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ONG luta para salvar onça-pintada no cerrado brasileiro

23 fev 2013
09h43
atualizado às 09h57
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É madrugada na fazenda Preto Velho, a apenas 80 km de Brasília, quando uma onça-pintada selvagem e desprevenida avança em direção à armadilha, se lança sobre a isca e cai abatida por um dardo anestesiante.

Onça Pintada bebê água dentro da fazenda Petro Velho
Onça Pintada bebê água dentro da fazenda Petro Velho
Foto: AFP

Esta não é uma cena comum de caça, mas um projeto científico que pretende colocar uma coleira com localizador de GPS para tentar salvar o maior felino das Américas, em perigo de extinção.

Há 12 anos, a fazenda, propriedade de Cristina Gianni, fundadora da ONG Nex (No Extinction), serve como um santuário de proteção do rei da selva americana, um animal noturno e solitário, grande nadador e que pode percorrer 50 km em um só dia. O animal, porém, está cada vez mais escasso no cerrado brasileiro, bioma que por sua vez também tem sido reduzido pelo avanço dos cultivos de soja e pela criação de gado.

A surpresa da ONG foi descobrir que nas imediações e tão perto de Brasília havia uma onça livre e, para ajudar a protegê-la em uma área com muitas fazendas, decidiram colocar no animal um colar com GPS graças ao qual poderão saber sua localização, avisando desta forma os fazendeiros da região e, ao mesmo tempo, conhecer seu comportamento livre no cerrado.

Em poucas horas, Xangô, como foi batizada a onça, foi devolvido, livre, ao seu hábitat. O rugido grave do animal de 95 quilos e de pelagem negra penetra no ambiente e sua ameaçadora atitude, olhar aguçado e presas imponentes evidenciam sua ferocidade. A anestesia deixa de fazer efeito e o animal é devolvido ao seu hábitat natural.

"Ter encontrado esta onça-pintada selvagem em excelente um estado de saúde, a tão somente 80 km de Brasília, foi uma fantástica surpresa", disse à AFP Leandro Silveira, especialista e presidente do Instituto Onça-Pintada, localizado a cerca de 800 km da fazenda Preto Velho, e que cedeu a coleira de monitoramento remoto que ajudará a preservá-lo.

No Brasil, onde se estima que viva a metade das onças-pintadas americanas, ainda existe a profissão de "onceiro": o caçador da onça-pintada.

A captura de Xangô foi supervisionada por técnicos do Instituto de Meio Ambiente (Ibama) e realizada no mais absoluto sigilo. A AFP , presente na ação, manteve um embargo de 30 dias para evitar que Xangô se tornasse a presa de algum caçador ou fazendeiro ávido por preservar seu gado.

Nestes 30 dias, Xangô, que já mostrou preferência por viver em um bosque próximo, está contribuindo com dados valiosos, graças ao GPS que mostra sua localização em tempo real, o que permite advertir aos produtores de gado das imediações.

"Monitorar este animal pode ser muito importante para a ecologia da espécie, já que cada vez é mais escasso em nosso cerrado, e quando se trata de uma onça-pintada preta, é ainda mais raro", explica à AFP Luiz Alfredo Lopes, analista ambiental do Ibama.

O santuário abriga hoje 22 grandes felinos, 13 deles onças-pintadas, aos quais tenta oferecer condições mais próximas da natureza à qual não poderão voltar. Muitos dos animais que chegam ao santuário foram encontrados em péssimas condições ou até maus-tratos e levados para lá, onde encontram uma vida melhor.

A história de Xico é um exemplo: capturado quando filhote e criado por uma família, que dormia na cama e brincava de bonecas com a menina da casa, "até que começou a crescer, seu instinto animal despertou e tiveram que se desfazer dele", explica Rogério Silva de Jesus, gerente e cuidador da fazenda.

Mas a ONG NEX também tem um projeto único e muito ambicioso de reinserção à natureza. Trata-se da onça Fera, capturada no norte do país há quase dois anos quando era filhote e que alguém entregou a este santuário pensando que ali teria uma vida melhor.

Enquanto cuida de Xangô, a ONG Nex está a ponto de tornar realidade seu mais ambicioso projeto: a reinserção à natureza de Fera, uma onça-pintada capturada no norte do país há quase dois anos quando ainda era um filhote.

É um enorme desafio. "Na imensa maioria dos casos, a reintrodução de grandes felinos à natureza não funcionou, nem sequer na África, mas vamos provar", explica Gianni, entusiasmada.

"Quando chegou até a gente era um filhote, Fera nos mostrou uma ferocidade como se nunca houvesse saído da selva, não queria contato com os humanos, só saía de noite. Descobri que seu instinto havia se mantido intacto e prometi que faria o possível para devolvê-la à natureza", conta.

A onça-pintada pertence ao gênero das panteras, como o leão, o tigre e o leopardo, caracterizados por seu rugido, e que precisam de grandes espaços de natureza preservada.

"A mãe passa dois anos ensinando a sua cria a aprender a caçar e a não morrer. Quando isso se perde, o animal não sobrevive na natureza", acrescenta Gianni.

Fera foi criada em um ambiente especial, onde foi treinada para caçar e mantém sua aversão ao ser humano. A autorização do governo para sua libertação acaba de chegar e, para isso, será necessária uma área remota e preservada na Amazônia.

Outros dois animais estão sendo adaptados para a reinserção na selva. A ONG Onça-Pintada também tenta devolver três onças-pintadas de volta à natureza.

Também conhecido como 'yaguareté', ou verdadeira fera em guarani, e 'nahuel' em mapuche, a onça-pintada habita 18 países na América Latina, do noroeste da Argentina ao planalto central do México.

AFP   

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