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Luta contra HIV não deve se apoiar na abstinência

No Brasil, a cantora Kelly Key incentiva o uso da camisinha. Foto: Redação Terra

No Brasil, a cantora Kelly Key incentiva o uso da camisinha
Foto: Redação Terra

O discurso foi bonito e a quantia prometida, generosa: o presidente americano George W. Bush anunciou que, em cinco anos, doará US$ 15 bilhões para que 14 países da África e do Caribe combatam a aids. Segundo Bush, trata-se da "maior iniciativa da história para melhorar a saúde pública mundial".

No entanto, há um crescente temor, dentro e fora dos Estados Unidos, de que essa quantia - que ainda não foi liberada pelo Congresso e pelo Senado americanos - repita o rumo dos vários dólares já dados por Bush a campanhas que lidam com o sexo de forma conservadora em seu país. As principais são as chamadas abstinence-only (ou "somente abstinência").

Desde que tomou posse, o governo Republicano americano praticamente dobrou o financiamento de grupos que pregam a abstinência sexual como única forma 100% segura de combater a gravidez precoce, e também a aids e outras doenças sexualmente transmissíveis. É comum esses grupos, por exemplo, afirmarem que a eficácia da camisinha é baixa no combate à aids.

Atualmente, cerca de US$ 135 milhões são destinados a esses grupos nos Estados Unidos. "Tememos que essa ideologia de Bush seja copiada na África. Segundo informações, pelo menos 33% dos US$ 15 bilhões prometidos pelo presidente devem ir para campanhas que não fazem, por exemplo, referência à camisinha como forma de evitar a aids", explica Bill Baxter, um dos diretores da organização americana Advocates for Youth (Advogados para a Juventude).

Ideologia X ciência
A organização é uma das vozes ativas dentro dos Estados Unidos contra as políticas de Bush. Algumas organizações como o Centro para Direitos Reprodutivos já estudam processar o governo americano pela, segundo eles, "censura à liberdade de escolha sexual" proposta por essas campanhas.

"O fato é que a ideologia americana está suplantando a ciência. Os organismos internacionais e a população americana precisam falar contra isso. Por um motivo simples: não há dados científicos que comprovem que abstinência evita a aids. Já educação sexual e uso de camisinha, sim", diz Nicola Cheetham, diretora da divisão internacional da Advocates for Youth.

Para Nigel Tarling, diretor de relações internacionais da organização Internacional Family Health, que lida com planejamento familiar e aids e é baseada na Grã-Bretanha, investir nessas campanhas é sinônino de perda de dinheiro, porque elas dão mensagens ambígüas em relação à doença.

Ele dá o exemplo do sul dos Estados Unidos, a região mais conservadora do país e onde as campanhas de abstinence-only são amplamente difundidas. "Cerca de 46% dos novos casos de HIV anuais nos Estados Unidos ocorrem no sul", afirma.

Unaids
Segundo o venezuelano Alberto Stella, coordenador da Unaids (órgão da ONU para o combate à aids) em Angola, a abstinência é capaz de retardar a iniciação da vida sexual de adolescentes - o que adiaria uma possível contaminação pelo HIV.

"O problema é que ninguém ficará sem praticar sexo para sempre e pesquisas mostram que os adolescentes que não entram em contato com nenhuma forma de educação sexual acabam se protegendo menos quando adultos, porque simplesmente não estão preparados", explica.

"Investir em campanhas de abstinência poderá ter o mesmo efeito que a discriminação dos homossexuais teve na história. Por não serem reconhecidos como cidadãos, os gays acabaram ficando mais promíscuos por não se sentirem inseridos na sociedade. Aí, a epidemia da aids os atingiu de forma assustadora. Hoje, com os seus direitos reconhecidos, o sexo entre eles é mais aceito e os homossexuais se previnem de forma mais eficaz", acredita.

Stella diz que os governos que receberem o dinheiro de Bush precisam ter autonomia para realizar campanhas de acordo com a realidade de seu país. "Não se pode ignorar que a camisinha é a forma mais eficaz de se prevenir a aids. Tudo bem que as organizações religiosas não distribuam preservativos, mas também que não falem mal dele como fez um cientista do Vaticano recentemente, dizendo que o HIV poderia passar pela camisinha. Isso não é verdade", critica.

Epidemia moderna
O médico brasileiro Dráuzio Varella, um dos primeiros a lidar com a epidemia de aids no país, trabalhando com prevenção em penintenciárias como o extinto Centro de Detenção do Carandiru, critica toda e qualquer política de saúde pública baeseada em critérios religiosos.

"Os americanos possuem os melhores epidemiologista do mundo. Eles precisam ser uma voz ativa contra as campanhas de abstinência. Tudo bem que a igreja fale que ser fiel e esperar para praticar o sexo é bom, mas a maioria não concorda em viver desse jeito. Uma estratégia clara e honesta é a melhor opção", explica.

"Costumo dizer que o papa tem a fórmula perfeita para acabar com a aids: nem sexo antes do casamento, nem fora dele. Mas isso não corresponde à realidade".

Varella teme que a ideologia de Bush possa acabar minando políticas globais de combate à aids, comprovadas pela ciência como eficazes. "Não há possibilidade de isolar parte do mundo com campanhas ruins. Essas epidemias modernas não podem ser controladas localmente, com políticas duvidosas. As pessoas circulam e espalham o vírus".

Igreja
Mesmo entre as organizações ligadas à religião, a possibilidade de campanhas que pregam unicamente a abstinência assusta. Rachel Baggaley, diretora da unidade de HIV da organização Christian Aid (que tem parcerias fortes com igrejas em vários países), a igreja deve servir como uma propagadora de informação sobre a aids, e não um obstáculo à prevenção.

"Nos países em desenvolvimento a igreja tem um papel forte, que pode ajudar a informar as pessoas. Não estou sugerindo que a igreja pregue o sexo, mas que converse com as pessoas sobre prevenção e não condene quem não quiser seguir a abstinência".

Mas Draúzio Varella afirma que, pelo menos no Brasil, a igreja ainda precisa evoluir para ser essa propagadora de informação. "Visito muito o interior do país e vejo a igreja barrar muitas campanhas de informação relacionadas à aids", conta.

Brasil
O diretor do Programa Nacional de DST e aids do Brasil, Alexandre Grangeiro, critica a recente declaração do Vaticano, que desacreditou o uso da camisinha como maneira eficaz de combater a aids. Segundo ele, o Vaticano utilizou alguns estudos científicos muito frágeis que desinformaram a população.

"Primeiro, a igreja leva a crer que só a abstinência protege, o que é antagônico em relação ao desejo e à vontade da população e não dá uma opção para ela de segurança. No fundo, no fundo, a aids acaba sendo usada para reforçar os valores dogmáticos, ideais de fidelidade, de sexo só após o casamento e com uma única pessoa. A aids não pode ser um fator indutor de comportamento da população", avalia Grangeiro.

BBC Brasil
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