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 Filme sobre teletransporte gera debate científico
08 de fevereiro de 2008 10h54 atualizado às 15h25

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No filme  Jumper , Hayden Christensen vive um super-herói que consegue se teletransportar Foto: The New York Times

No filme Jumper, Hayden Christensen vive um super-herói que consegue se teletransportar
08 de fevereiro de 2008
Foto: The New York Times

Em uma batalha travada com pipoca, holofotes, giz e carisma artístico, ciência e arte se defrontaram em uma sala de aula do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) há algumas noites.

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De um lado de uma das mais alardeadas divisas culturais estava Doug Liman, diretor de Jumper, filme que será lançado em breve e trata de um jovem que descobre que consegue se transportar para onde desejar com a força do pensamento, acompanhado pelo astro do filme, Hayden Christensen.

Do outro, dois dos professores de física do MIT, Edward Farhi e Max Tegmark, especialistas no tipo de física que o filme supostamente explora, convidados a assistir a algumas das cenas e a comentar o aspecto científico.

Na audiência, centenas de alunos do MIT que agüentaram horas na fila para lotar a gigantesca sala de aula, provando que futuros cientistas e engenheiros podem ser tão barulhentos e tão suscetíveis aos encantos do estrelato quanto as multidões que se aglomeram diante do estúdio da MTV em Times Square.

"Eu acho que não estava esperando tanta animação", disse Christensen. A noitada foi idéia de Warren Betts, veterano agente de imprensa de Hollywood que já ajudou a promover diversos com temas científicos e tecnológicos, entre os quais Apollo 13. Betts diz que "Hollywood agora é mais inteligente no que tange a incluir os cientistas". Ele afirmou que tinha ficado entusiasmado quanto um físico do Caltech o informou de que teleportação é um fato concreto, no exótico mundo da física quântica.

Betts providenciou a exibição de trechos do filme, que será lançado em 14 de fevereiro, e depois convenceu Farhi, especialista em computação quântica, e o cosmologista Tegmark a participar do painel de discussão. Eles aceitaram, desde que pudessem falar sobre física real.

"O que sei eu sobre produção de filmes?", perguntou Farhi, que se declarou "completamente desinformado". Mas ele acrescentou que "se os alunos aprenderem alguma coisa, ótimo; fico contente".

O corredor que conduz à sala de aulas do MIT estava repleto de câmeras de TV e repórteres e, na hora marcada, Christensen, que interpretou o papel do jovem Annakin Skywalker em Guerra nas Estrelas, liderou a procissão rumo ao local do debate.

Liman, o diretor, confessava nervosismo, enquanto isso. "Estamos a ponto de assistir a dois professores do MIT me despedaçando", disse. "Espero que eles apreciem o fato de que tentei respeitar a física do planeta em que vivemos".

Liman, diretor de A Identidade Bourne e Sr. e Sra. Jones, conta que foi "um prodígio na física" no segundo grau, o que lhe havia garantido vaga na Universidade Brown apesar de uma adolescência difícil. Mas ele não estudou física na faculdade. "Porque eu era bom na matéria, ela me entediava", diz.

Ele diz que se apaixonou pelo roteiro de Jumper - adaptado por David Goyer, Jim Uhls e Simon Kinberg de uma série de romances para jovens escritos por Stephen Gould - devido à sua honestidade. A primeira coisa que o novo super-herói faz com seus poderes é roubar um banco. "A história era o mais honesta possível", diz Liman.

O diretor conta que passou muito tempo tentando visualizar a experiência da teleportação, sem se preocupar demais com sua causa. Uma de suas concepções era a de que, caso um corpo desapareça, o ar correria a ocupar o vácuo deixado por ele.

Liman diz que a conexão entre física e cinema é mais intensa do que parece. "Sempre gostei de resolver problemas", ele disse. "Um filme é um grande problema a resolver". Uma hora mais tarde, Farhi e Tegmark cumpriram o que haviam prometido, e esvaziaram o balão de Jumper.

Farhi contou aos fãs de cinema que, em experiências reais conduzidas recentemente, físicos haviam conseguido "teleportar" uma única partícula elementar, um fóton, transmissor de luz, por cerca de 2,5 km, "feito um pouco menos exótico do que vemos no filme".

O que é efetivamente teleportado em uma experiência como essa, explicou Farhi, não é a partícula, mas todas as informações quânticas sobre ela. E a realização do feito não foi fácil. Entre outras coisas, os responsáveis pela experiência tiveram de criar um par das chamadas "partículas emaranhadas", as quais mantêm uma espécie de relacionamento fantasmagórico uma com a outra ainda que separadas por anos-luz de distância. Ambas existem em uma espécie de nevoeiro probabilístico quântico até que a outra partícula seja observada. Medir uma partícula afeta instantaneamente sua irmã distante, e não importa quão distante. Caso uma das partículas apresente rotação em sentido horário, por exemplo, a outra também passará pelo mesmo fenômeno.

A fim de usar essa mágica como um telégrafo quântico mágico que transmitiria informação sobre uma terceira partícula, enfatizou Farhi, seria preciso enviar um sinal convencional entre as partículas irmãs, e isso requer tempo, de acordo com Einstein. "Não se pode levar a coisa até o outro lado em velocidade superior à da luz", disse Farhi, em meio a aplausos da audiência.

O verdadeiro atrativo da teleportação, ele afirmou, não é o transporte, mas a comunicação segura. Ninguém poderia bisbilhotar um sinal de teleportação, afirma Farhi. Outro uso seria a computação quântica, que exploraria a capacidade de bits quânticos de informação de ter valores diferentes, tanto um quanto zero, e ao mesmo executar certos cálculos, como a fatoração de números primos, muito mais rápido do que os computadores comuns.

Como disse Tegmark, "ninguém consegue violar a segurança de seu cartão de crédito, mas com um computador quântico seria possível invadir o cartão de crédito de todo mundo".

Tradução: Paulo Migliacci ME

The New York Times
The New York Times