Educação

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03 de junho de 2013 • 08h13 • atualizado às 11h39

Cidade do RS oferece até faculdade 'de graça' para conseguir médicos

Municípios do interior pagam salários de R$ 25 mil e se propõem até a financiar faculdade para estudantes, mesmo assim não conseguem médicos

Edes de Mello Rosa, 28 anos, fez técnico em enfermagem, mas sonha em cursar medicina
Foto: Arquivo Pessoal / Divulgação
  • Angela Chagas
 

Enquanto o governo brasileiro trava um embate com associações médicas por causa da proposta de importar médicos estrangeiros para atender a população, municípios do interior do País usam de todos os artifícios para conseguir atrair os profissionais. Em Camargo, a 270 km de Porto Alegre (RS), o salário de cerca de R$ 16 mil não é suficiente para que médicos se interessem em trabalhar na cidade de pouco mais de 2 mil habitantes. Para tentar solucionar o problema, a prefeitura decidiu pagar a faculdade de medicina para estudantes residentes na cidade que se comprometam a trabalhar no local por pelo menos cinco anos depois de formados.

Medicina: do sonho à revalidação do diploma estrangeiro

"É sempre o mesmo dilema. Conseguimos um médico, ele fica no máximo um ano e vai embora. Eles não querem morar numa cidade pequena, que não oferece oportunidade para crescer mais e se especializar", diz a vice-prefeita, Eliani Trentin. Ela tem esperança que a lei, sancionada no final de 2011, possa acabar com o dilema de não saber se no próximo mês o médico contratado vai continuar prestando o serviço.

Pela proposta, moradores da cidade há pelo menos cinco anos que tenham sido aprovados no vestibular de medicina de qualquer instituição privada - não importa o valor da mensalidade - terão todo o curso custeado pela prefeitura desde que se comprometam a retornar à cidade depois de formados e trabalhar até pagar o investimento (a estimativa é que serão necessários de cinco a seis anos). Nesse período, o médico beneficiado vai receber apenas um auxílio de dois salários mínimos, cerca de R$ 1350.

A ideia, que já despertou o sonho de muito estudantes da cidade, ainda não foi colocada em prática, já que nenhum morador foi aprovado no vestibular. "Como é preciso residir aqui há mais de cinco anos, ficamos um pouco restritos. Mas eu acredito que em breve teremos os primeiros universitários participando do projeto", projeta a vice-prefeita.

Edes de Mello Rosa, 28 anos, é um dos que veem na proposta da prefeitura uma oportunidade de mudar de vida e ainda ajudar a população da cidade onde nasceu. Filho de agricultores, ele trabalha como agente de saúde da prefeitura e ainda faz bicos como auxiliar de enfermagem na cidade vizinha de Marau. Mesmo sem tempo de se dedicar aos estudos, ele acredita que vai conseguir realizar o sonho.

"Agora no segundo semestre quero fazer um cursinho. Essa é a oportunidade da minha vida porque nunca teria como pagar pela faculdade, nem tenho condições de passar no vestibular de uma universidade pública", conta o jovem, que tem esperança de ser aprovado na seleção para a Universidade de Passo Fundo (UPF), localizada a cerca de 50 quilômetros de Camargo.

Questionado se gostaria de permanecer na pequena cidade do interior depois de formado, Edes não hesita: "Nasci aqui, nunca pensei em sair". Sobre a possibilidade de ir para cidades maiores se especializar, ele diz que Passo Fundo oferece um bom ensino médico e que não precisaria ir para grandes centros para fazer residência médica. "Muita gente critica essa proposta, dizem que  dois salários é muito pouco, mas e todo o aprendizado? Essa oportunidade é única. Sem contar que vou poder fazer plantões e ganhar mais", diz. Na lei municipal, a jornada do médico é de 30 horas semanais na unidade básica de saúde, mas não restringe o profissional a fazer atendimentos particulares e plantões em hospitais da região fora desse horário.

Este ano, Camargo conseguiu contratar uma médica para atender em turno integral e outro para trabalhar 20 horas semanais. Mas a prefeitura não sabe por quanto tempo eles vão continuar na cidade, já que os contratos são temporários. A prefeitura já tentou fazer concurso público, mas não houve nenhum interessado. Segundo a vice-prefeita, não é por falta de estrutura que os médicos rejeitam Camargo.

"Temos duas unidades de saúde perfeitamente equipadas para o atendimento básico, claro que não fizemos cirurgias e procedimentos mais complexos, mas temos equipamentos para exames, contamos com enfermeiros, fonoaudiólogas, nutricionistas, farmacêuticos, dentistas. O problema é mesmo o médico", lamenta.

Nem mesmo salário de R$ 25 mil atrai médicos para interior de MT
Em Porto Estrela, a cerca de 180 quilômetros de Cuiabá, a estratégia da prefeitura diante da falta de médicos foi aumentar o salário para pouco mais de R$ 25 mil para uma jornada de 40 horas semanais. Mesmo assim, desde dezembro a cidade não conta com nenhum especialista para atender os 4 mil moradores. 

O secretário da Saúde, Manuel Odir da Cruz, conta que a falta de médicos sempre foi um problema em Porto Estrela. "Na administração anterior chegou a ser feito um concurso e teve um médico aprovado, mas foi demitido porque ele não vinha trabalhar", lamenta Odir. Segundo ele, aliado a falta de estrutura para um atendimento mais especializado, a cidade não conta com atrativos para que pessoas de fora se interessem em viver no local.

"Para chegar aqui são 35 quilômetros de estrada de chão, não temos uma boa lanchonete, um supermercado grande. Eles (médicos) querem um bom restaurante, uma academia, nossa cidade não tem essa estrutura e as pessoas acabam desanimando de morar aqui", conta. 

Sem atendimento médico no único posto de saúde, a população precisa se deslocar para o município vizinho, de Barra do Bugres, e percorrer os 35 quilômetros de estrada de chão para consultar. Nos casos de emergência, a prefeitura disponibiliza uma ambulância, que já está em situação precária, para o transporte. "Muitas complicações de doença poderíamos evitar se tivéssemos um médico aqui, mas ninguém quer", diz o secretário. 

Tanto em Porto Estrela quanto na cidade gaúcha de Camargo, os gestores defendem a contratação de estrangeiros para minimizar o problema da falta de médicos a curto prazo, mas pedem mais. "Me preocupo com a questão da língua com essa vinda dos estrangeiros. Nossa população é carente e se não dominar bem o idioma, esses médicos não vão conseguir se comunicar. Mas acho que já é alguma coisa", afirma Odir.

Conselho de Medicina é contra pagar faculdade a médicos
O Conselho Federal de Medicina (CFM) é contra que o governo federal e os municípios financiem a faculdade de medicina de estudantes. Segundo o conselheiro Mauro Ribeiro, qualquer tipo de obrigação para que os médicos atuem em determinada comunidade, mesmo que isso represente o pagamento por um curso superior, não deve ser aceito. "O médico deve ser livre para atuar onde quiser depois de formado", afirma.

O conselho também é contrário a vinda de médicos estrangeiros sem que passem pelo Exame de Revalidação dos Diplomas (Revalida). Para o CFM, a solução está na construção de uma carreira para médicos, como já ocorre com os juízes e promotores, por exemplo. "De nada adianta um prefeito oferecer um salário de R$ 25 mil e obrigar o médico a trabalhar 16 horas por dia, em um posto de saúde que não é equipado. O médico quer boas condições de trabalho", afirma.

Para ter uma ideia de como o salário não é o principal diferencial, em Cuiabá, a capital do Mato Grosso, um médico ganha em média R$ 7,5 mil para atender pelo SUS. A prefeitura garante que, mesmo com um salário 30% menor ao pago em Porto Estrela, não faltam profissionais interessados em atender na capital.

O que diz o Ministério da Saúde
O Ministério da Saúde disse, por meio de sua assessoria, que a contratação de médicos estrangeiros é apenas um das medidas para resolver a deficiência de profissionais da saúde na periferia do Brasil. De acordo com a pasta, o País tem hoje uma média de 1,8 médicos por mil habitantes. Esse índice é menor do que em outros países, como a Argentina (3,2) Portugal e Espanha, ambos com quatro por mil habitantes.

Outra proposta, que está em desenvolvimento junto ao Ministério da Educação (MEC), é a abertura de novas vagas em cursos de medicina e em residência com foco nas regiões que mais precisam e que possuem estrutura para formar com qualidade os profissionais. Ainda segundo o ministério, a importação de médicos é vista com bons olhos em outros países e experiências do exterior estão sendo analisadas pelo governo Brasileiro. 

Distribuição dos médicos no Brasil

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