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Prever terremotos é grande desafio para a ciência

16 abr 2009
08h35
atualizado às 10h25
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Quase todos os terremotos são pequenos. Um pequeno segmento de uma falha tectônica localizada quilômetros abaixo da terra se sacode um pouco, com um rugido rouco e imperceptível na superfície. Mas no caso de alguns poucos abalos, a falha tectônica continua a se mover, o chão salta por alguns metros e o mundo todo estremece em um cataclismo.

Vista aérea de Onna, cidade vizinha à L'Aquila, a mais atingida pelo terremoto da última semana
Vista aérea de Onna, cidade vizinha à L'Aquila, a mais atingida pelo terremoto da última semana
Foto: Reuters

"Como é que uma dessas rupturas avança de um ritmo de 2,5 centímetros anuais para um ritmo de 5.000 km/h em alguns segundos?", pergunta Ross Stein, geofísico do Serviço de Levantamento Geológico dos Estados Unidos (USGS).

Essa lacuna no conhecimento torna a previsão de terremotos um exercício frustrante e arriscado, e complica os esforços para calcular os riscos de que uma construção humana como um reservatório de água ou uma usina de energia geotérmica possa inadvertidamente deflagrar um terremoto mortífero.

No mês passado, Giampaolo Giuliani, um técnico que trabalha em uma experiência com neutrinos no Laboratório Nacional do Gran Sasso, na Itália, lançou um alerta urgente de que um forte terremoto estava a ponto de acontecer na região dos Abruzzi. A previsão se baseava em medições que ele havia realizado e indicavam níveis elevados do gás radônio, presumivelmente liberado por rochas que estavam sendo esmagadas pelas tensões de um abalo sísmico incipiente.

Em 6 de abril, um terremoto de magnitude 6,3 atingiu a cidade de Áquila, no centro da Itália, e causou a morte de quase 300 pessoas. Giuliani afirmou que isso confirmava sua previsão, que as autoridades haviam desconsiderado.

No entanto, especialistas em terremotos como Stein demonstram ceticismo. Os cientistas vêm estudando o radônio como possível sinal de alerta de terremotos desde os anos 70, e embora tenham encontrado exemplos convincentes de liberação de radônio antes de alguns terremotos ¿por exemplo, a presença de radônio na água do lençol freático era 10 vezes superior ao normal antes de um terremoto que atingiu Kobe, no Japão, em 1995-, as correlações nunca foram fortes ou claras o bastante para permitir previsões úteis.

Um exemplo de sinais de radônio confusos aconteceu em 1979. Dois detectores instalados no sul da Califórnia, posicionados a cerca de 30 quilômetros de distância um do outro, localizaram níveis incomumente elevados de radônio mais ou menos na metade daquele ano. Depois, em outubro, o nível de radônio decresceu, pouco antes que três terremotos acontecessem na região.

Um dos abalos, de magnitude 6,6, aconteceu cerca de 290 km ao sudoeste, e dois tremores menores, de 4,1 e 4,2 graus, aconteceram a 65 quilômetros de distância. Além disso, um detector de radônio posicionado nas imediações do local de um dos abalos menores não identificou níveis elevados de radônio, ainda que tivesse registrado uma queda na presença de radônio alguns dias antes.

Isso deixou os cientistas intrigados quanto à maneira de criar um sistema de previsão que tivesse por base as alterações no nível de radônio. Os dados sobre outros gases, como o dióxido de carbono, e sobre emissões eletromagnéticas que ocasionalmente são detectadas antes de terremotos, também eram confusos.

"Não se pode apostar tudo em um método a menos que se trate de um precursor confiável, que aconteça sempre antes de um terremoto e nunca em outros momentos", disse a sismologista Susan Hough, do USGS.

Para complicar ainda mais coisas, a previsão de Giuliani era incorreta tanto em termos de local quanto de momento. Ele previu que o terremoto aconteceria uma semana antes, e em uma cidade a 50 quilômetros de distância. Caso as autoridades tivessem agido com base em seu alerta, diz Richard Allen, professor da Universidade da Califórnia em Berkeley, "elas teriam promovido a evacuação da cidade errada, e no momento errado".

Embora um método de previsão continue a ser um objetivo arredio, os cientistas descobriram que atividades humanas podem resultar em terremotos. Em dezembro de 2006, um projeto de energia geotérmica em Basileia, Suíça, começou a injetar água a uma profundidade de cinco quilômetros.

A expectativa era de que acontecessem alguns pequenos tremores, mas a água foi desligada quando um dos abalos atingiu a magnitude de 2,7 graus, que ainda é baixa. Poucas horas mais tarde, um abalo maior, de magnitude 3,4, atingiu Basiléia, causando pequenos danos a alguns edifícios.

Poucos meses mais tarde, mais dois abalos de magnitude 3 aconteceram. Os pesquisadores do Instituto Federal de Tecnologia Suíço, em Zurique, calculam que a área passará por número de pequenos terremotos ligeiramente superior ao normal, nos próximos 20 a 40 anos, como resultado do breve projeto geotérmico, que continua suspenso.

A preocupação é que um desses pequenos abalos resulte em uma reação em cascata que poderia causar um terremoto sério, como aquele que danificou Basileia seriamente em 1356. Mas, por outro lado, os pequenos abalos podem na verdade estar aliviando as tensões ao longo da falha geológica, o que reduziria a probabilidade de um terremoto maior.

"Com o conhecimento atualmente disponível, não há como dizer de fato", afirmou Jochen Wössner, um dos cientistas suíços envolvidos no estudo.Os geólogos não sabem de que maneira as porções da crosta terrestre que usualmente se comprimem fortemente sob forte fricção deslizam de maneira suave umas sob as outras durante um grande terremoto - como se uma lixa tivesse subitamente se transformado em revestimento antiaderente. "Ao que parece a fricção é uma criatura muito mais complicada do que qualquer um de nós poderia imaginar", disse Stein.

Um núcleo escavado na falha de San Andreas, Califórnia, revelava a presença de talco, que pode agir como lubrificante durante um terremoto. Mas com base em apenas um núcleo os cientistas não podem afirmar se esse é um traço característico das rochas que existem em torno das falhas geológicas.

Em uma reunião da Sociedade Sismológica Americana, na semana passada, em Monterey, Califórnia, prosseguiu o animado debate sobre as possíveis diferenças fundamentais entre grandes e pequenos abalos, ou se um grande abalo na verdade não seria apenas um pequeno abalo que não parou. Caso os grandes terremotos sejam diferentes, então poderia ser possível detectá-los nos primeiros segundos das ondas sísmicas e emitir um alerta. Não haveria tempo para evacuar os moradores, mas talvez houvesse tempo suficiente, antes dos abalos mais pesados, para que eles se posicionassem em lugares mais protegidos, como sob a arcada de uma porta ou sob uma mesa.

Acredita-se que grandes represas também possam induzir certos terremotos. A maioria dos sismologistas acredita que um terremoto de magnitude 6,5 acontecido na Índia em 1967, com 200 vítimas fatais, tenha sido causado pelo peso da água em uma represa que havia sido enchida alguns anos antes. Uma represa não é capaz de gerar um terremoto por si só, mas pode servir como gatilho para as tensões tectônicas acumuladas, e acelerar em anos ou séculos o momento de um terremoto.

Mais controvertida é a afirmação de alguns cientistas no sentido de que um terremoto de magnitude 7,9 na província chinesa de Sichuan, no ano passado, com 80 mil vítimas fatais, teria sido causado pelas 320 milhões de toneladas de água armazenada em uma represa próxima.

Leonardo Seber, pesquisador do Observatório Terrestre Lamont-Doherty, da Universidade Colúmbia, não sabe ao certo a causa do terremoto em Sichuan, mas acredita que cientistas e autoridades precisam levar mais em conta o risco de terremotos induzidos.

Ele imagina, por exemplo, se uma série de terremotos de magnitude 4 acontecidos duas semanas atrás no Salton Sea, sul da Califórnia, perto de uma das pontas da falha de San Andreas, não podem ter sido causados ao menos em parte por uma usina geotérmica vizinha.

Tradução: Paulo Migliacci ME

Veja também:

Como era ser uma criança negra na Alemanha pós-guerra
The New York Times
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