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 Cientistas avançam nas tecnologias de alerta de tsunamis
05 de janeiro de 2010 11h38 atualizado às 12h23

Alertas de tsunamis com antecedência salvaram vidas em Samoa em 2009. Foto: Nature

Alertas de tsunamis com antecedência salvaram vidas em Samoa em 2009
Foto: Nature

Na manhã de 29 de setembro, Mase Akapo sabia exatamente o que fazer. Às 6h48min, na ilha de Tutuila, parte do arquipélago da Samoa Americana, ele sentiu o chão sacudir com intensidade muito maior do que em qualquer ocasião passada. Dez minutos mais tarde, o meteorologista Akapo já estava em seu escritório, divulgando um alerta sobre o tsunami que ele sabia provavelmente estar a caminho.

Alertas de tsunami são um aspecto importante na vida das comunidades costeiras de todo o mundo, mas cinco anos atrás eles vieram a adquirir significado mais forte. Em 26 de dezembro de 2004, um abalo de magnitude nove ao largo da ilha de Sumatra, na Indonésia, gerou uma série de tsunamis que resultaram na morte por afogamento de 230 mil pessoas em todo o perímetro do Oceano Índico. A maioria das vítimas não fazia ideia do que as aguardava.

As lembranças sobre o desastre continuam frescas na memória de muitas comunidades costeiras, até mesmo no Pacífico Sul, onde a Samoa Americana e outras nações usaram essas lições para reformular seus planos de emergência.

"O que aprendemos com o tsunami realmente nos ajudou", diz Akapo, cujos alertas em 2009 ajudaram aldeias inteiras a chegar a locais seguros antes que uma imensa onda varresse Tutuila.

Os especialistas afirmam que ainda resta muito trabalho a fazer, no entanto. Em todos os principais oceanos do mundo - se bem que não no Mar Mediterrâneo, que muita gente ainda considera estar em risco - , sensores sofisticados de detecção de tsunamis estão agora em alerta, da extensa rede inicialmente estabelecida no Oceano Pacífico em 1965 ao novo sistema instalado no Índico depois do desastre de 2004.

Esses sistemas dependem de uma rede de estações sísmicas para detecção dos terremotos, e de posições de sensores costeiros e em alta profundidade submarina para detectar as mudanças resultantes no nível do mar. Mas a melhor instrumentação do mundo não é capaz de garantir que comunicações cruciais sejam realizadas no ponto necessário: as comunidades costeiras no prazo que antecede o tsunami, e em termos que estas possam compreender e aos quais possam reagir de forma ordenada.

"Na região do Oceano Índico, resta ainda muito trabalho a ser feito", disse Costas Synolakis, diretor do Centro de Pesquisa de Tsunamis da Universidade do Sul da Califórnia, em Los Angeles. "Trata-se de trabalho urgente, porque, no que tange aos tsunamis, más informações matam".

Antes de 2004, a maioria das pessoas associava os tsunamis ao Oceano Pacífico, onde Japão e Havaí serviram repetidamente como alvos às suas grandes ondas. Pouca gente se preocupava com riscos semelhantes no Índico. Apenas 4% dos tsunamis registrados no século 20 aconteceram por lá - e nenhum havia ocorrido em décadas em países como Tailândia, Índia e Sri Lanka. Os registros paleontológicos de antigos tsunamis sugerem que o evento de 2004 foi o maior registrado na região em 600 anos.

Naquela época, o Oceano Índico não contava com sistema de alerta contra tsunamis. Em 2005, a Agência Meteorológica do Japão, em Tóquio, e o Centro de Alerta de Tsunamis no Pacífico, em Honolulu, Havaí, começaram na medida do possível a lançar alertas sobre o Oceano Índico, utilizando a rede de instrumentos instalados para o Pacífico.

E pelo final de março de 2010, o novo Sistema Indiano de Alerta e Combate a Tsunamis estará plenamente operacional. O sistema incluirá 120 estações sísmicas, mais de 60 estações costeiras de medição de profundidade do mar e 20 "tsunamímetros" instalados em águas profundas.

O esforço, que custou mais de US$ 100 milhões, está sendo pago por diversos países, com Alemanha, Indonésia e Índia arcando com as maiores cotas. Os 28 países que estão conectados ao sistema são responsáveis pela coleta e transmissão de dados locais a centros regionais de vigilância de tsunamis na Austrália, Indonésia e Índia. Caso os dados sugiram uma ameaça real, os centros imediatamente enviarão um alerta aos pontos focais nacionais para tsunamis, que por sua vez disseminarão alertas a comunidades locais e serviços de emergência.

"As pessoas da região estão mais seguras do que em 2004", diz Keith Alverson, diretor de projeto no Sistema Mundial de Observação Oceânica, parte da Organização de Educação, Ciência e Cultura das Nações Unidas (Unesco), em Paris. "O desafio é adaptar a tecnologia às culturas locais e fazer com que o sistema se torne sustentável em longo prazo", afirma.

Riscos ocultos
Um tsunami que atingiu a ilha de Java em 17 de julho de 2006, causando mais de 600 mortes, demonstra as limitações de qualquer sistema de alerta, por mais avançada que seja a tecnologia em uso. O tsunami chegou cerca de 30 minutos depois do terremoto, e os sobreviventes reportaram não ter recebido qualquer alerta. Os salva-vidas tampouco reconheceram o recuo típico da água marinha que tipicamente precede um tsunami, porque o fenômeno foi mascarado por grandes ondas propelidas pelo vento que estavam se quebrando contra a costa.

"Quando o assunto é um tsunami, informações incorretas podem matar", diz Harald Spahn, geólogo do Serviço Alemão de Cooperação Técnica. O terremoto em si poderia ter causado alarme.

"Para as pessoas que vivem perto de uma falha tectônica, o único alerta efetivo contra um tsunami é o abalo sísmico em si", disse Spahn, que assessora as autoridades de Sumatra, Java e Bali na melhoria das capacidades de alerta contra tsunami em nível local. Mas antes do tsunami de Java, não foi sentido um forte abalo terrestre, e essa é uma ocorrência comum no caso dos terremotos "lentos" que costumam atingir a região.

Exercícios de evacuação e campanhas educativas comunitárias são essenciais para salvar vidas antes de um tsunami, mesmo que a evacuação seja iniciada apenas alguns minutos antes que surja a onda. Exercícios regulares estão sendo conduzidos por algumas comunidades javanesas, agora, mas nem todas as costas da Indonésia contam com preparação suficiente, argumenta Spahn.

Houve alguns casos de sucesso na melhora da transmissão de alertas às regiões cruciais, conhecidas como "o quilômetro final", acrescenta. Por exemplo, os alto-falantes usados normalmente para convocar as pessoas à oração, em mesquitas, também servem como forma eficiente de transmitir alerta de tsunami, e já foram usados para esse propósito em Sumatra e Java.

Esforços semelhantes de educação pública deram resultado e salvaram vidas na Samoa e Samoa Americana, três meses atrás, diz Bruce Jaffe, pesquisador sobre riscos costeiros no Serviço de Levantamento Geológico dos Estados Unidos (USGS), em Santa Cruz, Califórnia. "Muita gente sabia o que fazer", ele disse: as pessoas correram para terreno mais elevado.

O tsunami do Oceano Índico em 2004, diz Jaffe, serviu para "despertar" e revigorar os esforços gerais de preparação das comunidades costeiras em todo o mundo. Mas com a passagem de cada vez mais tempo desde a morte de um quarto de milhão de pessoas, Jaffe se preocupa com a possibilidade de que a conscientização perca o ímpeto.

"Não podemos permitir que isso aconteça", ele diz. "Temos de acelerar ainda mais os nossos esforços, na verdade".

Tradução: Paulo Migliacci ME

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