- Erika Check Hayden
Enquanto o mundo digere o surpreendente anúncio da semana passada sobre uma vacina combinatória contra o HIV que poderia proteger algumas pessoas contra o vírus, os cientistas discutem o que mais o teste sobre essa combinação de vacinas poderia lhes revelar. Em 24 de setembro, os diretores científicos de um estudo envolvendo 16 mil pessoas, conduzido na Tailândia ao custo de US$ 119 milhões, reportaram que uma combinação entre duas vacinas havia reduzido em um terço o risco de infecção por HIV.
Agora, o destino da vacina vai depender de se os cientistas conseguem compreender qual é sua "correlação de proteção" - em outras palavras, o que levou a combinação a proteger parcialmente algumas pessoas contra o HIV. A chave não parece ser nada que os cientistas tivessem previsto, e isso despertou muita curiosidade e alguma preocupação entre os envolvidos e observadores.
"É algo que nos leva a ser humildes, já que pela primeira vez tivemos uma resposta positiva, mas ela não parece estar relacionada a nenhum dos parâmetros clássicos que se espera ver de uma vacina de sucesso", disse Anthony Fauci, do Instituto Nacional da Alergia e Doenças Infecciosas dos Estados Unidos, em Bethesda, Maryland, uma das instituições que bancaram o teste. "Isso nos informa que talvez não estejamos medindo a coisa certa".
Os cientistas devem apresentar mais dados obtidos no estudo durante a conferência Aids Vaccine 2009, em Paris, entre 19 de 22 de outubro. Os patrocinadores do teste também conversarão durante o evento sobre que tipos de experiências devem ser conduzidos, usando amostras de sangue obtidas durante o teste, para determinar a correlação de proteção da vacina.
Enquanto isso, os cientistas que estavam céticos quanto ao teste pediram cautela até que todos os dados tenham sido divulgados. "Ninguém deveria extrair conclusões daquilo que o press release revelou, até que o processo de revisão científica tenha sido completado e haja mais tempo para uma análise sofisticada dos dados", diz John Moore, um pesquisador da aids no Weill Cornell Medical College, em Nova York.
A história desse estudo específico sobre vacina é um tanto controvertida, e a notícia divulgada na semana passada resultou em uma série de elogios e de comentários ao estilo "eu não disse?" O jornal San Francisco Chronicle correu a atribuir crédito pelo sucesso a um pesquisador da região de San Francisco, reportando que as descobertas do teste "eram resultado de décadas de trabalho pelo cientista local Donald Francis", um dos maiores proponentes do desenvolvimento da vacina Aidsvax, um dos dois componentes usados na combinação de vacinas.
E em um artigo de opinião altamente crítico publicado pelo jornal britânico Independent, um colunista criticou diretamente um grupo de 22 cientistas, entre os quais Moore, que se opuseram à realização do teste, em 2004. O artigo afirma que "afortunadamente foi provado o erro" da oposição, e comparou os pesquisadores e as instituições patrocinadoras do estudo a cientistas premiados com o Nobel como James Watson, Frances Crick e Barbara McClintock.
Francis, porém, se recusa a cantar vitória. "Não sei se os resultados me trazem uma sensação de triunfo", ele disse. "É claro que produzir uma vacina que parece funcionar contra o HIV vai ser sempre um grande passo à frente". Mas compreender a correlação de proteção "não será tarefa fácil", ele afirma.
A tarefa será difícil devido à maneira pela qual foi desenvolvido o teste da vacina na Tailândia, que torna impossível determinar qual dos dois componentes de vacina, o Aidsvax ou o Alvac, produziu o efeito de proteção parcial determinado pelos testes. E até mesmo grupos que apoiaram a busca por uma vacina contra o HIV por anos responderam com certa cautela às mais recentes notícias, talvez preocupados com a decepção que poderia surgir caso os resultados do teste não se sustentem, como já aconteceu no passado com outras vacinas contra o HIV.
A VaxGen, antiga companhia de Francis, por exemplo, incomodou muitos cientistas e muitos ativistas no combate à aids ao anunciar em 2003, com base em dados estatísticos tênues, que certos grupos étnicos podem ter sido protegidos em grandes testes clínicos com a Aidsvax, ainda que os testes tenham indicado que a vacina não oferecesse proteção em termos mais amplos e que houvesse pouco motivo científico para que pessoas de diferentes raças apresentassem reações diferentes à vacina.
Mais recentemente, em 2007, pesquisadores suspenderam um segundo teste, conhecido como Step, depois que a vacina testada pareceu ter ampliado o risco de infecção por HIV. Desde então, porém, a interpretação inicial do resultado mudou, com a passagem do tempo e a realização de novos análises.
"Quando as pessoas começam a dizer que um momento histórico acaba de acontecer, é o tipo de declaração grandiosa que seria horrível desmentir depois caso os resultados se provem falsos com base em novas análises estatísticas", disse Richard Jefferys, coordenador do projeto sobre vacinas do Treatment Action Group, uma organização sem fins lucrativos de Nova York que trabalha no combate à aids.
Francis prevê, no entanto, que essas preocupações se dissiparão à medida que novos dados do teste forem divulgados. "Estou certo de que há uma certa postura defensiva no momento, mas isso acontece porque as pessoas ainda não viram todos os dados, e eles indicam claramente que não estamos falando apenas de uma indicação sutil", ele afirma. "As pessoas terminarão por perceber que sim, a combinação de vacinas propicia proteção, e começarão a indagar o motivo".
Na verdade, Francis já está antecipando a necessidade de fabricar mais doses da vacina para permitir novos testes clínicos. A Alvac é produzida pela Sanofi-Pasteur, de Lyon, França, uma empresa com extenso histórico na produção de vacinas. Já a história comercial da Aidsvax, por outro lado, é mais complexa.
Francis e outros cientistas começaram a desenvolver a Aidsvax nos anos 80, no grupo de biotecnologia Genentech, sediado em San Francisco, na Califórnia, e depois criaram a VaxGen como uma subsidiária da Genentech, em 1995. A VaxGen posteriormente se separou da empresa original, e Francis criou a Global Solutions for Infectious Disease, uma organização sem fins lucrativos também sediada em San Francisco, para levar adiante as pesquisas com a Aidsvax, depois que um grande teste clínico da vacina, bancado pela VaxGen, fracassou, em 2003.
Como resultado, a Global Solutions agora detém os direitos sobre a vacina para os países em desenvolvimento. Mas a VaxGen continua a existir como a empresa, ainda que suas reservas de caixa estejam a caminho de se esgotar, depois que o governo dos Estados Unidos cancelou um contrato com a empresa para a produção de uma vacina contra o antraz em 2006.
E a Genentech está hoje sob o controle do grupo farmacêutico suíço Roche, que não fabrica vacinas. "A questão é determinar quem ficaria com os direitos sobre a vacina no mundo industrializado", diz Francis.
Fauci diz que novas doses das vacinas provavelmente serão necessárias para estudos posteriores que teriam por objetivo determinar a base científica do sucesso das vacinas, e que versões mais efetivas delas precisam ser desenvolvidos. "Não acredito que seja necessário haver produção em larga escala por uma empresa", para os estudos de confirmação, disse.
E ainda não se pode determinar se haveria necessidade real da vacina para fins que não os estudos.
Tradução: Paulo Migliacci ME




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