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Cientistas anunciam açucar para diabéticos II

No sangue
"Suspeitamos que um polímero é que estivesse formando as partículas em suspensão", conta Buckeridge. Mais seis meses de trabalho e conseguiram purificar as frações de betaglucano, cujo efeito se tornou evidente em um experimento com quatro grupos de ratos mantidos no laboratório de Raimundo Souza, da Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade de Lavras, Minas Gerais. O primeiro grupo era formado por animais normais (sem diabetes), nos quais os pesquisadores injetaram soro fisiológico - uma solução com 0,9% de cloreto de sódio, o sal de cozinha - usado como placebo. No outro grupo, constituído por ratos com diabetes induzido por um composto químico chamado estreptozotocina, também deram uma injeção de água com sal. Os outros dois conjuntos de animais - ambos com diabetes induzido - receberam injeção de betaglucano de duas fontes distintas, um extraído do capim-favorito e outro puro, produzido industrialmente a partir de cevada.

Os ratos diabéticos do terceiro grupo foram os que mais se beneficiaram: o efeito do açúcar extraído do capim-favorito prolongou-se por 24 horas, cerca de seis vezes mais tempo que o da forma pura. Como explicar? "Minha hipótese é que o betaglucano demorou mais para desaparecer na corrente sangüínea porque deve ter permanecido ligado, ainda que parcialmente, ao arabinoxilano, outro polímero de açúcar da parede celular", comenta Buckeridge.

"Se essa idéia estiver correta, poderíamos fazer artificialmente essas ligações com os arabinoxilanos, que podem ser extraídos em grandes quantidades de plantas como o milho e a cana, e prolongar o efeito dos betaglucanos." Para ele, esses resultados sugerem também que os betaglucanos ou alguns de seus fragmentos, chamados oligossacarídeos, atravessem as paredes do intestino e sejam absorvidos durante a digestão de gramíneas e cereais, controlando dessa forma a quantidade de glicose que chega ao organismo após a comilança de pão, bolo ou chocolate. Outra idéia, igualmente sujeita a confirmação, é que esse açúcar consiga agir de modo indireto, ativando a produção de insulina ou mesmo as moléculas desse hormônio que já circulam no sangue.

Gosto suave
No laboratório de Buckeridge o trabalho avança com rapidez. Uma de suas alunas, Ana Maria Silva, encontrou betaglucano em todas as partes da cana-de-açúcar e em outros capins como a braquiária, também muito comum no Brasil. E aconteceu algo inesperado. Há quatro anos, a jardineira Helena Leite Cirilo, que acompanhava passo a passo o doutorado de Ana Cardoso, resolveu experimentar o chá de capim-favorito e, diante dos resultados, adotou-o para controlar seu diabetes. "Eu tomava insulina, mas a taxa de glicose não baixava tanto", diz Helena, 53 anos, diabética desde os 40, hoje com a taxa de glicose estabilizada em 134 miligramas por decilitro (eram quase 400, bem acima da faixa considerada normal, de 70 a 110 miligramas).

"Não recomendo esse uso e explico que ainda não há estudos suficientes para provar a segurança do chá", diz Buckeridge. Sua curiosidade científica ainda não o motivou a experimentar o chá de gosto suave, usado às vezes em estudos com animais. "Pode ser perigoso", ele alerta. Outro dia, outra freqüentadora do laboratório - que não tem diabetes - resolveu arriscar. Ficou zonza durante dois dias, imaginando que a pressão arterial é que tinha caído, mas provavelmente com o teor de açúcar no sangue lá embaixo.
Revista Pesquisa Fapesp