A doença é uma causada por mosquitos portadores de parasitas da malária, tais como o Plasmodium falciparum
20 de agosto de 2009
Foto: Nature
Os parasitas da malária no Camboja estão se tornando cada vez mais resistentes ao medicamento que vem sendo definido como a melhor chance de erradicar a doença do planeta.
Os remédios com base em artemisinina são no momento a melhor arma contra a malária, doença que mata cerca de um milhão de pessoas por ano e é causada por mosquitos portadores de parasitas da malária, tais como o Plasmodium falciparum.
Esses parasitas já desenvolveram resistência a medicamentos como a cloroquina e a sulfadoxina-pirimetamina, que no passado eram as principais armas de combate à doença, de modo que as mais recentes esperanças de sucesso quanto à sua erradicação foram depositadas em terapias combinadas à base de artemisinina, ou ACT.
Surgiram provas de que os parasitas se tornaram menos fáceis de tratar por meio de ACT, no entanto, em testes conduzidos na cidade cambojana de Pailin, perto da fronteira oeste do país, com a Tailândia. A constatação coube a pesquisadores do Programa de Pesquisa Médica Tropical do Wellcome Trust e Universidade Mahidol Oxford, em Bancoc, Tailândia.
Os parasitas estão se tornando mais resistentes, em particular, a uma terapia combinada que envolve artesunate, um derivado da artemisinina, e mefloquine, um análogo do quinino. Essa combinação vem sendo usada para o tratamento de malária em todo o mundo.
Boatos sobre o surgimento de resistência à artemisinina no Camboja vêm circulando há alguns anos, e um estudo de porte relativamente pequeno conduzido por Harald Nödl, da Universidade Médica de Viena, e seus colegas, publicado no final do ano passado, sugere que há resistência à doença emergindo.
Camboja e Tailândia
O mais recente estudo envolvia 40 pacientes infectados com o P. falciparum em Pailin e outros 40 em Wang Pha, noroeste da Tailândia. Metade dos integrantes de cada grupo foram tratados apenas com artesunate e a outra metade com a terapia que combina artesunate e mefloquine.
Os pacientes do grupo cambojano demoraram quase duas vezes mais a eliminar o parasita de seus corpos, ante o grupo tailandês: 84 ante 48 horas. Usualmente, os medicamentos baseados em artemisinina eliminam o parasita em três dias, diz Nick Day, da divisão de pesquisa da Mahidol Oxford em Bancoc, um dos co-autores do estudo publicado pelo New England Journal of Medicine.
Seis dos 20 pacientes tratados apenas com artesunate no Camboja voltaram a sofrer com surtos da doença, ante apenas dois na Tailândia. Nos grupos que utilizaram a terapia combinada, houve apenas um novo surto em cada grupo, entre os 20 pacientes de cada.
A Organização Mundial de Saúde (OMS) recomenda que medicamentos baseados em artemisinina sejam utilizados apenas de forma combinada, para retardar o desenvolvimento de resistência. Mas Day explica que grupos de tratamento por dosagem única eram cruciais para o estudo combinado, a fim de demonstrar que existe resistência crescente também ao artesunate, e não apenas à mefloquine.
O desenvolvimento de variantes de malária resistentes à artemisinina no Camboja é especialmente preocupante, porque outras variantes da doença resistentes a medicamentos também surgiram lá. ¿É um sinal de alerta¿, diz Day. "Temos suscetibilidade reduzida a medicamentos em uma região na qual já vimos o desenvolvimento de resistência no passado". Com o tempo, o parasita deve se tornar ainda mais resistente a medicamentos, ele afirmou.
Acelerar e erradicar
A pesquisa oferece um claro aviso de que os esforços de erradicação da malária precisam ser acelerados, disse Sanjeev Krishna, da Universidade St. George, em Londres, estudioso das origens bioquímicas da resistência à artemisinina. Ele diz que antecipa que terminará por surgir resistência ¿mas que não contava que isso acontecesse tão cedo. "Imaginava que teríamos mais tempo", diz. São necessários programas mais intensivos de desenvolvimento de remédios, acrescenta, a fim de descobrir novos medicamentos com base na artemisinina, bem como tratamentos alternativos.
Um programa de erradicação que combina tratamento continuado e o uso de redes de proteção contra mosquitos está em curso nessa região do Camboja, diz Day. "Será necessária forte vontade política, bem como pesquisa científica e recursos financeiros, para atingir essa meta", ele acautela. Mas se nada for realizado, existe o perigo de que o parasita resistente a tratamentos chegue ao foco central da malária no mundo, a África. "E isso seria um grande desastre", diz Day.
Tradução: Paulo Migliacci ME




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