Enade: adesão da USP não significa fim de críticas; teste ainda sofre restrições

9 set 2013
08h26
atualizado às 08h26
  • separator
  • comentários

Desde a criação do Enade, em 2004, a Universidade de São Paulo (USP) resistiu em participar da prova. As críticas eram basicamente quanto ao sistema de avaliação por amostragem aplicado no exame. Desde 2009, no entanto, o Enade é universal e o não comparecimento à avaliação impossibilita, segundo a Lei nº 10.861/2004, o aluno de obter diploma. Em agosto, a USP decidiu aderir parcialmente ao exame, do qual deve participar já neste ano – a prova será aplicada dia 24 de novembro. Entretanto, as reclamações quanto à prova seguem existindo por parte de diversas universidades. O descomprometimento do aluno e o alto peso na avaliação da instituição são as principais críticas.

<p>USP</p>
USP
Foto: Marcos Santos/USP / Divulgação

Diretor-executivo da Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES), Sólon Caldas afirma que as instituições de ensino superior são favoráveis ao Enade e tem contribuído para o aperfeiçoamento deste sistema. Porém, acredita que o Ministério da Educação (MEC) falha ao usar um exame pensado para avaliar o aluno como definidor da qualidade do curso.

A desmotivação dos alunos é uma das maiores críticas feitas pelas instituições. "Hoje o aluno não tem motivação nenhuma para fazer o Enade. Pelo contrário, já que o exame é no domingo à tarde com quatro horas de duração", afirma Caldas. Diferentemente do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), que é utilizado no processo seletivo para a entrada em instituições, o Enade apresenta poucos benefícios ao aluno. Basta o estudante comparecer para poder retirar o diploma ao se formar.

Para o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), os alunos precisam ser conscientizados pelas Instituições de Ensino Superior (IES) quanto à importância da sua participação qualificada no exame. A mobilização para o exame deve ser iniciada já no ingresso do estudante na instituição. Segundo o órgão, é preciso dar conhecimento do processo de avaliação a toda a comunidade acadêmica e promover discussões sobre os seus resultados.

Indicador de qualidade
Apesar das falhas apontadas, é do resultado do Enade que sai grande parte do Conceito Preliminar de Curso (CPC). Esta nota é decisiva para a obtenção do Índice Geral de Cursos Avaliados da Instituição (IGC), principal indicador de qualidade no Ensino Superior. O exame acaba por compor 60% do conceito da universidade. De acordo com definição expressa na Portaria Nº 821, de 24 de agosto de 2009, do MEC, o CPC é composto 40% por insumos - incluindo-se aí o corpo docente e a infraestrutura - e o restante pelo Enade, sendo 15% o desempenho dos concluintes, 15% o desempenho dos ingressantes e 30% o Indicador de Diferença entre os Desempenhos Observado e Esperado (IDD), que mostra o quanto o aluno aprendeu.

"A avaliação deve ser um processo construtivo"
A Universidade Santa Úrsula (USU), no Rio de Janeiro, obteve conceito considerado insatisfatório nas últimas cinco avaliações divulgadas pelo Inep. O IGC, que leva em conta o último triênio, classificou a USU com conceito 2 nos relatórios entre 2007 e 2011. Atual reitor da universidade, Lácio César Gomes da Silva diz que o MEC joga a responsabilidade das notas da instituição nas costas do aluno. "O aluno vai desestimulado pelo horário e pelas questões poucos condizentes com a realidade das instituições. Não existe uma padronização do conteúdo, as faculdades o constroem livremente. Alguns conteúdos são discutidos no Sul e não Norte, por exemplo. Isso tem refletido no conceito. O governo pode pensar numa outra forma de avaliação", afirma Silva.

Caldas diz que o MEC estraga a imagem da instituição ao publicar o resultado obtido da prova sem que haja uma avaliação in loco antes. "A avaliação deve ser num processo construtivo, como está na lei do Sinaes ( Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior ). Deve resgatar a qualidade e buscar melhorias para aquilo que está ruim, e não punir", afirma. O Sinaes prevê a visita in loco em instituições com CPC inferior a 3. Para Caldas, a visita deveria ocorrer antes da divulgação do conceito preliminar: "Hoje, primeiro se pune a instituição, depois se manda o especialista".

"Enade nos ajudou a refletir"
A Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) apresenta uma importante evolução nos resultados do exame. Em 2007, o IGC da instituição baiana era 2; quatro anos depois, o relatório do Inep apontava 4. A pró-reitora de graduação, Luciana Alaíde, explica que a UFRB surgiu do curso de agronomia da Universidade Federal da Bahia (UFBA), e que o único curso existente em 2007 ainda enfrentava dificuldades financeiras que se somaram ao boicote dos alunos à prova, gerando um mau resultado. Desde então, a universidade evoluiu, ela acredita. Ainda assim, reconhece que o Enade apontou erros que passam por constante avaliação da instituição. "O nosso aluno em formação ficou com uma média semelhante à do iniciante. Nós não contribuímos em nada na formação desse estudante. O Enade nos ajudou a refletir sobre essa lacuna", afirma. Para Luciana, as provas são muito bem elaboradas e a nota do exame compõe um conjunto de indicadores que a universidade pode utilizar para se autoavaliar.

Os impactos dos resultados do exame nas instituições podem ser acompanhados nos relatórios de autoavaliação institucional. Para o Inep, há hoje uma significativa melhora na qualidade das IES, que vêm aprimorando seus processos internos e de ensino.

A entrada da USP
Reitor da USP, João Frandino Rodas afirma que, embora a universidade tenha métodos próprios para se avaliar, a entrada no Enade será benéfica para efeitos de comparação. A adesão, entretanto, é parcial: "o acordo assinado, por ser uma experiência piloto, fornecerá subsídios para a adesão definitiva". O contrato prevê ainda a participação de professores da USP no aperfeiçoamento do Enade.

Cartola - Agência de Conteúdo - Especial para o Terra Cartola - Agência de Conteúdo - Especial para o Terra

compartilhe

comente

  • comentários
publicidade
publicidade