Análise: do lixo à elite das escolas da rede pública do RJ

7 ago 2011
09h36
atualizado às 09h45

Lições de superação de pais, alunos e professores estão levando escolas do interior e da Baixada ao topo do ensino público no estado do Rio. Resultado do primeiro Saerjinho (provão de avaliação) do ano mostra que das 1.457 escolas da rede estadual, as seis melhores do 9º ano do Ensino Fundamental estão em Trajano de Morais, Cardoso Moreira, Duque de Caxias, Porciúncula e Conceição de Macabu. A melhor da região metropolitana é formada, basicamente, por filhos de catadores de lixo.

Adriele, em destaque, é incentivada nos estudos pela irmã e pela mãe, a catadora Neuza, que tira livros do lixo para a filha
Adriele, em destaque, é incentivada nos estudos pela irmã e pela mãe, a catadora Neuza, que tira livros do lixo para a filha
Foto: O Dia

Por trás do bom desempenho de estudantes na avaliação da Secretaria Estadual de Educação para medir o aprendizado em Português e Matemática, histórias de famílias pobres que não medem esforços pelo futuro dos filhos. Na melhor escola da região metropolitana do Rio, a Escola Estadual Lara Villela, em Caxias, muitos alunos são filhos de catadores do Aterro Sanitário de Jardim Gramacho.

Como Adriele da Silva Lopes, 15 anos, que tem planos de voar mais alto que os pais e se tornar aeromoça. "Quero ser alguém na vida e ajudar minha família", sonha a jovem, que está no 9º ano do Ensino Fundamental. O apoio vem da mãe, a catadora Neuza Maria da Silva Lopes, 34, que estudou só até a antiga 5ª série. "Eu trabalho no lixo porque não tive estudo. Mas não quero essa vida para os meus filhos. Por isso brigo muito pela escola e cobro dever de casa", ensina Neuza, que retira do lixo livros de poemas para a filha. "Ela adora poesia", diz. Não foi à toa que o gosto pela leitura rendeu à escola 81,4% de acertos em Português, maior que o de Matemática (75,9%), numa pontuação de zero a 100.

No ranking geral, a campeã foi a E.E.Doutor José de Moraes Souza, em Trajano de Morais, município de 12 mil habitantes na Região Serrana. Lá os alunos acertaram 87,3% em Português e 95,4% em Matemática. "No interior, as famílias participam mais da vida escolar", avalia o secretário de Educação, Wilson Risolia.

Na campeã, km de caminhada e nenhuma falta
Jovens que estudam no interior se saem melhor do que os colegas de escolas da região metropolitana. Foi o que apontou o Saerjinho. Nos pequenos municípios fluminenses, 75% dos estudantes tiveram desempenho bom e alto, contra 66% dos alunos dos grandes centros urbanos.

"Aqui eles não são só um número na chamada. Todos se conhecem e isso facilita o aprendizado", diz o diretor Joarênio Neves Olegário, da E.E. Dr. José de Moraes Souza, em Tapera, distrito de Trajano de Morais, a primeira colocada. Segundo ele, mesmo enfrentando quilômetros a pé para pegar o ônibus que leva até a escola, os alunos não desanimam: "Temos 100% de frequência."

O incentivo aos estudos vem das olimpíadas do conhecimento disputadas entre escolas da cidade, oficinas de leitura e cumprimento do currículo mínimo adotado pela secretaria para orientar escolas sobre o conteúdo que deve ser dado nas disciplinas.

Para Paolo Fontani, coordenador da Unesco no Brasil, a participação da comunidade faz a diferença: "Pais devem ter a consciência do ensino para o futuro dos filhos. A educação é a única chance para que cada um possa mudar a condição em que vive."

De olho grudado no quadro de metas
Em Caxias, alunos do C. E. Lara Villela não tiram o olho do painel de gestão colado na parede. Lá estão as metas de desempenho - frequência de alunos e professores, presença dos pais nas reuniões, prevenção da gravidez entre outras - , que devem ser melhoradas a cada dois meses, com a supervisão da Secretaria de Educação. "Se estamos no vermelho temos que trabalhar para chegar no verde", explica a diretora Delorne Bruno Maia.

Na escola onde estudam 600 alunos do 6º ao 9º ano, além do noturno para adultos, eles têm aulas de xadrez, vídeo, produção de texto com jornais e praticam vôlei e futsal. "Antes ajudavam os pais a catar lixo. Agora ninguém fica ocioso. Se agarram a qualquer oportunidade de poder sair da vida que levam", reconhece Delorne.

Fonte: O Dia

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