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Usado amplamente como isca, boto-cor-de-rosa sofre risco de extinção

18 fev 2014
10h20

O vulnerável boto-cor-de-rosa do Amazonas, uma das poucas e principais espécies de boto do mundo, está correndo risco de extinção ainda maior por seu uso como isca de carne para a pesca de uma espécie de baixo valor comercial.

O alerta é da bióloga Sannie Brum, pesquisadora do Instituto Piagaçu (IPI) e que estudou os hábitos de 35 comunidades pesqueiras no rio Purus, no Amazonas.

Segundo seu estudo, os moradores da região matam anualmente até 144 botos-cor-de-rosa (Inia geoffrensis) por ano, número superior a qualquer limite seguro que garanta sua sobrevivência, para usá-los como ceva na pesca da piracatinga (Calophysus macropterus), um peixe necrófago conhecido como urubu d'água.

"Chegamos a esse cálculo depois que nos informaram que os pescadores extraem da região cerca de 15 toneladas de piracatinga por ano e que 90% da isca que utilizam é carne de golfinho rosado", disse a bióloga à Agência Efe.

De acordo com a pesquisadora, como a piracatinga se alimenta de carne podre, os pescadores utilizam como ceva pedaços de peixes com muito gordura e até jacarés.

Os pescadores preferem usar o boto como ceva porque sua carne tem mais gordura e um cheiro forte e característico que atrai a piracatinga e, como sua pesca está proibida, não podem vendê-lo no mercado, explicou a bióloga.

O jacaré tem maior valor comercial para o pescador, que pode aproveitar tanto sua carne como seu couro, por isso é menos viável como isca, acrescentou a colaboradora da Associação de Amigos do Peixe-Boi (Ampa).

"O cálculo que fizemos se refere exclusivamente à parte baixa do rio Purus, que é uma área de proteção ambiental, mas temos informações de que a prática se estende ao longo do rio, por isso o atual volume de pesca de piracatinga exigiria o sacrifício de cerca de 500 botos por ano apenas nessa região", segundo Sannie, cujo estudo foi financiado pela Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza.

"Outros estudos nos permitem dizer que 1.600 botos são usados por ano para a pesca de piracatinga pelos pescadores de Tefé, no rio Solimões, e que o número chega a 2.500 em toda a região de Manaus. São números que assustam para uma espécie considerada vulnerável", comentou.

Segundo a bióloga, o pior é que esse extermínio de botos tem como único objetivo a captura de um peixe que é vendido por apenas R$ 0,80 o quilo e que é vendido em filés, principalmente na Colômbia, com outros nomes.

"Os pescadores o exploram porque é uma espécie de grande tamanho e alta produtividade, mas os moradores da região o desprezam porque sabem que se alimenta de carne podre", ressaltou.

A União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) ainda não classifica o boto-cor-de-rosa como ameaçado de extinção por ser uma espécie da qual se tem "dados insuficientes", mas as autoridades brasileiras o classificam como "vulnerável".

A maioria dos países amazônicos proibiu sua pesca e tem projetos de proteger a espécie, mas nenhum país da região tem dados sobre sua população.

Uma expedição realizada por cientistas colombianos e brasileiros ao longo de 500 quilômetros dos rios Piagaçu e Purus contabilizou 2.168 exemplares do boto em 2012, dos quais 1.640 da espécie tucuxi (Sotalia fluviatilis) e apenas 528 do rosado.

A espécie, também conhecida como boto-cinza, toninha ou boto do Amazonas, é o maior golfinho de rio do mundo, já que os machos adultos podem chegar a 185 quilos de peso e 2,5 metros de comprimento, e têm seu habitat nos rios Amazonas, Orinoco e Madeira.

"Como qualquer boto, é uma espécie pouco comum. Se não forem adotadas medidas, pode ter o mesmo destino do "baiji", o golfinho chinês de águas doces que foi declarado extinto em 2007", afirmou Brum.

As características da espécie elevam o perigo devido a que os botos amazônicos têm um ciclo reprodutivo lento (10 meses de gestação) e as mães cuidam de seus filhotes por até quatro anos.

Além de seu uso como isca, outras ameaças para o boto são a construção de hidrelétricas, a degradação do habitat, a exploração de petróleo e o aumento da circulação de embarcações e turistas.

Sannie Brum assegurou que entre as medidas que têm que ser adotadas de forma urgente para evitar sua extinção estão o aumento da fiscalização de sua pesca, programas educativos para conscientizar os pescadores e a oferta de alternativas para que os pescadores não dependam da piracatinga.

EFE   
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