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Aluno que se recusou a ver dissecação: cientistas perderam sua base

24 out 2013
11h09
atualizado às 11h57
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Em 2007, o então estudante de Ciências Biológicas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Róber Bachinski conseguiu na Justiça uma liminar que permitia que ele não participasse de aulas com vivissecção (dissecação) de animais. Seis anos depois, ele não desistiu de substituir o uso de bichos em sala de aula, nem em pesquisa. Bachinski estuda no Centro para Alternativas aos Testes em Animais da Universidade Johns Hopkins (EUA), como parte de um doutorado-sanduíche na Universidade Federal Fluminense (UFF). Em entrevista ao Terra, ele conta como foi sua luta nos tribunais e afirma que a ciência passa por uma revolução, que incomoda muita gente que está perdendo a base na qual estava acostumado a trabalhar.

<p>Ativistas divulgaram fotos de cães beagles libertados do Instituto Royal, em São Roque (SP), onde animais seriam vítimas de crueldade</p>
Ativistas divulgaram fotos de cães beagles libertados do Instituto Royal, em São Roque (SP), onde animais seriam vítimas de crueldade
Foto: Twitter / Reprodução

Você sabia: por que os beagles são usados em pesquisas de medicamentos?

Aula sem animais
"Como desde adolescente não concordo com o uso de animais, seja para qualquer fim, não quis apoiar o uso de animais no meu ensino também. Através de vários contatos com organizações e pesquisas sobre outras universidades, notei que não é necessário o uso de animais no ensino", conta Bachinski por e-mail. Então estudante da UFRGS, ele diz ter tentado conversar com os professores e a universidade, pois não era necessário promover o sofrimento de um animal, sendo que existem vídeos, simuladores e outras alternativas ao uso de um ser vivo. Como não conseguiu convencer os docentes e a instituição, recorreu à Justiça, e venceu.

A UFRGS acabou por recorrer e ganhou em segunda instância. Mas a celeridade da Justiça permitiu que o estudante fizesse todas as disciplinas sem que precisasse participar de aulas com vivissecção.

A vitória do universitário no Rio Grande do Sul acabou encorajando outros jovens a evitarem esse tipo de aula. "Hoje os professores estão mais dispostos a entender o posicionamento dos alunos e buscar alternativas. Desde 2007, muitos alunos me escrevem e sempre aconselho conversar com os professores primeiro, inclusive propondo pesquisas sobre novos métodos de ensino. A grande maioria dos casos se resolve de imediato, sem necessidade de confronto, desgastante para todos os lados."

"Definitivamente, o uso danoso de animais pode ser banido da sala de aula. Isso já ocorre em muitas faculdades no Brasil (como a Faculdade de Medicina da UFRGS, uma das melhores do Brasil, a faculdade de Medicina Veterinária da USP, e outras universidade) e no exterior. Não há motivos para se matar animais ou utilizar animais como cobaias para aulas práticas. Há diversos simuladores gratuitos produzidos no exterior e alguns produzidos no Brasil (em português), além de técnicas de conservação de cadáveres obtidos eticamente (para ensino e prática de procedimentos básicos, através de cadáveres de animais que morreram em hospitais ou que foram eutanasiados para cessar o sofrimento dos animais em caso de doenças terminais)."

Pesquisa
Para Bachinski, se na sala de aula podemos substituir os animais por métodos alternativos, na pesquisa temos um futuro "promissor" para isso. Ele lembra, por exemplo, a tentativa de reproduzir o funcionamento humano em "chips", como no programa Human Organs-on-Chips, do Insituto Wyss, ligado à Universidade de Harvard.

"Há muitas pesquisas nessa área, em especial aquelas baseadas em bioengenharia, associadas com testes químicos e bioinformática. (...) Hoje temos diversas metodologias in vitro que são recomendadas pelas Farmacopeias Europeia e Americana, bem como pela OECD (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), para a substituição do modelo animal, porém ainda não implementadas no Brasil", diz Bachinski. 

No uso de animais para avaliação e registro de produtos, em algumas áreas essa prática está diminuindo e já foi até banida. "Para cosméticos, claramente não se necessita usar animais para o desenvolvimento e registro. Demonstrando isso, a União Europeia e a Índia já proibiram o uso de animais para esses fins. A Humane Society International, com um grupo no Brasil, enviou recentemente um relatório ao Concea (Conselho Nacional de Controle da Experimentação Animal), solicitando a proibição em âmbito nacional do uso de animais para testes de cosméticos."

Revolução científica
Para o doutorando, há resistência por parte de professores e pesquisadores a estas mudanças porque passamos por uma revolução e, como resultado, esses cientistas estão perdendo as bases nas quais estão acostumados a trabalhar.

"Eu vejo o uso de animais como um ótimo exemplo de paradigma científico, descrito por Thomas Kuhn (físico e filósofo americano, autor do livro "A Estrutura das Revoluções Científicas"), onde a sociedade não aceita mais a ciência normal com todas as suas anomalias (como muitos casos de efeitos colaterais de medicamentos não preditos pelos testes em animais e que são apenas registrados na pesquisa clínica ou, mais tardar, no mercado)", diz o pesquisador.

Bachinski afirma que a sociedade exacerba uma crise científica pela qual passamos: a do modelo animal. "Claro que isso causa medo e muitos desconfortos, pois em um momento de revolução científica, as bases se perdem e não se mostram tão sólidas, mas ao mesmo tempo, esse é um momento único com todas as oportunidades e vantagens." 

O doutorando afirma que é imperativo respeitar os seres sencientes (que têm a capacidade de sentir, inclusive dor), o que levaria o cientista a "manter em paralelo a sua pesquisa uma linha para desenvolver um método alternativo. Isso aumentaria a velocidade de produção de metodologias e dados para as pesquisas". 

"O avanço científico é muito rápido e temos apenas um recorte momentâneo, mas acredito que seja muito factível que em meio século ou menos não necessitemos mais utilizar animais nos laboratórios. Há meio século ainda realizávamos exame de gravidez injetando urina em sapos, uma técnica que hoje se passa como inimaginável devido à tecnologia disponível. "

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Fonte: Terra
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