Enem: mesmo fundamentada, opinião polêmica pode zerar redação

3 out 2011
14h39

Parte fundamental da nota do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), a redação tem uma peculiaridade na comparação com outros processos seletivos do ensino superior. Nesta prova, a opinião do candidato sobre o tema proposto também é analisada pelos avaliadores, afirma Mateus Prado, presidente de honra do Instituto Henfil, que oferece curso preparatório voltado exclusivamente para o Enem. E opiniões que destoem daquelas majoritariamente aceitas na sociedade são consideradas inválidas, diz o professor, que indica que o aluno evite choque com o tema indicado.

"O Enem deve elaborar propostas de intervenção ética, então, cuidado com posicionamentos considerados duvidosos como, por exemplo, negar a existência do fenômeno de aquecimento global", alerta.

Prado explica que outros exames, como o vestibular da Fuvest (que seleciona estudantes para a USP), por exemplo, aceitam esse tipo de posicionamento, desde que embasado em argumentos sólidos. "O que a Fuvest quer é que você consiga argumentar. O Enem quer a ética das organizações boazinhas, tipo os órgãos da ONU, como a Unesco", afirma. Contudo, convém lembrar que abordagens discriminatórias, como racismo, homofobia ou xenofobia, são critérios para anulação da prova em qualquer instituição.

Em alguns casos, alerta Prado, se a banca considerar a solução proposta pelo aluno como antiética, a redação pode receber nota zero, mesmo que cumpra com as demais exigências. Assim, além de empregar a norma culta da língua portuguesa e encadear as ideias de forma clara acerca do tema proposto, o estudante precisa ter cautela com posições muito radicais. "Assuntos delicados, como o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e o Código Florestal merecem atenção redobrada", recomenda o professor. Sobre esses temas, ele aconselha que o aluno perceba a posição indicada pela prova e mantenha-se favorável a ela para evitar o risco de anulação do texto.

Ser contrário ao ECA e afirmar, por exemplo, que a experiência de trabalhar pode fazer bem a uma criança pode ser uma das opiniões condenadas pela banca, já que os órgãos de proteção aos direitos humanos recomendam que os jovens ingressem mais tarde no mercado de trabalho.

O mesmo pode ocorrer se o candidato defender a extinção das áreas de preservação, previstas no novo Código Florestal, ainda que ele esteja apoiado em bons argumentos. "Como o aluno não tem acesso à correção do texto, é complicado avaliar se esse foi o motivo de anulação", critica o professor, que defende uma forma mais objetiva de correção. "Mais justo seria estabelecer critérios que aos quais o aluno precisasse atender, como saber argumentar. Se ele atingiu, ganha nota máxima nesse item. Se não, não pontua. Com uns 10 critérios assim, a correção seria mais transparente", avalia.

Para evitar a perda de pontos, o aluno deve estudar o edital do exame atentamente, já que o texto dá pistas sobre o que se espera dos candidatos. "Os temas de redação saem invariavelmente da matriz de referência das áreas cobradas, bem como o enfoque exigido", diz Prado. Destaque para as competências e habilidades testadas nas provas de Ciências da Natureza e Ciências Humanas e suas Tecnologias. É, em geral, destes itens que surgem os temas da redação do Enem.

Contatada pela reportagem, a assessoria do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), responsável pela elaboração do exame, afirmou que todas as respostas sobre a prova constam no edital. No entanto, quem procurar o texto não encontrará qualquer menção à anulação da prova de redação por conduta antiética, apenas por fuga ao tema, número insuficiente de linhas, não atendimento ao tipo textual ou apresentação de impropérios, desenhos e outras formas propositais de anulação.

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Foto: Getty Images
Cartola - Agência de Conteúdo - Especial para o Terra Cartola - Agência de Conteúdo - Especial para o Terra

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