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Tumba de Tutancâmon já convive com sua cópia no Egito

30 abr 2014
05h59

Sem os tesouros que a tornaram célebre, mas com a magia que ainda a rodeia, a tumba do faraó Tutancâmon já tem ao seu lado uma cópia que, surgida a partir de uma avançada técnica, poderia livrá-la de turistas para que descanse em paz.

Logo antes de penetrar no Vale dos Reis, a imensa necrópole da antiga Tebas, está a casa de Howard Carter, arqueólogo britânico que em 1922 descobriu intacta a câmara funerária do mais famoso faraó egípcio.

No terreno ao lado surgiu um montículo artificial com uma entrada para a reconstrução da descoberta de Carter.

É a réplica da tumba de Tutancâmon, obra do estúdio Factum Arte, sediado em Madri, que foi enviada pela União Europeia ao Egito em 2012 e que será inaugurada hoje e aberta ao público no dia seguinte.

Após passar um longo tempo guardada e diante da dúvida de qual seria seu destino, as autoridades egípcias finalmente aceitaram que a cópia fosse instalada nas proximidades da cidade de Luxor, no sul do país, como se concebeu desde o início.

Essa nova "irmã gêmea", acessada atravessando um corredor e uma antecâmara, pretende devolver "o espírito da arqueologia", comentou à Agência Efe o artista britânico Adam Lowe, que lidera o projeto.

Luzes tênues ambientam o local, que também compartilha com o original fatores externos como a umidade e as altas temperaturas.

"Tirar o pó das paredes foi incrivelmente difícil, entre outras coisas porque a pintura é muito frágil", explicou Lowe, ao enumerar as dificuldades que tiveram para captar detalhadamente os elementos do túmulo real antes de reproduzi-lo.

Há cinco anos gravaram em 3D a câmara funerária, com um único sarcófago em seu interior. A partir dessa imagem trabalharam para refletir da forma mais fiel possível essa herança cultural em paredes de poliéster com fibra de vidro que foram revestidas com uma espécie de "pele" elástica e rugosa.

"É impressionante como a pesquisa ajuda o processo", com desafios como elaborar os materiais ou desenvolver a tecnologia, disse à Efe o espanhol Javier Verrumo, responsável pela montagem.

Não se salvam da imitação nem os remendos, microbactérias e defeitos acumulados desde a criação da última morada do chamado "faraó menino", da dinastia XVIII.

Tutancâmon morreu jovem, após um breve reinado entre 1332 e 1323 a. C. aproximadamente, mas foi a descoberta de seus tesouros que fez com que se suscitasse uma febre pela egiptologia.

Apesar de as informações que a descoberta proporcionou terem sido inestimavelmente valiosas para os pesquisadores, sempre ficarão outros mistérios por resolver, como o que ficou conhecido como "o fragmento perdido".

Lowe explicou que, durante anos, uma parte da parede que foi retirada para tirar os objetos permaneceu na tumba entre os escombros.

De repente esse pedaço desapareceu e pode ser que esteja guardado nos porões do Museu Egípcio do Cairo, sugeriu o britânico. Essa parede "extraviada" foi reconstruída a partir de uma pequena fotografia em preto e branco que Harry Burton tirou quando ela foi retirada de seu lugar.

Nesse jogo de ideias que surgem da relação entre o original e a cópia, Lowe reafirmou a necessidade de "revelar a biografia da tumba e fazer com que as pessoas pensem que a originalidade é ativa" e vai mudando no tempo.

A porta que some e reaparece para a réplica é um exemplo dessa atividade, como as próprias sepulturas faraônicas também são.

"As tumbas não foram concebidas para serem visitadas, sua originalidade residia em estar em um lugar fechado; por isso, quando se abrem ao público a sua natureza muda", declarou o artista.

Dentro dessa ótica, disse, o novo projeto, que contou com o apoio, entre outros, da Fundação Factum e da associação suíça Amigos das Tumbas Reais do Egito, se alimenta da "tumba mais famosa do mundo, o descobrimento arqueológico melhor documentado para conscientizar sobre os problemas de conservação".

A cópia poderá suportar mais de meio milhão de visitas por ano. Se as autoridades egípcias acharem conveniente, pode ser uma opção para reduzir e, se for o caso, até parar a afluência de turistas ao túmulo original, que com mais de 3.300 anos de antiguidade sofre o desgaste da passagem do tempo e da curiosidade humana.

EFE   
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