Educação

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15 de abril de 2013 • 07h57

Diálogo é alternativa para evitar expulsão em caso de indisciplina

Dois alunos de uma escola na Cidade do Cabo foram expulsos por protagonizarem cenas de sexo em um vídeo gravado nas dependências da escola. O adolescente que registrou as imagens também teve que se transferir para outra instituição. No Reino Unido, um garoto de cinco anos foi expulso de uma escola após chutar o rosto de uma professora, no fim do ano passado. Já na Espanha, um bebê de apenas 15 meses foi expulso de uma creche por morder os colegas. Em todos os casos, a saída encontrada pelas escolas para a indisciplina foi aplicar uma medida extrema, que, na visão de especialistas, não é recomendada e contraria a ideia de uma solução educativa.

"A expulsão de um aluno, adolescente ou criança, talvez represente uma violência maior do que qualquer tipo de comportamento problemático", enfatiza a professora de psicologia escolar da Universidade de Brasília (UnB) e da Universidade Católica de Brasília (UCB) Sandra Francesca Conte de Almeida. Bem longe de ser um ato educativo, a atitude pode ter um impacto negativo na vida do estudante, já que a instituição abre mão de responder ao problema e tratá-lo da maneira adequada, seja com acompanhamento psicopedagógico ou com outras atividades dentro da escola.

Sandra explica que, quanto mais novo é o aluno, mais problemático é o ato de expulsá-lo. Isso porque a criança perde a referência para aprender o que é certo ou errado. Mas ela ressalva que o cuidado não deve encorajar educadores a eximir os estudantes da responsabilidade pelo que fizeram. Para a doutora em Educação e professora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Vanessa Neves, não há atitude que justifique uma expulsão. "O papel da escola é promover a inclusão dessas crianças no processo de escolarização, aprendizagem e socialização. A exclusão não é interessante. O aluno não aprende com esse processo, nem a própria escola aprende a lidar melhor com essas crianças", opina.

No Colégio Joana D'Arc, em São Paulo, a coordenadora pedagógica para o ensino médio, Maria da Graça Drigo, diz que nunca houve expulsão por indisciplina. Quando há problemas com alunos, eles são chamados para uma conversa com a coordenação e pelo menos um dos responsáveis. "Essa conversa nunca é só com um dos lados", explica. Maria da Graça acrescenta que os estudantes são estimulados a falar das dificuldades e opinar sobre como se sentem no colégio, a fim de detectar a origem dos atos de rebeldia. Além disso, a escola também tenta trabalhar conceitos de responsabilidade desde as séries iniciais, recompensando a boa conduta, como a pontualidade, com até um ponto na média final de cada trimestre.

Escolas não devem desistir dos alunos
A escalada de Thuvia Salviano até o teto de uma escola estadual na Barra Funda, em São Paulo, seguida de uma fuga pelo muro, chegou perto de um desfecho trágico: após cair sobre os trilhos do trem, a então aluna do primeiro ano do ensino médio quase foi atropelada. Procurada por professores da instituição e pelos pais, Thuvia foi localizada e, em seguida, recebeu como pena um convite para se retirar da escola - uma maneira sutil de comunicar a expulsão.

O ano era 2004, e a aluna já acumulava várias suspensões no currículo. "Eu era o capeta. Sempre fui muito danada", brinca hoje, aos 23 anos. As indisciplinas variavam desde fuga da escola pelo vão do portão ou aulas em que passava escondida no banheiro até rebeldias em relação à vestimenta. "Eu pegava a camiseta da escola e cortava bem curta. Aparecia a barriga, mas não podia", recorda. No fim, ela acabou permanecendo na instituição, migrando para a turma da noite no ano seguinte. Em casa, ela sentou várias vezes com os pais para conversar sobre suas atitudes, mas na escola, ela alega que não teve um acompanhamento pedagógico, na época.

Ao redor do mundo, outros casos ganharam notoriedade. No Reino Unido, o pequeno Logan Steed já havia sofrido diversas suspensões na Powers Hall Infant School, na cidade de Witham, na região sudeste, quando foi expulso por agredir uma professora no rosto. Apesar da idade, ele também motivou uma evacuação na sala, para proteger os demais alunos, e também foi afastado de uma professora que estava grávida para garantir a segurança da gestante, segundo os jornais britânicos Mirror e Daily Mail. O pai, Cameron, disse que a escola não poderia ter desistido tão cedo do filho.

Para Vanessa, as escolas devem buscar entender a origem da indisciplina e por que ele se expressa dessa maneira. A explicação pode estar na própria instituição e sua forma de organização ou no ambiente de casa. "É preciso verificar questões que estão presentes na escola, na comunidade e no contexto das políticas públicas para então reverter o quadro", observa. A família também cumpre um papel fundamental, acompanhando o aprendizado e mantendo o diálogo com os educadores. "Muitas vezes, a atitude da criança é um retorno do que fazem com ela", avalia Sandra.

A professora da UnB destaca a importância de as escolas contarem com equipes pedagógicas que possam oferecer suporte aos alunos e à família, em vez de renunciar ao aluno. Muitas vezes, isso acaba gerando outros problemas, como definir para onde o estudante irá. "Vai chegar em outro lugar com um estigma, um rótulo, o que gera constrangimento", diz. Para as especialistas, a expulsão traduz uma falha da escola e da sociedade. "É como dizer 'eu não posso mais, eu não dou conta'", sentencia Sandra.

Cartola - Agência de Conteúdo - Especial para o Terra Cartola - Agência de Conteúdo - Especial para o Terra