O parque de Mammoth Cave é um dos menos conhecidos entre os parques nacionais americanos
Foto: Geoff Oliver Bugbee/The New York Times
Meu breve momento de glória à maneira de Floyd Collins aconteceu cerca de 30 m abaixo do solo na caverna Mammoth. Meu grupo, composto por 14 pessoas em uma excursão de três horas com o tema "conhecendo as cavernas", guiado por dois guardas florestais, estava engatinhando em fila única há uns 30 m, entre duas camadas de rocha, como se fôssemos o recheio humano em uma torta calcária, e estávamos entalados. O parque que visitávamos tem cerca de 590 km de cavernas subterrâneas.
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A abertura adiante de nós era tão estreita que Leslie Price, nosso principal guia, nos havia explicado que a única maneira de passar era virar a cabeça de lado - para que os capacetes não ficassem presos - e avançar às cegas, procurando apoio nas rochas que permitisse que nos levantássemos. Agora, alguém parecia estar enfrentando problemas para atravessar a passagem. Cansado de esperar de gatinhas, eu me deitei sobre as rochas.
"Dormir aqui seria legal", disse uma voz atrás de mim. Quem disse isso não deve conhecer a história de Collins, um explorador local que, em 1925, prendeu um pé enquanto explorava uma caverna a alguns quilômetros daquela em que estávamos. Collins terminou por cair no sono - o sono do qual ninguém desperta - no lugar em que ficou aprisionado. Eu estava pensando nesse pior dos pesadelos, quando recomeçamos a nos movimentar.
Eu sabia sobre Collins porque o Parque Nacional de Mammoth Cave pode ser importante em termos geológicos - os antigos sedimentos oceânicos transformados em calcário, a água que se infiltra no calcário, escavando passagens labirínticas e imensas câmeras em um dos mais extensos sistemas de cavernas do mundo - mas não é menos importante em termos históricos.
A começar pelos povos nativos que primeiro exploraram essas cavernas, quatro mil anos atrás, e deixaram para trás artefatos e restos mumificados. Passando pelos colonos que escavaram o solo rico em nitratos do interior das cavernas para produzir pólvora, durante a guerra de 1812, e pelo médico que criou um sanatório para tratar tuberculose em 1838, na ilusão de que ar frio das cavernas faria bem aos pacientes (não fez).
Estávamos também no lugar em que, no século XIX, guias permitiam que visitantes pichassem seus nomes nas paredes usando fuligem de velas, e no qual operadores privados lutaram ferozmente por mais negócios nas "guerras das cavernas" que caracterizaram o começo do século XX.
Também estávamos no território de Collins, cujo sofrimento nas duas semanas que levou para morrer cativou o país e inspirou compositores: "Seu rosto era claro e belo/Seu coração nobre e leal/Seu corpo agora faz dormindo/Na solitária caverna de calcário".
O parque de Mammoth Cave é um dos menos conhecidos dos parques nacionais americanos, uma jóia discreta abrigada nas colinas gentis do centro do Kentucky. Também se trata de um dos mais antigos, autorizado inicialmente em 1926, com ajuda do sentimento gerado pelo sofrimento de Collins e pelos esforços vãos de resgatá-lo. Duas semanas de artigos de primeira página em jornais de todo o país ajudaram a concentrar as atenções do público na região e a realizar o desejo popular de pôr fim às guerras das cavernas, ao colocar muitas delas sob controle governamental direto.
Foram precisos cerca de 20 anos para que o governo adquirisse os cerca de 230 km² de terras da instituição. Porque boa parte dos imóveis vizinhos foram fazendas e terras agrícolas que retornaram à natureza ao seu próprio ritmo, a paisagem não é repleta das atrações visuais que caracterizam outros dos parques nacionais. Não há florestas ancestrais ou cânions reluzentes, nem altiplanos lisos ou picos arredondados.
As instalações do parque são modestas - uma pousada de dois andares, construída em um tijolos, que abriga também um café, um restaurante e uma lanchonete; algumas cabanas rústicas; e quatro áreas de acampamento, três das quais minúsculas. Acima do solo, a sensação é mais de sossego que de espetáculo, com caminhadas e ciclismo como principais passatempos.
É longe da luz que o parque realmente brilha. O subsolo abriga cerca de 590 km de túneis e câmaras que formam cinco níveis distintos de caverna, gerados pela queda gradativa do nível de água ao longo de milhões de anos. E os exploradores de cavernas continuam a avançar no desconhecido, aqui, acrescentando 2 ou 3 km de túneis a cada ano aos mapas do subsolo.
Um acidente da geologia preservou essas cavernas. A maior parte do parque Mammoth está recoberta por uma camada de rocha que impede a penetração de água da superfície. Por isso a erosão não destruiu as cavernas, e elas estão quase secas hoje. Mas, também lhes faltam quase todos os traços fantasiosos, tais como estalactites e estalagmites, que costumam se formar quando a água penetra a pedra calcária por milhões de anos. Para assistir a um verdadeiro "espetáculo", é preciso sair do parque e ir a um empreendimento privado como as Diamond Caverns, onde uma ruptura na camada de rochas superficial permitiu que a água penetrasse para criar formações intrincadas nas cavernas.
Há traços da história de Collins espalhados por todo o parque, ainda que os dirigentes prefiram não chamar demais a atenção para eles. Fui à entrada da caverna Sand, onde mais de 10 mil pessoas se reuniram para testemunhar aos fúteis esforços de resgate, em 1° de janeiro de 1925; e visitei seu túmulo em uma igreja batista próxima.
Mas, eu queria descobrir como ele pode ter sentido em suas expedições, e por isso decidi fazer a excursão. Perto do final do passeio, chegamos a uma pequena câmara e nos sentamos sobre as pedras espalhadas por lá. O guia pediu que desligássemos a lanterna e ficássemos quietos por alguns minutos. A escuridão completa era estranhamente calma e relaxante. Eu gostaria de passar algumas horas ali, isolado do mundo daquela maneira, imaginei. Mas, cuidaria para não dormir.
Tradução: Paulo Migliacci ME

- The New York Times
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