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 Epidemias de humanos podem ter origem em primatas
24 de outubro de 2008 12h50 atualizado às 13h12

Para Nathan Wolfe, 38, professor visitante na Universidade Stanford, um dia comum de trabalho pode parecer um clipe de "Survivor" - acompanhar caçadores de primatas entre as densas folhagens da zona rural de Camarões, andando pela lama e por riachos, evitando galhos e mosquitos portadores de malária. Wolfe diz que gosta de aventura. Mas seu trabalho tem um objetivo maior: eliminar pandemias globais antes que elas aconteçam.

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Os praticantes da caça de subsistência ou da caça esportiva que ele acompanha encaram um perigo muito peculiar, em sua atividade: o sangue deles muitas vezes se mistura aos de suas presas. Já que animais como chimpanzés e orangotangos são geneticamente semelhantes aos humanos, a chance de transmissão de vírus entre as espécies é muito alta.

O HIV e o ebola, por exemplo, têm origens primatas documentadas, e uma pesquisa publicada pela revista Nature em fevereiro afirma que 60% das patogenias humanas emergentes vêm de animais.

"Nós estamos começando a expandir os marcos do controle mundial de doenças", diz Wolfe. "Antes, a melhor coisa que se podia fazer era desenvolver uma vacina, mas agora as pessoas estão percebendo que isso não vai ser suficiente".

"Caso os pesquisadores encontrem as doenças antes que elas realmente surjam", ele prossegue, "é possível controlá-las mais cedo, antes de uma grande epidemia".

Essa abordagem de golpe preventivo na administração de epidemias, ele diz, é o que faz o trabalho de acompanhamento de caçadores em Camarões tão crucial.

Quando Wolfe consegue convencer os caçadores, que ele chama de "sentinelas", a fornecer mostras de sangue, ele se torna capaz de desenvolver análise melhor sobre as novas doenças animais a que eles podem estar expostos ¿ e, por extensão, sobre que vírus emergentes poderiam representar as maiores ameaças aos seres humanos.

Desde que começou seus estudos com caçadores, Wolfe encontrou vários vírus nunca vistos em humanos, incluindo retrovírus da mesma família do HIV.

"Com epidemias, as pessoas ficavam paradas na praia, esperando a onda bater", diz Wolfe, sobre o impacto em forma semelhante a uma seqüência de ondas que uma epidemia pode ter ao redor do mundo. "Mas, para prevenir epidemias, é preciso observar as diversas pequenas fontes que alimentam o rio".

Com o objetivo de identificar mais dessas "pequenas fontes" - novos patógenos causadores de doenças ¿, e sufocá-las, Wolfe criou a Iniciativa Mundial de Previsão de Vírus, este ano. Se novas fontes de doenças puderem ser eliminadas antes que cheguem aos seres humanos, ele avalia, organizações de saúde poderiam gastar menos dinheiro e energia no desenvolvimento de vacinas caras e drogas de tratamento.

O Google.org, braço filantrópico do Google, anunciou na terça-feira que vai contribuir com US$ 5,5 milhões para a iniciativa; o dinheiro vai complementar uma dotação de US$ 5,5 milhões da Fundação Skoll, que apóia o trabalho de empreendedores sociais.

"Nathan vai ser uma estrela do rock nesse meio", disse Frank Rijsberman, diretor do programa Google.org. "Nós temos grandes esperanças de que ele descubra de cinco a dez novos vírus nos próximos anos".

Embora observadores externos e colegas endossem as táticas de prevenção de Wolfe, colocá-las em prática é um grande desafio. Depois que sua equipe chegou a um vilarejo rural de Camarões em um mirrado ônibus, sua primeira tarefa foi convencer as populações locais de que a pesquisa não ameaça seu estilo de vida.

"As pessoas nem sempre percebem a conexão entre doenças e animais selvagens", diz Matthew LeBreton, coordenador de pesquisas que trabalha na criação de programas de educação de campo para aldeões. "E ocasionalmente pensam que confiscaremos sua carne. Se alguém fala a eles sobre carne de caça, é nisso que pensam em primeiro lugar".

Mas assim que um relacionamento foi estabelecido com a comunidade em questão, dados começaram a ser coletados. Técnicos forneceram papel - filtro aos caçadores, para absorver o sangue de suas vítimas. Ao mesmo tempo, os cientistas extraíram amostras de sangue dos caçadores mesmos. Todas as amostras são testadas em busca de vírus pouco conhecidos.

"As principais coisas que procuramos são: será que um vírus específico causa essas doenças, e será que elas são transmissíveis?", disse Wolfe. "Já sabemos que existem certos tipos de vírus perigosos - o da gripe, por exemplo, é uma área que não representa ponto cego para nós.

Mas muitos vírus surgiram do nada, como o HIV ou, em certa medida, o da SARS. Porque sabemos que existe o potencial de vírus que nos apanhem desprevenidos, é realmente preciso investigar os desconhecidos".

Para mapear a emergência de novos vírus, Wolfe e seus colegas na Iniciativa Mundial de Previsão de Vírus - que envolve mais de 100 cientistas em nove países - começaram a acompanhar outras populações sentinelas, como as pessoas que recebem transfusões sangüíneas freqüentes.

Também expandiram recentemente suas investigações sobre vírus que cruzam a barreira entre animais e humanos, em trabalhos de campo na China, Madagascar, Malásia e Paraguai.

Graças a novas técnicas de seqüenciamento de ADN nos vírus que eles localizam, os epidemiologistas podem identificar rapidamente os mais virulentos dos novos patógenos - aqueles que apresentam altos índices de mutação ou que se prestam a recombinações, nas quais feixes de ADN são rompidos e depois aderem a novos materiais genéticos.

Uma nova variante da gripe, por exemplo, poderia ser perigosa, mas só seria capaz de causar epidemias caso se provasse capaz de se manter um passo à frente das defesas erguidas pelo sistema imunológico humano.

Acompanhar a combinação de vírus existente em uma determinada população ao longo do tempo também representa uma tarefa crítica, disse Forest Rohwer, microbiologista da Universidade Estadual de San Diego e colega de Wolfe em alguns projetos de pesquisa.

"Imagine que você esteja realizando a monitoração de rotina de uma área", disse Rohwer. "Se você recolhe 100 amostras de sangue diferentes a cada dia, com o objetivo de estudar a presença de vírus em todas elas, e em dado momento vê uma mudança com relação ao que normalmente veria no sistema, pode dizer que com certeza existe alguma coisa de errado ali, e é necessário estudar o problema em profundidade".

Assim que um vírus maléfico é localizado, o próximo passo é determinar com que rapidez ele pode se espalhar. Os colegas de Wolfe e outros cientistas desenvolveram simulações em computador que podem ser customizadas para levar em conta o tamanho e densidade da população, o tamanho das famílias e os padrões de transporte vigentes.

"Você cria uma população de indivíduos e depois estabelece as regras para determinar como eles se movem baseado nos dados de que dispõe", disse Donald Burke, diretor da Escola de Pós-Graduação em Saúde Pública da Universidade de Pittsburgh, que ajudou a criar algumas dessas simulações. "É como o SimEpi".

A simulação sem seguida prevê como um vírus com determinado conjunto de propriedades de transmissibilidade poderia prosperar em um determinado ambiente. Assim que Wolfe e seus colegas conseguirem isolar um novo vírus ou variante que pareça estar se espalhando por uma pequena área, podem se concentrar em suas características primárias - a probabilidade de que uma pessoa adoecida venha a infectar alguém mais, por exemplo, e alimentar a simulação com esses dados de maneira a gerar uma probabilidade de como o vírus poderia se espalhar.

Os resultados oferecem uma estimativa bruta mas ainda assim utilizável de como e onde uma epidemia nascente poderia fincar raízes. Até agora, as simulações demonstraram que, para todos exceto os mais virulentos dos novos patógenos, existe uma "combinação razoável de opções de política que estão ao alcance das autoridades de saúde e que, caso implementadas rapidamente, poderiam impedir um desastre mundial", afirmou Burke, acrescentando que "e se esse for o caso, Deus nos ajude, é preciso que estejamos preparados".

Wolfe reconhece que a tarefa de preparar o combate a uma nova pandemia é descomunal ¿muito superior à capacidade de sua equipe.

"O que estamos fazendo é nosso melhor palpite quanto à maneira ideal de criar um sistema de alerta antecipado, mas haverá 20 ou 30 diferentes abordagens testadas", ele disse. "O campo da prevenção de pandemias se tornará uma área de atuação muito importante nos próximos anos, bancado por bilhões de dólares em verbas. Teremos um novo movimento".

Tradução: Paulo Migliacci

The New York Times
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