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Para cientistas, busca da cura da aids tem dois eixos principais

24 jul 2012
16h08
atualizado em 26/7/2012 às 09h46

Os cientistas seguem dois caminhos principais na busca pela cura da aids, com base em histórias impressionantes de pequenos grupos de pessoas ao redor do mundo que conseguiram ou superar ou controlar a doença.Apesar dos avanços no tratamento de milhões de pessoas em todo o mundo com medicamentos antirretrovirais, especialistas afirmam que a cura é mais crucial do que nunca porque a taxa de infecções por HIV está superando a capacidade mundial de medicar as pessoas.

Uma menina que nasceu com um cisto do tamanho de um melão na face se recuperou após cirurgia no Reino Unido. Segundo a mãe, Michaela Molyneux, 20 anos, os médicos chegaram a sugerir que ela interrompesse a gravidez porque a pequena Mia sofria riscos de ter sequelas para toda a vida, mas ela manteve a gestação
Uma menina que nasceu com um cisto do tamanho de um melão na face se recuperou após cirurgia no Reino Unido. Segundo a mãe, Michaela Molyneux, 20 anos, os médicos chegaram a sugerir que ela interrompesse a gravidez porque a pequena Mia sofria riscos de ter sequelas para toda a vida, mas ela manteve a gestação
Foto: The Grosby Group

"Para cada pessoa que inicia um tratamento com antirretrovirais, dois novos indivíduos são infectados com HIV", explicou esta terça-feira Javier Martinez-Picado, do Instituto de Pesquisas sobre Aids IrsiCaixa, na Espanha, durante a Conferência Internacional de Aids, celebrada em Washington.

Embora a cura permaneça um projeto distante, ele disse que os cientistas agora podem "prever uma cura a partir de duas perspectivas diferentes", erradicando o vírus do corpo de uma pessoa ou persuadindo o corpo a controlar o vírus sozinho.

O caso mais extraordinário de uma aparente cura é o de Timothy Ray Brown, um homem na casa dos 40 anos, também conhecido como "paciente de Berlim", que era soropositivo e desenvolveu leucemia. Brown precisou de uma série de complexas intervenções médicas, incluindo irradiação de corpo inteiro e dois transplantes de medula feitos de um doador compatível que tinha uma mutação no gene CCR5 que atua como porta de entrada do vírus HIV nas células.

As pessoas sem o CCR5 parecem ser imunes ao HIV porque, na ausência desta porta, o vírus não consegue penetrar nas células. "Cinco anos depois do transplante, o paciente permanece sem tomar medicamentos antirretrovirais e livre de uma nova irrupção do vírus", disse Martinez-Picado. "Este pode ser o primeiro paciente já documentado aparentemente curado de uma infecção por HIV", acrescentou.

No entanto, mesmo que o caso tenha dado aos cientistas opções amplas de pesquisa sobre futuras terapias genéticas, o processo que parece ter curado Brown encerra um alto risco de morrer e toxicidade. "Infelizmente, este tipo de intervenção é tão complexa e arriscada que não seria aplicável em grande escala", afirmou.

Brown deve falar à imprensa em Washington ainda nesta terça-feira, na tentativa de impulsionar as pesquisas rumo à cura, em um momento em que a capital americana sedia o maior encontro do mundo sobre HIV e aids.Outro grupo de interesse especial é conhecido como os "controladores", pessoas cujos corpos parecem conseguir evitar a infecção por HIV.

Deste, um tipo, conhecido como "controladores de elite", têm exames positivos para o HIV mas não parecem ter o vírus no sangue, mesmo sem tratamento. Os cientistas calculam que haja algumas centenas dessas pessoas no mundo.

Um outro tipo é o de controladores pós-tratamento ou pessoas que começaram o tratamento cedo e conseguem pará-lo sem provocar a irrupção do vírus. De 5% a 15% das pessoas infectadas com HIV podem se enquadrar nesta categoria.

Mais detalhes sobre um grupo de "controladores" na França, conhecido como Visconti Cohort, devem ser divulgados durante o encontro esta semana, enquanto cientistas internacionais compartilham os últimos dados na busca pela cura.

Martinez-Picado também descreveu como "promissor" um estudo de cientistas americanos, publicado na edição desta terça da revista Nature , concentrado no uso de novos medicamentos para atacar o vírus quando este se refugia ou se encontra adormecido no sistema imunológico.

Chefiado por cientistas da Universidade da Carolina do Norte, o estudo restrito, feito com oito homens soropositivos que tomavam antirretrovirais, demonstrou como o medicamento para o linfoma vorinostat pode ativar e alcançar o vírus adormecido. Os pacientes que tomaram o medicamento tiveram uma elevação de 4,5 vezes nos níveis de ARN do HIV em suas células T CD4+ (células "ajudantes" que comandam ataques contra as infecções), o que evidencia que o vírus está sendo desmascarado, abrindo o caminho para uma nova estratégia para atacar a infecção latente.

"Conversamos ativamente sobre as potenciais soluções científicas de uma forma que talvez não tenhamos feito anos atrás", disse Diane Havlir, co-presidente do encontro Aids 2012 e professora de medicina da Universidade da Califórnia em San Francisco.

AFP Todos os direitos de reprodução e representação reservados. 

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