Sustentabilidade

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16 de junho de 2012 • 17h40

Vik Muniz cria 'cartão postal sustentável' e critica dispersão da Rio+20

Público é convidado a interagir em obra de Vik MunizClique no link para iniciar o vídeo
Público é convidado a interagir em obra de Vik Muniz
 
André Naddeo
Direto do Rio de Janeiro

Se a internet é o palco da interatividade, no mundo artístico a participação popular atende pelo nome de Vik Muniz. O mais conceituado artista brasileiro da atualidade está na Cúpula dos Povos, evento paralelo à Rio+20, no aterro do Flamengo, na zona sul do Rio de Janeiro, para mais uma semana de mobilização entre sua legião de "catadores de lixo" da vida cotidiana. Ao longo de uma tenda 1,2 mil m², a imagem projetada da baía de Guanabara, aos poucos, vai ganhando o formato que o mundo consagrou no documentário 'Lixo Extraordinário' (2009), que chegou a ser indicado ao Oscar daquele ano.

"É uma situação bastante única, geralmente o artista reserva para si o mérito da feitura. Nesse caso, eu acho muito mais interessante que seja uma experiência mais comum, que todo mundo faça parte", explica o artista, que, com material reciclável trazido pelo público, como garrafas pet, latas de alumínio, e caixas de leite, vai dando forma a mais uma obra interativa para o seu currículo, que só será finalizada na próxima sexta-feira, último dia da conferência das Nações Unidas.

O "Projeto Paisagem" terá em seu produto final uma espécie de cartão postal reciclável, ou melhor, com uma mensagem de sustentabilidade, para chamar a atenção para o descarte irresponsável destes materiais no meio ambiente. Nesta entrevista exclusiva ao Terra, Vik Muniz fala não só da sua mais recente intervenção, como atesta a sua visão um pouco pessimista para com as discussões que vem ocorrendo desde a última quarta-feira.

"Eu vejo esse início como bastante disperso, existe uma infinidade de coisas acontecendo na cidade que fazem com que possa ocorrer uma certa distração em relação aos propósitos centrais dessa conferência", afirma, criticando ainda a forma como foi conduzido o processo de retirada dos catadores do aterro de Jardim Gramacho, palco do seu documentário, pela prefeitura do Rio após o seu fechamento.

"O modo como essa compensação foi distribuída individualmente entre os catadores eu acho isso um absurdo. Você chegar e dar R$ 14 mil para 1,7 mil pessoas que não têm conta no banco, que não fazem asfalto, e que não fazem infraestrutura. Assim não dá", dispara. Confira abaixo a entrevista exclusiva com o artista plástico.

Terra: Quando o visitante entra na tenda da sua obra, ele vê a seguinte mensagem na porta: "O homem se relaciona com o meio ambiente através da paisagem". Esse processo acontece de que forma na sua opinião?
Vik Muniz:
A paisagem é como o homem internaliza a natureza. Nós possuímos certas limitações de sentidos que fazem com que o meio ambiente assuma um aspecto simbólico e linguístico e possa ser compreendido. Acho que a ideia de você criar uma situação onde você pode lidar com aspectos dessa discussão de uma outra forma, cria-se uma possibilidade de você começar a entender que existem alternativas. Até para liberar e abrir um pouco a cabeça para achar outras formas de discutirmos isso.

Terra: O material reciclável entra em que contexto? Qual a mensagem?
Vik Muniz:
A ideia de você criar uma construção a partir de um material, cuja estética, pela associação ao significado do lixo, já está muito poluída, já impregna tudo que não é usável. Você pegar aquilo e fazer uma coisa bonita, você já está recarregando o potencial desses materiais com a promessa de reutilização. Quase tudo é reutilizável.

Terra: Junto a isso tem todo um processo de mobilização, das pessoas fazerem parte da sua obra.
Vik Muniz:
Você fazer disso uma proposta interativa, e trabalhar com pessoas, ao invés de falar: 'olha só que lindo o que eu fiz', é bastante prazeroso. E também não é muito difícil fazer, você abre o processo a todo mundo, é um truque que eu uso. Você coloca o público dentro do estúdio. É uma situação bastante única, geralmente o artista reserva para si o mérito da feitura. Nesse caso, eu acho muito mais interessante que seja uma experiência mais comum, que todo mundo faça parte, e que eu esteja ali apenas como uma espécie de facilitador.

Terra: Qual a sensação que você tem quando vê o produto final, quando você olha a time lapse (imagem que mostra do início ao fim da obra em movimentos rápidos) e ve que sua ideia se materializou, e está ali, na sua frente?
Vik Muniz:
É a sensação mais importante de todo o aspecto artístico, que é a sensação de transformação, você vê uma coisa virar outra coisa. A gente não dá muita bola quando está vendo uma pintura, por exemplo, e você vê o arranjo daquela substância, que é de origem animal, ou mineral, vegetal, que são os pigmentos, os olhos, o que entra dentro da pintura. Naquele arranjo você vai ver um retrato, ou uma natureza morta. Nesses casos, você não consegue sentir o processo de transformação. Aqui, a metáfora é duplamente importante. Você está transformando uma coisa em outra usando elementos, cuja natureza, como material, já te possibilita essa transformação. A garrafa pet, a lata de alumínio, tudo que está aqui pode ser transformado de outra forma. Todo esse material que está aqui pode dar vida a milhões de outras paisagens.

Terra: Mas a sua obra de arte, de qualquer forma, por mais que seja uma paisagem, não dá para comparar com outro tipo de transformação urbana, por exemplo. Ou dá?
Vik Muniz:
O interessante é que você está fazendo o retrato da cidade dentro dela. É o símbolo dentro do símbolo. Quando você está falando de meio ambiente parece que a gente está falando da natureza que está lá fora. Às vezes dificulta o pensamento e a cognição, de você falar de um sistema dentro dele. É uma proposta lógica bastante complicada. A gente quer trazer este paradigma para dentro desta situação. A cidade sou eu quem faço, é uma experiência para meditar um pouco sobre o símbolo da cidade, como ela pode ser executada.

Terra: Já se passaram três anos do lançamento de 'Lixo Extraordinário' e o aterro de Gramacho, inclusive, já fechou. Como você vê hoje a situação dos catadores de material reciclável?
Vik Muniz:
O filme trouxe para o público, inclusive internacional, a questão do catador, ele deu um nome, uma cara. O catador se chama Tião Santos (protagonista e presidente da associação de catadores), virou um personagem bastante importante nessa discussão. Não existiam propostas antes, nenhuma luz no fim do túnel. Quando eu perguntei para o Tião, quatro anos atrás, o que ele achava do fechamento do aterro, ele não soube me dizer absolutamente nada. Hoje, não, ele tem planos, possibilidades, ele é uma figura ativa e atuante nesta discussão.

Com o fechamento de Gramacho, os catadores receberam uma indenização da Prefeitura e foram alocados para outras tarefas profissionais. Isso basta?
Vik Muniz:
Eu tenho críticas em relação a isso. O modo como essa compensação foi distribuída individualmente entre os catadores, eu acho isso um absurdo. Você chegar e dar R$ 14 mil para 1.700 pessoas que não têm conta no banco, que não fazem asfalto, e que não fazem infraestrutura. Eu sei porque as pessoas que participaram do filme eu contribuí como compensação, como ajuda de custo, e esse dinheiro vai embora muito rápido. Para você fazer uma vida você precisa mais do que R$ 14 mil, você já está no prejuízo. Gramacho ainda é uma situação de perigo, tanto social, quanto ambiental.

Terra: Ambiental em que aspecto?
Vik Muniz:
No entorno de Gramacho existe uma quantidade imensa de lixões clandestinos, onde as pessoas trabalham ali nas mesmas condições precárias antes da regularização do aterro. A diferença é que ao invés de um projeto de engenharia, hoje em dia eles não tem mais como aterrar o lixo, então eles queimam. Eu até comentei isso com o prefeito (Eduardo Paes), que quando eu cheguei em Gramacho eu consegui fazer uma (imagem) aérea e era tudo limpo. Hoje você enxerga uma nuvem de fumaça oriunda dessas queimadas que estão em volta que fica quase que impossível fotografar o aterro como um todo. Acho que se não houver uma proposta de mudança econômica para a região, relativa à reciclagem mesmo, o lixão só vai fechar o centro dele, e o entorno vai começar a complicar. Eu não estou muito otimista em relação a isso, não.

Terra: Como você está vendo a Rio+20, a Cúpula dos Povos, todas estas discussões envolvendo o meio ambiente. Vê de forma pessimista também?
Vik Muniz:
Pessimista, não, mas as discussões importantes ainda não começaram. Eu vejo esse início como bastante disperso, existe uma infinidade de coisas acontecendo na cidade que fazem com que possa ocorrer uma certa distração em relação aos propósitos centrais dessa conferência. Como artista, a minha parte está mais voltada para a epistemologia. A gente fala sobre meio ambiente, discute ele, mas com uma linha de pensamento que tem uma evolução. E o artista vive mexendo com essas percepções do meio ambiente, é o que eu chamo de paisagem. Então, a maneira como nós vemos o meio ambiente hoje em dia tem uma linha evolucionária que foi muito desenvolvida através da arte. Através de pessoas que estavam preocupadas com a forma como nós vemos o meio ambiente. Tem aquela história: você olha a meteorologia, e ela tem diz que são 25 graus, mas aí hoje em dia você tem quase que a obrigação de dizer que a sensação é de 28 graus. Então, entre o quantitativo e o sensorial existe um grande abismo. Acho que é isso que temos que começar a pensar. A discussão do meio ambiente é que você tem números que significam coisas diferentes, para pessoas diferentes com interesses diferentes. Não estou querendo mudar o mundo com essa ideia aqui, por exemplo, mas talvez para as pessoas elas vão ter a sensação de que podem mudar o mundo, ao invés de olhar a meteorologia. Acho que é por aí.

Terra