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10 de junho de 2010 • 10h58 • atualizado às 11h13

Pesquisadores investigam mensagens secretas da capela Sistina

Segundo pesquisa da Universidade John Hopkins, nos Estados Unidos, pode ser visto no pescoço de Deus, na cena "Separação da Luz e das Trevas", na capela Sistina, uma estrutura do cérebro
Foto: Reprodução
 
Matheus Pessel
Direto de Porto Alegre

Em maio, cientistas da Universidade John Hopkins, nos Estados Unidos, afirmaram ter descoberto desenhos secretos de uma parte do cérebro, da medula e dos nervos óticos na cena "Separação da Luz e das Trevas" da capela Sistina, obra de Michelangelo no Vaticano. A descoberta de mensagens na obra não é uma novidade, vários estudos já foram feitos a esse respeito, porém pesquisadores brasileiros, autores do livro A Arte Secreta de Michelangelo, apontam para um aspecto importante: os afrescos abrem espaço para várias interpretações, todas elas com bom embasamento.

Para o professor Marcelo Ganzarolli de Oliveira, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), autor do livro ao lado do médico Gilson Barreto, a proposta dos cientistas americanos Ian Sulk e Rafael Tamargo é "muito bem elaborada" e demonstra os vários vieses que existem na pesquisa desses mensagens secretas.

"No livro, o Gilson identificou nesta cena uma representação do osso hióide, que se situa logo abaixo do maxilar inferior. A identificação do Gilson não envolve as formas do pescoço. Envolve o tórax e os braços do personagem. O artigo em questão mostra um aspecto importante destas análises. Em uma mesma cena, um cirurgião de cabeça e pescoço (Gilson) pode enxergar uma estrutura do pescoço (o osso hióide) enquanto neuroanatomistas (Sulk e Tamargo) podem enxergar estruturas neuroanatômicas", afirma Oliveira em entrevista ao Terra.

O pesquisador diz que outros cientistas já estudaram os desenhos secretos do artista (veja mais detalhes na aba "fotos", acima) na obra da capela e ajudam a explicar melhor as interpretações das pinturas. "Nos outros dois artigos já publicados sobre correlações anatômicas na capela Sistina, um nefrologista (Garabed Eknoyan) enxergou estruturas do rim e outro neuroanatomista (Frank L. Meshberger) também enxergou estruturas neuroanatômicas (um corte sagital do cérebro). Estes casos revelam os vieses que podem existir nestas interpretações. Evidentemente, as análises são bastante subjetivas e sujeitas a vários artefatos", diz Oliveira.

"Isso é claro, não tira o fascínio da pintura de Michelangelo e nem o brilho da criatividade de todos os autores que tentam interpretá-la", afirma o pesquisador.

Séculos de segredo
Da criação de Michelangelo à descoberta feita por Meshberger de um cérebro escondido na cena "Deus cria Adão", em 1990, foram quase 500 anos. Segundo o outro autor do livro, o médico Gilson Barreto, há basicamente três motivos para essa demora.

"In loco creio ser impossível fazer um estudo mais detalhado do teto pelo desconforto cervical e pelo tempo ou disponibilidade de acesso ao local. Após a restauração (da capela), uma série de livros de imagens das cenas foram publicados e desde então os estudos se aprofundaram. Hoje em dia, não há critico de arte que saiba anatomia, portanto tivemos que esperar interesse de pessoas de outras áreas", diz o médico.

Sobre o motivo que teria levado Michelangelo a esconder esses desenhos na capela, Barreto afirma que a resposta teria um fundo religioso, inclusive com interesse na cabala: "a mensagem mais provável é a de sua filosofia religiosa neoplatônica, inspirada no judaísmo. Não creio que havia interesse científico para tal realização". "Na realidade, creio que a única maneira que podemos avançar no seu trabalho (sobre a capela Sistina) seria estudar a correlação entre as peças anatômicas e a árvore da vida da cabala judaica. Temporalmente, os filósofos Marcilio Ficino e Pico de Mirandola eram cabalistas e podem ter influenciado Michelangelo quanto à motivação de sua obra. Curiosamente o esquema do teto da capela é semelhante ao da árvore da vida da cabala", diz o médico.

Contudo, Barreto também afirma que havia um grande interesse de Michelangelo pelo estudo da anatomia humana, representado nessas mensagens escondidas, apesar da destruição de seus estudos. "Alguns desenhos ele próprio destruiu, outros se perderam e alguns foram queimados no saque a Roma em 1527. Mas, o amor pela anatomia humana pode ser comprovada nos seus poemas, na sua obra, na sua biografia e na sua amizade com Realdo Colombo, médico e anatomista", afirma.

O médico diz ainda que outras cenas da capela, inclusive outras obras de Michelangelo, como a estátua Moisés, foram estudadas, a maioria retratada no seu livro feito em parceiro com Oliveira.

Redação Terra