Notícias » Ciência e Meio Ambiente » Ciência e Meio Ambiente

 Cientista prega revolução do arroz contra crise de alimentos
20 de junho de 2008 09h38 atualizado às 11h36

Comentários
 

Muitos professores universitários sonham com revoluções. Mas o Dr. Norman Uphoff, trabalhando em seu laboratório em um canto arborizado do campus da Universidade Cornell, está discretamente liderando uma delas, com o objetivo de resolver a crescente crise mundial de alimentos. O segredo, segundo ele, é uma nova maneira de cultivar arroz.

» EUA: biotecnologia é solução para crise de alimentos
» Obesos contribuem para crise alimentar, diz estudo
» FAO: biodiversidade agrícola garantirá alimentos

Rejeitando velhos costumes bem como a moderna confiança na engenharia genética, Uphoff, 67, professor emérito de administração pública e agricultura internacional, usa uma barba branca bem aparada e trabalha em um escritório muito bem organizado, mas o que ele propõe equivale a uma verdadeira revolução de gestão.

As safras tipicamente dobram, ele afirmou, se os agricultores plantarem mais cedo, propiciarem mais espaço para que as plantas cresçam e deixarem de inundar os campos. Isso reduz os custos em termos de irrigação e sementes, e promove o crescimento das raízes e das folhas.

O método, conhecido como Sistema de Intensificação do Arroz (SRI), enfatiza a qualidade das plantas individuais, em lugar da quantidade de plantas, e aplica o método do menos é mais à cultura do arroz.

Em uma década, a idéia se transformou de teoria obscura em tendência mundial - mas vem encontrando feroz resistência dos pesquisadores mais tradicionais do cultivo de arroz. No entanto, um milhão de rizicultores adotaram a técnica, segundo Uphoff. Esse exército rural crescerá para mais de 10 milhões de agricultores nos próximos anos, ele prevê, o que propiciará maiores safras de arroz, encherá barrigas vazias e salvará inúmeras vidas.

"O mundo tem muitos problemas", disse Uphoff, em entrevista recente sobre a SRI e seus 38 anos de trabalho na Cornell. "Mas se não pudermos resolver o problema das necessidades alimentícias das pessoas, nada mais será possível. E isso, pelo menos, está ao nosso alcance".

A afirmação pode parecer audaciosa, tendo em vista a profundidade da crise alimentar e os problemas que a cultura de arroz enfrenta. Cerca de metade do mundo tem o arroz como alimento básico, e o rendimento das plantações está estagnado, com uma disparada de preços que levou a quase 300% de aumento no ano passado. O salto de preços causou tumultos, a formação de estoques de arroz movida pelo pânico e protestos violentos em países pobres.

Mas Uphoff tem um histórico notável de realizações, e também a persistente combatividade de um menino do campo. Ele e seu método floresceram a despeito do ceticismo de seus colegas em Cornell e da elite mundial do setor de arroz - especialmente o Instituto Internacional de Pesquisa do Arroz, que ajudou a criar a revolução verde da aceleração na produção de grãos e cuja especialidade é promover melhoras genéticas no arroz.

O telefone toca,. É o Instituto do Banco Mundial, a divisão de educação e treinamento da organização multilateral. O instituto vai produzir um DVD para difundir o método. "Essa é uma das coisas que tenho em preparo", diz Uphoff com um ar satisfeito, antes de retomar sua história.

A improvável jornada do professor começa em uma fazenda do Wisconsin, passa por um filantropo bilionário e pelas selvas de Madagascar, envolve um padre jesuíta e muitos voluntários ávidos, e, cada vez mais, se desenrola nos países em desenvolvimento. Uphoff diz que o uso mais intenso da SRI acontece na Índia, China, Indonésia, Camboja e Vietnã, entre os 28 países, de três continentes, que adotaram sua técnica.

Em Tamil Nadu, um Estado no sul da Índia, o ministro estadual da Agricultura, Verapandi Arumugam, recentemente elogiou a SRI como uma "revolução" no cultivo do arroz, e disse que a técnica se expandiu para "espantosos" 400 mil hectares em seu Estado. Chan Sarun, ministro da Agricultura do Camboja, disse a centenas de agricultores, em uma feira agrícola em abril, que o rápido avanço da SRI prometia "uma safra de ouro branco".

No campus de agricultura da Universidade Cornell, Uphoff trabalha sozinho em um escritório que exibe muitas recordações de suas viagens. Há palha de arroz trançada, vinda do Sri Lanka, adornando uma parede. Ele está conectado por uma rede de computadores a ativistas da SRI e a patrocinadores como o grupo de caridade britânico Oxfam. Uphoff defende o uso mundial da SRI, e seu site (http://ciifad.cornell.edu/sri/) é o principal veículo para expor os sucessos e os princípios dessa técnica.

"Nada disso poderia ter acontecido sem a Internet", ele diz. Do lado de fora de sua porta, uma placa diz "sala da alfafa", com uma grande seta apontando corredor afora, aparentemente para uma era pré-eletrônica. Mas os críticos descartam a SRI como uma forma de ilusionismo. "As alegações deles são muito exageradas", disse o Dr. Achim Dobermann, diretor de pesquisa do Instituto Internacional do Arroz, sediado nas Filipinas. Dobermann diz que o número de agricultores que estão usando a SRI é inferior ao anunciado, porque velhas práticas são muitas vezes computadas como parte da tendência, e o método em si é muitas vezes aplicado em versões atenuadas.

"Não duvidamos de que o método possa propiciar bons rendimentos", ele disse, mas considera que ele seja oneroso demais para o mundo real. Os oponentes do método de Uphoff aceitaram seu desafio para promover um teste mundial de campo que pode resultar no fim da disputa. Os participantes incluem o instituto, Cornell e a Universidade Wageningen, uma instituição holandesa cujo desempenho na agricultura é incomparável.

O teste de campo deve começar em 2009 e se estender até 2011, segundo Uphoff. "Isso deve satisfazer quaisquer questões científicas", ele acrescentou. "Mas minha sensação é a de que a SRI está avançando tão bem e tão rápido que o teste pode se provar irrelevante".

Segundo Uphoff, seu método parece destinado a crescer. "Ele eleva a produtividade da terra, da mão-de-obra, da água e do capital", afirma. "É como jogar com cartas marcadas. Por isso sei que vamos vencer".

Tradução: Paulo Migliacci ME

The New York Times
The New York Times