Usando pêlos do mamute-lanoso, cientistas seqüenciaram o extenso genoma desses primos dos elefantes, segundo novo estudo. O acontecimento deixa os pesquisadores mais perto de "ressuscitar" a espécie extinta por meio da clonagem, embora existam muitos obstáculos técnicos no caminho e alguns especialistas duvidem que isso algum dia aconteça.
» Exibida maior reconstrução de pterossauro» Achado fóssil de peixe com quatro patas
» Achada espécie de dinossauro gigante
» Sapo gigante comia bebês-dinossauro
O estudo é considerado o primeiro a decodificar a vasta quantidade de informação contida no DNA nuclear de uma espécie extinta.
Depois de interpretados, os dados genéticos darão a pesquisadores acesso sem precedentes à biologia e evolução dos mamutes-lanosos, que começaram a morrer após o fim da última Era Glacial, há cerca de 10 mil anos.
Salto Tecnológico
"Nosso estudo mostra, pela primeira vez, que é possível seqüenciar o genoma de um animal extinto quase tão bem e eficientemente quanto um genoma moderno", disse Stephan Schuster da Universidade Estadual da Pensilvânia, um dos dois líderes do projeto.
A técnica poderia ser usada para seqüenciar genomas do homem de neandertal e de humanos mais antigos - mas não dos dinossauros, que se extinguiram há tempo demais para que seu DNA fosse viável hoje, segundo pesquisadores.
O DNA nuclear reside nos núcleos das células, sendo difícil recuperá-lo de ossos antigos. Além disso, ele é muito menos abundante que o DNA mitocondrial, que é transmitido apenas pelas mães.
O genoma mitocondrial do mamute-lanoso foi completamente seqüenciado em 2006. O DNA nuclear, no entanto, carrega muito mais dados genéticos, incluindo praticamente todas as informações sobre traços específicos e características físicas.
Genoma Gigante
O genoma do mamute-lanoso é, de fato, um "mamute".
Pesquisadores seqüenciaram mais da metade dos estimados 4,7 bilhões de pares de bases - muito mais do que já foi feito em qualquer outra pesquisa com a espécie.
Com uma estimativa de 4,7 bilhões de pares de bases, o genoma completo do mamute-lanoso é, de longe, o maior genoma mamífero conhecido, dizem cientistas ¿ embora eles não tenham certeza do porquê. (Os pares de bases constituem cada degrau da "escada de DNA," representando as "letras" do código genético).
"O que sabemos é que os genomas do elefante e do mamute são muito grandes - de longe os maiores genomas entre os mamíferos," disse Michael Hofreiter do Instituto Max Planck de Antropologia Evolucionária da Alemanha, que não esteve envolvido no estudo. "É impressionante e muito estranho," Hofreiter disse sobre o tamanho do novo genoma. "É difícil dizer o que isso significaria em termos evolucionários".
Ajuda capilar
Os mamutes-lanosos sempre foram bons candidatos para estudos de DNA antigo, porque muitos vestígios genéticos foram relativamente bem preservados em camadas de terra congelada no norte da Europa, Ásia e América do Norte, onde os animais habitaram durante centenas de milhares de anos.
Contudo, mesmo o DNA congelado do mamute freqüentemente não pode ser recuperado, devido a perdas, decomposição e contaminação com o DNA de outros organismos, como bactérias.
Schuster, co-líder do estudo, disse que a equipe resolveu esse problema através do estudo do DNA nuclear dos pêlos - nesse caso, dos restos de dois animais encontrados na região siberiana da Rússia.
"O pêlo é como um plástico biológico," Schuster disse. "Ele sela o DNA perfeitamente e as bactérias não conseguem infectá-lo".
As descobertas
Neste momento, o genoma seqüenciado do mamute-lanoso significa mais possibilidades do que conclusões.
Regis Debruyne, da Universidade McMaster do Canadá, também estuda o DNA do mamute, mas não esteve envolvido no estudo. Debruyne descreveu a seqüência como "basicamente milhões de peças soltas de um quebra-cabeça, que precisam ser montadas e identificadas" antes de inferir conclusões sobre características.
O genoma é "apenas o início da história," concordou Hofreiter, do Instituto Max Planck, que escreveu um artigo sobre as implicações genéticas do estudo, publicado na Nature.
Quanto ao que o genoma pode possibilitar, o geneticista evolucionário Hendrik Poinar, da Universidade McMaster, disse que os dados acabarão revelando "o que faz do mamute um mamute e não um elefante".
Diversidade genética
O biólogo Webb Miller, que co-liderou o novo estudo com Schuster, disse que o seqüenciamento do genoma do mamute poderia ajudar a salvar as espécies em risco de extinção atualmente.
Miller e Schuster disseram que os mamutes-lanosos tiveram uma diversidade genética relativamente pequena e isso pode ter contribuído para sua incapacidade de se adaptar a um novo clima após a Era Glacial.
"Se o clima muda e você tem pouca diversidade genética, então é muito difícil lidar com esse desafio," Schuster explicou. Ou seja, é mais duro para uma espécie evoluir em uma versão melhor adaptada de si mesma se a ela não tiver uma variedade de tipos entre os quais a seleção natural pode "escolher".
"Acreditamos que a susceptibilidade de uma espécie à extinção não é medida pelo número de animais vivos da espécie, mas sim pela diversidade dos genomas nucleares," Miller disse.
Hofreiter, do Max Planck, observou que o DNA nuclear de apenas dois mamutes, como publicado na sexta-feira, "não é suficiente para fazer qualquer análise abrangente da diversidade."
No entanto, pode-se afirmar com base nas duas amostras que os mamutes eram, pelo menos, tão geneticamente diversos quanto os humanos.
Clones de mamutes?
O novo genoma poderia também trazer de volta à vida os mamutes-lanosos, segundo alguns especialistas.
Os elefantes de hoje seriam a chave para qualquer projeto de clonagem. Primeiro, todas as diferenças genéticas entre mamutes e elefantes teriam que ser identificadas. Depois, um óvulo de elefante teria que ser fertilizado com genes alterados e implantado no útero de uma elefanta.
"Teoricamente, isso não está completamente fora de questão," afirmou Hofreiter, do Instituto Max Planck. "Mas vejo tantos problemas que não consigo imaginar como isso poderia funcionar".
A questão mais importante, Hofreiter acrescentou, é que "os rios de dinheiro necessários para ressuscitar um mamute seriam melhor empregados na salvação de espécies em risco de extinção".
Miller, que co-liderou o estudo com Schuster, disse, "ressuscitar mamutes é uma idéia relativamente entediante. Quando conseguirmos fazer isso, seremos capazes de clonar humanos... meu time de basquete vai ser invencível".
Tradução: Amy Traduções

- National Geographic


Assista agora »
Assista agora »
