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Estudo: planta carnívora pode ser também medicinal

16 fev 2008
15h58
atualizado em 16/1/2009 às 18h38

As plantas carnívoras não são os primeiros organismos que vêm à mente em termos de pesquisa para produtos médicos. Mas, em uma empreitada que se assemelha à ficção científica, pesquisadores estão descobrindo nos fluidos digestivos das plantas carnívoras angiospérmicas enzimas que podem se provar úteis no controle de infecções.

A maioria das plantas sustenta o próprio crescimento absorvendo nutrientes como nitrogênio, fósforo e potássio do solo. Mas para aquelas que têm o azar de viver em regiões nas quais faltam esses nutrientes ao solo, arranjos alternativos se desenvolveram - como a presença de órgãos capazes de apanhar, matar e digerir insetos.

Pesquisadores descobriram nas plantas carnívoras enzimas que podem ser úteis no controle de infecções
Pesquisadores descobriram nas plantas carnívoras enzimas que podem ser úteis no controle de infecções
Foto: Nature

Alguns desses órgãos se desenvolvem em forma de bocas espinhentas que se fecham em torno de insetos desprevenidos que pousem nas plantas. Algumas se desenvolvem como folhas aparentemente normais recobertas de uma gosma, que funciona mais ou menos como o papel pega-mosca.

Ainda outras, como no caso das estruturas apresentadas pela planta Nepenthes alata , são como que jarras escorregadias que funcionam como mundéus, ou armadilhas de caça. A Nepenthes alata usa uma combinação de cores brilhantes e um aroma adocicado com o objetivo de atrair insetos para dentro de sua "jarra", cujas paredes escorregadias e fossa interior repleta de um fluido ácido aprisionam e matam as vítimas.

Pesquisadores há muito imaginavam que o fluido contido na porção inferior da armadilha contivesse enzimas digestivas. Pesquisas anteriores confirmaram a suposição, mas ninguém sabia exatamente de que enzimas se tratava. "A digestão das plantas dessa ordem vem sendo ativamente estudada há mais de 150 anos, e ainda não sabemos como ela funciona (porque) se trata de um processo altamente complexo", afirmou Chris Frazier, da Universidade do Novo México em Albuquerque.

Agora, Naoya Hatano, do Instituto Harima, em Riken, e Tatsuro Hamada, da Universidade da Prefeitura de Ishikawa, no Japão, identificaram sete proteínas no fluido da planta carnívora. As planas carnívoras eram cultivadas em seus laboratórios, e eles recolhiam os fluidos de plantas recém-abertas para impedir contaminação pelos insetos que elas capturam.

Os cientistas utilizaram uma eletroforese com gel de poliacrilamida para separar as proteínas, e um espectrômetro de massa para identificar que espécie de enzima essas proteínas tinham mais probabilidade de constituir.

Algumas das enzimas que encontraram eram pouco familiares. Eles então realizaram buscas em bancos de dados de proteínas para localizar enzimas com estruturas semelhantes, e perceberam que algumas delas provavelmente não tinham qualquer função digestiva.

Proteínas protetoras
Hatano e Hamada constataram que, embora três das enzimas parecessem certamente capazes de funcionar como agentes de digestão de insetos, as demais provavelmente desempenhavam um papel na preservação das presas, porque estavam estreitamente relacionadas às enzimas que previnem infecções por fungos e bactérias, em outras plantas. O relatório do trabalho dos pesquisadores foi publicado pelo Journal of Proteome Research .

O conceito de enzimas preservativas como parte dos sucos digestivos pode não fazer sentido à primeira vista, mas essas plantas consomem insetos de maneira muito lenta, de modo que competem com as bactérias que crescem nos insetos e roubam nutrientes às plantas, explicou Hamada. Cobrir a presa com enzimas antibacterianas mantém porção maior do inseto para consumo da planta, que pode aproveitar seus nutrientes mais tarde.

"Essas enzimas poderiam ser úteis na prevenção de infecções por fungos e bactérias", diz Hamada. Mas novas pesquisas são necessárias a fim de determinar como aproveitar plenamente seu potencial na agricultura e medicina, acrescenta o pesquisador.

"Determinar se as bactérias e fungos serão úteis ou prejudiciais à digestão continua incerto", aponta Frazier. Como as bactérias nos intestinos humanos, elas poderiam estar auxiliando o processo digestivo. As novas proteínas talvez sirvam para imitar a atividade microbiana, como sugere Hamada, mas é igualmente possível que tenham alguma outra função que até o momento não foi compreendida, ele aponta.

"Saber que elas estão lá, no entanto, é um grande passo... Precisamos agora descobrir a que função elas servem", acrescenta Frazier.

Nature

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