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26 de junho de 2010 • 10h16

Sensações táteis podem influenciar pensamentos e decisões

Sensações de dureza podem evocar os conceitos de estabilidade, rigidez e rigor. Rugosidade pode levar a pensamentos de dificuldade e dureza
Foto: Getty Images
 

Tocar um objeto pode influenciar a forma como uma pessoa pensa ou tomas decisões, afirma um estudo desenvolvido pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts, o MIT. Segundo os pesquisadores, as sensações de toque em objetos macios ou duros, lisos ou ásperos e até de segurar objetos pesados ou leves incentivam pensamentos de conceitos abstratos e podem afetar a maneira como as pessoas reagem a um encontro ou negociam o preço de um carro novo, por exemplo.

Os resultados do estudo mostram que sensações de dureza podem evocar os conceitos de estabilidade, rigidez e rigor. Rugosidade pode levar a pensamentos de dificuldade e dureza, enquanto o peso evoca impressões de importância e seriedade.

"Essas sensações táteis não mudam a orientação geral ou colocam as pessoas de bom humor", disse em entrevista ao site Live Science o professor Joshua Ackerman, professor assistente do MIT. "Elas têm um vínculo específico com determinados significados abstratos."

Ackerman desenvolveu seis estudos conjuntos com psicólogos da Universidade de Harvard em Boston e na Universidade de Yale em New Haven, Connecticut. O trabalho é detalhado na edição junho da revista Science.

Os pesquisadores salientaram que o tato foi o primeiro dos sentidos humanos que se desenvolveu e ainda assim tende a receber menos atenção dos cientistas do que os outros sentidos.

Mais do que um sentimento
Pastas pesadas ou leves influenciaram na seriedade com que as pessoas reagiram a cenários e pessoas nos dois primeiros estudos. Os participantes de um primeiro estudo ganhavam pastas contendo currículos de candidatos a um emprego que precisavam avaliar. Os que ganharam pastas mais pesadas, avaliaram os currículos como sendo mais sérios, mas não classificaram os candidatos melhor nos itens como simpatia e habilidade social.

No segundo estudo, pessoas que receberam pastas com itens de investimentos tinham que decidir onde colocar uma quantia em dinheiro. Os homens que receberam pastas pesadas escolheram alocar mais dinheiro para graves problemas sociais, tais como padrões de poluição do ar. Já as mulheres, independentemente de terem pastas leves ou pesadas, separaram o máximo de dinheiro para as graves questões sociais. Mas o peso das pranchetas não afetou o quanto os homens ou mulheres escolhiam investir em assuntos muito menos importantes, como a regulamentação dos banheiros públicos.

Em um terceiro estudo, pessoas que jogaram com peças de quebra-cabeça ásperas como lixa avaliaram as interações sociais neutras como sendo mais difíceis e duras em comparação com as pessoas que manipulavam peças de quebra-cabeça lisas.

Um resultado mais complicado surgiu no quarto estudo com o jogo de quebra-cabeças. Os participantes puderam optar por dividir ou não 10 bilhetes para um sorteio de US$ 50 com um participante anônimo (falso) que fosse seu rival no jogo. O participante anônimo poderia aceitar ou rejeitar a oferta, mas se rejeitasse o participante também não ganharia nenhum bilhete.

Os participantes que manipularam os quebra-cabeças mais ásperos escolheram oferecer mais bilhetes para o concorrente. Isso pode refletir a forma como os participantes viam o outro jogador, como se este fosse potencialmente mais difícil e assim tornavam-se mais generosos para tentar compensar o risco mais elevado de uma negociação posterior. "Nós ficamos um pouco surpresos que as pessoas eram mais generosas", disse Ackerman.

Negociações difíceis
A sensação tátil de dureza entrou em jogo durante o quinto estudo, onde os participantes tocavam cobertores e panos macios ou um bloco rígido de madeira e depois tinham que avaliar uma interação patrão-empregado. Aqueles que sentiram o bloco rígido avaliavam a relação como sendo mais rígida ou inflexível, mas não viam o empregado mais negativamente.

Talvez o resultado mais inesperado tenha saído do último estudo, onde os participantes não usavam as mãos. Em vez disso, sentavam-se em uma cadeira dura ou mole e negociaram a compra de um carro novo com o preço de US$ 16,5 mil. Eles tinham duas chances de dar lances.

As pessoas que se sentaram em cadeiras duras acabaram mudando a oferta entre o primeiro e o segundo lance com uma média de US$ 896,50 pra mais. Em contrapartida, as pessoas que estavam sentadas em cadeiras macias aumentavam suas propostas em uma média de US$ 1,243.60.

Esse efeito causado até mesmo por um toque passivo chocou Ackerman e seus colegas que tinham resolvido fazer o sexto estudo quase por capricho. Esse estudo causou uma sétima pesquisa que não foi incluída no artigo oficial.

Nesta sétima pesquisa, os participantes jogavam com peças de quebra-cabeças ásperas ou lisas e depois tinham que tentar andar numa corda bamba desenhada no chão. Pessoas que tinham tocado as peças do quebra-cabeças áspero acabaram caindo da corda bamba com mais frequência - um resultado que os pesquisadores esperam investigar mais no futuro.

Você tem o toque
Todos estes estudos corroboram uma ideia proposta por Ackerman e seus colegas de que os seres humanos aprendem a compreender conceitos abstratos mentais baseando-se em sensações físicas. Este conceito ganhou apoio ao longo dos anos, mas continua sendo debatido entre os cientistas.

Muitas empresas podem negligenciar o toque durante as suas campanhas de marketing, mesmo porque muitos consumidores encontram primeiro um produto ou um slogan publicitário à distância. Ainda assim, algumas empresas dão atenção. Ackerman apontou para os Macs da Apple, os iPads e os iPhones com suas margens lisas e arredondadas, que podem transmitir uma sensação de facilidade.

Redação Terra