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Estudo explica como filmes prendem atenção dos espectadores

24 mar 2010
08h48
atualizado às 08h53

De cena em cena, os filmes avançaram para algo semelhante a um padrão de variação em ondas. Acaba de surgir uma estatística que, no futuro, pode render uma nova categoria de prêmio na entrega do Oscar: melhor ajuste entre a sequência de um filme e os ritmos naturais do cérebro. No periódico Psychological Science, James E. Cutting e sua equipe, da Universidade Cornell, relatam que os produtores de filmes de Hollywood - de forma consciente ou não - têm mostrado uma crescente habilidade na construção da estrutura básica dos filmes para coincidir com a maneira pulsátil, ás vezes suave e às vezes dura, pela qual percebemos o mundo à nossa volta.

Esta sincronia de montagem entre o ritmo do filme e o olho interno da mente pode ajudar a explicar por que os filmes de hoje conseguem prender tanto a atenção do público e parecerem mais reais e imediatos do que os filmes do passado, mesmo quando os roteiros são desprezíveis e o espectador se sinta mal e usado, sem falar do enjoo provocado pelo saco gigante de pipocas e pelas balas engolidas sem perceber.

Segundo o relatório, a estrutura básica de filmagem e a forma como os segmentos de filme de diferentes tamanhos são montados de cena em cena, de ato para ato, evoluiu ao longo dos anos para hoje tomar a forma de um padrão de variação chamado de 1/f - um sobre frequência - ou ruído rosa, como preferem chamá-lo em Hollywood.

O ruído rosa segue um perfil de sinal entre o rígido e o aleatório. Peguemos como exemplo um filme da Penélope Cruz ou de um flamingo no campo. Nós decompomos o filme em uma coleção de ondas trigonométricas de várias elevações e frequências. "Embora sejam diferentes das imagens originais, se olharmos para a distribuição das frequências ocultas, elas possuem uma característica 1/f", explica Jeremy M. Wolfe, pesquisador do Brigham and Women¿s Hospital.

Isso também ocorre em muitos traços dos ambientes naturais ou artificialmente produzidos. Basta seguir as pulsações de um quasar, as batidas de um coração, o fluxo das marés, os ruídos do tráfego ou o movimento do mercado de ações, que o gráfico mostrará dados de ruído rosa.

As provas mais recentes das experiências de tempo de reação demonstram que nós pensamos, focamos e refocamos nossas mentes na velocidade do ruído rosa. De acordo com o Dr. Cutting, "ao se concentrar em uma tarefa, há momentos em que você é eficaz, mas em outros sua mente vagueia, você fica mais lento; estes padrões de oscilação são geralmente 1/f." O Dr. Cutting também questiona se Hollywood é "rosa" e se os filmes são estruturados para apelar a esse ritmo básico.

Para tentar solucionar o problema, os psicólogos analisaram 150 filmes populares lançados entre 1935 e 2005. Eles contaram e mediram todas as tomadas, ou seja, fotogramas de filme produzidos a partir de diferentes ângulos de câmera e editados por meio de cortes ou sombreamentos. Para a experiência foram utilizados a visão humana e os computadores.

Christine E. Nothelfer, estagiária do projeto, relata que "por dois dias seguidos, analisei o filme Os Espiões Que Entraram Numa Fria, com Dan Aykroyd e Chevy Chase. Examinei tomada por tomada, até saber a posição de cada corte, mas ainda não tive a chance de assistir ao filme como simples espectadora."

Alguns filmes tinham menos de 300 tomadas, outros mais de 3 mil. A duração das tomadas variou muito entre o ritmo frenético de "007 - Quantum of Solace", com uma duração média de tomada de 1,7 segundos e alguns filmes mais antigos, em que as cenas chegaram a durar mais de um minuto.

Os pesquisadores também analisaram as relações entre as tomadas, fazendo comparações estatísticas de uma série de sequências. Cutting questiona: "Se você assistiu a uma tomada com duração X, qual é a previsão da duração da tomada seguinte? A distribuição dos tempos de tomada foi totalmente aleatória ou havia algum padrão local ou global a ser seguido - longas com longas, médias alternando-se com curtas, etc.?"

Os filmes de hoje são, em média, muito mais "rosas" do que os filmes de meio século atrás. Suas estruturas de filmagem apresentam maior coerência, um agrupamento relativamente mais coeso de unidades do mesmo tamanho, que acaba emprestando-lhes uma distribuição de frequência mais alinhada com os resultados de laboratório sobre a reação humana e os tempos de atenção.

"Desde cerca de 1960, os cineastas têm convergido para um padrão de duração de tomada que força a reorientação da atenção da mesma forma que o fazemos naturalmente", explica Cutting.

Para citar um exemplo, as cenas em "Rocky IV", que mostram o treinamento de Rocky Balboa para a grande luta, não apenas se alternam perfeitamente com as cenas de treinamento de seu rival, o russo Drago, como cada sequência alternada é também dividida em tomadas com a mesma duração. "Esse tipo de ritmo e montagem de tomadas semelhantes contribui para um padrão 1/f", diz o Dr. Cutting.

Fatos curiosos: o filme com o perfil de distribuição mais "rosa" entre os analisados foi "De Volta Para o Futuro"; os que tiveram as pontuações mais baixas - indicando praticamente uma distribuição aleatória de durações de tomadas - foram duas comédias de 1955: "Mister Roberts", de John Ford e "O Pecado Mora ao Lado", de Billy Wilder.

Cutting enfatiza que um filme envolve muito mais do que tempos de tomadas e grupos de cenas. A cinematografia, a atuação, a direção, o enredo, o desempenho dos personagens, a maquiagem, os figurinos, os efeitos especiais, o serviço de alimentação, entre outros, desempenham seus papéis na distinção entre "O Poderoso Chefão" e "O Poderoso Chefão III". Os pesquisadores também não encontraram qualquer correlação entre o "rosa" da estrutura de corte de um filme e sua popularidade entre os espectadores ou críticos.

Ninguém sabe explicar por que nossa atenção gira de forma vibrante, como batidas do coração e flutuações de falas. "Depende de você sentir ou não que algo de muito profundo lhe é mostrado sobre os princípios gerais de organização dos sistemas naturais", diz David L. Gilden, professor de psicologia da Universidade do Texas.

Segundo ele, os sistemas complexos são caracterizados por algo chamado de crítica auto-organizada. "Eles tendem a migrar para o ponto onde são parcialmente ordenados e parcialmente desordenados", disse ele. "Eles estão no ponto de fusão entre a ordem e a desordem".

The New York Times

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