Pesquisa

publicidade
03 de fevereiro de 2009 • 09h03 • atualizado às 13h38

Uso da radiação em alimentos gera polêmica nos EUA

 

Antes da recente revelação de que pasta de amendoim podia matar pessoas e mesmo antes do susto envolvendo espinafre há três meses, a indústria alimentícia dos EUA já havia feito uma proposta. Ela pediu ao governo permissão para destruir germes de muitos alimentos processados através da radiação.

Isso foi há cerca de nove anos, no fim da administração Clinton. O governo tomou medidas limitadas desde então.

Depois que espinafre envenenado com uma linhagem de Escherichia coli matou três pessoas e deixou mais de 200 doentes em 2006, a Administração de Drogas e Alimentos (FDA, na sigla em inglês), agência governamental dos EUA para controle de alimentos e remédios, autorizou a irradiação de espinafre e alface redonda. A medida ainda não foi efetivada.

A irradiação de carne é permitida, mas raramente usada. Entre os itens comuns nas prateleiras dos mercados, apenas temperos e alguns produtos importados, como manga da Índia, são rotineiramente tratados com radiação.

A tecnologia de irradiação de alimentos já existe há quase um século. O governo federal diz que ela é segura e muitos especialistas acreditam que o método poderia reduzir ou até eliminar os surtos de intoxicação alimentar que periodicamente ocorrem na sociedade americana.

A irradiação poderia até ter matado a salmonela que chegou às prateleiras do mercado nas semanas recentes, após uma fábrica na Geórgia ter distribuído pasta de amendoim contaminada, que acabou em produtos como biscoitos e alimentos caninos.

A irradiação não foi amplamente aceita no país
Fabricantes de alimentos temem que os aparentes benefícios não justifiquem o custo ou potencial afastamento de consumidores. Alguns grupos de consumidores reclamam que a irradiação generalizada de alimentos após serem processados iria simplesmente acobertar os problemas de higiene da indústria alimentícia. E alguns grupos de defesa questionam a segurança de longo prazo da irradiação.

Em meio a todas essas dúvidas, uma coisa é certa - a intoxicação alimentar continua. Os casos que ganham atenção pública são apenas a ponta do iceberg. Os Centros para Controle e Prevenção de Doenças estimam que existam 76 milhões de casos de doenças causadas por alimentos todos os anos nos Estados Unidos.

A vasta maioria dos casos é moderada, mas a agência estima que ocorram cinco mil mortes causadas por intoxicação alimentar e 325 mil internações todos os anos.

Tudo isso irrita os defensores da irradiação
"Nossa sociedade esconde a cabeça na areia ao não usar os métodos que temos para impedir doenças e mortes," disse Christine Bruhn, diretora do Centro para Pesquisa do Consumidor da Universidade da Califórnia, Davis. "As regras sobre irradiação são tão rígidas que não se pode deixá-la de lado e usá-la apenas quando um novo problema surge, e isso é prejudicial ao público americano."

Suresh Pillai, diretor do Centro Nacional para Pesquisa de Feixe de Elétrons da Universidade Texas A&M, comparou o medo da irradiação a fobias antigas sobre pasteurização do leite.

"É desnecessário que as pessoas estejam adoecendo hoje por elementos patogênicos no espinafre ou na pasta de amendoim," disse Pillai, que descreveu o potencial da irradiação de alimentos como "imenso." "Temos tecnologias para impedir esse tipo de doença."

O alimento é irradiado pela exposição breve a raios-X, raios gama ou um feixe de elétrons. O processo objetiva reduzir ou eliminar bactérias, insetos e parasitas prejudiciais, e também pode prolongar a validade de alguns produtos.

Os defensores do método dizem que ele é particularmente eficaz na eliminação de elementos patogênicos de produtos como carne moída e alface, em que os patógenos se misturam ao produto ou se escondem em fissuras difíceis de serem limpas por métodos tradicionais.

Os Estados Unidos possuem diversos centros de irradiação, mas eles são geralmente usados para esterilizar suprimentos médicos como ataduras e implantes, não alimentos.

O Food and Water Watch, um grupo de ativistas, há tempos sustenta que a irradiação seria cara demais, impraticável e às vezes ineficaz, pois poderia acobertar as condições imundas das indústrias de alimento. Patty Lovera, diretora assistente do grupo, disse que a irradiação não apenas mata as bactérias, mas também pode destruir os nutrientes dos alimentos.

"Existe todo um impacto no produto alimentício que acreditamos ser de custo inaceitável," Lovera disse.

Ela salientou que a carne irradiada era oferecida em muitos mercados do país no início da década, mas que isso não durou muito. Os consumidores rejeitaram os preços mais altos e o tempo de permanência prolongado da carne irradiada nas prateleiras.

"As pessoas que faziam compras olhavam para a data de validade e se assustavam com o tempo de durabilidade tão longo," ela disse.

Oficiais da indústria alimentícia, por sua vez, permanecem cautelosos a respeito da irradiação devido aos altos custos e à reação do público a qualquer técnica com a palavra "radiação." (A irradiação não deixa rastros de material radioativo nos alimentos.)

Um teste possível para a aceitação do público poderia vir com a comercialização de espinafre e alface irradiados. Depois do surto de Escherichia coli em 2006, a indústria do espinafre perdeu 30% de seus negócios. A FDA aprovou a irradiação de espinafre e alface redonda em agosto.

"Há várias pessoas considerando o método," disse Hank Giclas, vice-presidente de planejamento estratégico, ciência e tecnologia da Western Growers Association. "Mas não sei de ninguém que esteja indo em frente com isso no momento."

Oficiais de duas companhias de irradiação disseram que o negócio no setor alimentício estava crescendo moderadamente.

"Mudou um pouco, mas não muito," disse Harlan Clemmons, presidente e chefe de operações da Sadex, que possui uma unidade de irradiação em Iowa. Ele disse que há o dobro de negócios de irradiação de alimentos para cães e animais de criação do que de alimentos para humanos.

"É incrível," ele disse. "Existem tantos produtos que poderiam ser seguros pelo uso da irradiação."

Ainda não se sabe se a pasta de amendoim ou produtos derivados são candidatos adequados para a técnica.

A irradiação tipicamente não funciona tão bem em produtos com altas quantidades de gordura ou óleo como a pasta de amendoim, pois os mesmos podem estragar durante o processo. Um porta-voz do Conselho de Amendoim Americano disse que a irradiação foi testada e considerada inaceitável por comprometer o sabor do amendoim.

Mesmo assim, Pillai disse que uma dose pequena de irradiação poderia ser eficaz na eliminação de traços de salmonela na pasta de amendoim - ou em produtos industrializados à base de pasta de amendoim - sem prejudicar o sabor. Ele disse que isso não seria um substituto para higiene básica e medidas de segurança alimentícia.

"Você configura a quantidade da dose de acordo com o produto que está usando," ele disse.

Similarmente, um porta-voz da Associação de Indústrias de Alimentos disse que as empresas do setor deveriam se certificar de que suas instalações estejam limpas e seguir boas práticas de produção e segurança de alimentos. Se os problemas persistirem no fim das contas, então a irradiação poderia se tornar uma opção, contanto que fosse autorizada pelo governo federal.

A associação, então chamada Indústrias de Alimentos da América, estava entre os patrocinadores da medida que foi registrada na FDA há nove anos, buscando a aprovação para irradiar carnes e aves prontas para consumo, bem como frutas e vegetais.

Agora que a irradiação de espinafre e alface redonda foi aprovada, a associação se concentra em persuadir a FDA a autorizar a irradiação de salsichas e frios. Um porta-voz da FDA se recusou a comentar, dizendo que a agência não discutia a respeito de petições em aberto.

Tradução: Amy Traduções

The New York Times