segundo o presidente de honra do cursinho Henfil, Mateus Prado, o grande problema em 2009 foi o excesso de zelo. "A prova não havia vazado para nenhum candidato e mesmo assim decidiram cancelá-la, antes de saber qualquer informação mais detalhada. O próprio ministro participou, cancelando a prova", comenta Prado.
A prova de 2010 foi marcada por erros de impressão na folha de respostas. O caderno de questões informava que as questões de 1 a 45 eram da área de Ciências da Natureza e da 46 a 90 eram da área de Ciências Humanas, mas nos cartões de resposta a indicação era justamente a inversa. "Em 2010, o problema foi exatamente o oposto do ano anterior: tivemos falta de zelo, o que gerou um descuido e uma inversão nos gabaritos que prejudicou todos os candidatos. E como isso foi o problema mais grave, outros erros menores, como o vazamento da redação lá no Nordeste, acabaram sendo mascarados por este maior", destaca Prado.
Neste ano, mais falhas. Apostilas com questões idênticas às da prova foram distribuídas a alunos do colégio cearense Christus, de Fortaleza. O MEC chegou a cancelar a prova de 639 alunos da escola, mas a Justiça Federal ordenou o cancelamento de questões em todo o País. "Tudo ocorreu por causa desses pré-testes realizados pelo MEC. Acho que essas pequenas falhas desta edição e das outras são geradas por uma certa falta de experiência dos organizadores', explica o coordenador de vestibular do Anglo, Alberto Francisco do Nascimento.
Nascimento não acredita que o pré-teste, com questões da própria prova, seja um procedimento benéfico para o Enem. "Não vejo a necessidade destes pré-testes em colégios, pois eles geram margem para esse tipo de problema. O profissional que elabora as questões deveria ter competência suficiente para criar problemas coerentes e com um nível de dificuldade adequado", conclui Nascimento.
Entre acertos e desacertos, as opiniões se dividem com relação ao exame. "O Brasil tem questões muito maiores e mais urgentes na área de educação do que esse tipo de preocupação marqueteira de criar um exame nacional, que foi vendido e mistificado com a ideia de que ele acabaria com o vestibular", afirma o professor de física e diretor do Grupo Unificado, de Porto Alegre, Enio Kaufmann. Ainda segundo o professor, a função do exame foi distorcida com o passar do tempo. "Não se pode pegar uma prova como o Enem, que foi criada para avaliar o ensino médio, e transformá-la de uma só vez num vestibular nacional", conclui.
Entretanto, mesmo com essas falhas estruturais e problemas na aplicação, o MEC já bateu o martelo com relação ao futuro do Enem: a prova continua. "De qualquer sorte, o Enem veio para ficar. É bom lembrar que não representa o fim do vestibular, mas outra forma de selecionar candidatos. Seja com o nome de Enem, seja com o nome de vestibular, ambos são como um concurso público, que testa aptidões", opina o professor de história do Grupo Objetivo, Ricardo Russo.
O professor vê a mobilidade como um dos pontos fortes do exame. "Unificar o acesso às universidades, com uma prova idêntica para todos, parece bastante democrático. Além disso, traz mobilidade ao vestibulando que pode escolher em todo o país a instituição a qual quer cursar. Esse modelo também atraiu pessoas de mais idade, e não apenas adolescentes. Novamente isso me parece bastante democrático", destaca Russo.
Especialistas sugerem mais edições no ano
Uma alternativa apontada por especialistas seria a aplicação do exame com uma frequência maior durante o ano, como seis, oito ou até dez vezes. "Se você diminui a escala da prova, como cinco provas aplicadas para um milhão de pessoas cada vez, em vez de uma para cinco milhões, por exemplo, as chances de algo sair errado caem drasticamente", afirma Prado.
O SAT (Scholastic Aptitude Test), exame americano para ingresso nas universidades do país, emprega esse método, sendo aplicado sete vezes durante o ano. "É claro que seria permitido ao estudante realizar mais de uma prova no mesmo ano, mas isso não acarreta em problema algum, uma vez que a maior parte das questões tratam de interpretação, interpolação, extrapolação, sem aquela exigência de conteúdo realmente denso", conclui o educador.
Outro ponto defendido é a redução do número de questões da prova. "Cento e oitenta questões em dois dias é um volume muito grande de exercícios para tão pouco tempo. Além disso, com a diminuição do número de questões teríamos uma prova mais elaborada, que poderia exigir mais do aluno que realmente se preparou", afirma Nascimento.
A adaptação de conteúdos também se faz necessária, considerando que o Brasil é um País vasto e recheado de culturas distintas. "Há que se levar em conta as diferenças regionais. Em um País continental, há que se olhar para os Estados com carinho. Pegue-se o exemplo da Literatura. Concentram-se as questões, para variar, no modernismo. Há um paulicentrismo exacerbado, como se não produzíssemos literatura fora do eixo Rio-São Paulo", ressalta o professor Russo.

- Cartola - Agência de Conteúdo - Especial para o Terra



