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Mata Atlântica celebra aniversário em meio a devastação

27 mai 2010
12h44

Considerada uma das florestas mais ricas do mundo em biodiversidade, a Mata Atlântica completa seu 71º aniversário nesta quinta-feira, 27 de maio, em meio a taxas exorbitantes de desmatamento e redução progressiva da área original do bioma.

O uso da floresta para atividades como a agropecuária e a exploração de recursos naturais são os principais responsáveis pelo desmatamento, de acordo com a diretora de Gestão do Conhecimento da Fundação SOS Mata Atlântica, Márcia Hirota.

Reduzir a devastação, recuperar as áreas degradadas, ampliar o número de áreas protegidas (públicas e privadas) e melhorar a gestão daquelas já existentes são as principais metas em relação à preservação do bioma.

Mais de 20,8 mil hectares de Mata Atlântica, que equivalem à 130 Parques do Ibirapuera, foram desmatados entre 2008 e 2010 no Brasil, segundo os dados do Atlas dos Remanescentes Florestais da Mata Atlântica, divulgados na terça-feira (25) pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) juntamente com a SOS Mata Atlântica.

Só em Minas Gerais, estado campeão de desmatamento no período, uma área equivalente à de 12,5 mil campos de futebol foi devastada - aumento de 15% em relação aos dados de 2005 a 2008. De acordo com Hirota, o crescimento está relacionado à expansão da fronteira agropecuária e principalmente à produção de carvão vegetal para usinas siderúrgicas da região. "A Bacia do Jequitinhonha é hoje a mais ameaçada do país."

O município de Porto dos Volantes, na região do Jequitinhonha, registrou sozinho 3,2 mil hectares de desmatamento, mais que o dobro da devastação somada dos estados do Rio de Janeiro, de São Paulo, Mato Grosso do Sul, do Espírito Santo e de Goiás no mesmo período. Ao todo, 17 unidades federativas do país possuem Mata Atlântica.

"No caso do carvão, é possível resolver o problema, muitas siderúrgicas já partiram para fazer o plantio. Não é só proteger o bioma, o mico-leão, estamos falando de gente sendo usada como mão de obra escrava, dentro dos fornos de carvão. Passam os anos e não vemos a presença do poder público, são lugares conhecidos", acrescentou o diretor de políticas públicas da ONG, Mário Mantovani.

Estados
Nove estados do bioma foram avaliados para o atlas: Rio de Janeiro, São Paulo, Mato Grosso do Sul, Espírito Santo, Goiás, Minas Gerais, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Os estados nordestinos com Mata Atlântica não foram mapeados por causa da cobertura de nuvens e devem ter os dados incluídos até o fim do ano.

O Paraná aparece como segundo colocado no levantamento. De 2008 a maio de 2010, a taxa anual de desmatamento da Mata Atlântica foi de 2,7 mil hectares. O estado, que tinha 98% de seu território coberto pelo bioma, hoje tem apenas 10,5% de floresta remanescente.

Apesar de reduzir o desmate em 75% em relação ao período anterior (2005-2008), Santa Catarina é o terceiro estado listado pelo atlas entre os que mais desmataram o bioma costeiro. A taxa anual de desflorestamento registrada pelo Inpe foi de 2.143 hectares. A queda expressiva pode estar ligada às catástrofes naturais que atingiram o estado nos últimos dois anos e que podem ter freado a economia e a demanda por produtos florestais.

"Foi uma surpresa que merece estudos. Porque a lei lá continua ruim, induz a degradação. Santa Catarina é um dos estados que mais se voltou contra a Lei da Mata Atlântica", avaliou Mantovani. Para Hirota, as chuvas e acidentes naturais que atingiram os catarinenses podem ter contribuído para frear a economia e, com isso, o desmatamento. Já o Rio Grande do Sul registrou aumento de 83% na taxa de desmate anual, que saiu de 1.039 hectares/ano para 1.897 hectares/ano.

De acordo com o atlas, Minas Gerais, Paraná e Santa Catarina são as áreas mais críticas para a Mata Atlântica, pois concentram grandes porções do bioma, o que acaba resultando em desmatamentos de grande extensão. A conservação do que restou e a recuperação do bioma dependem de fiscalização e do desenvolvimento de negócios sustentáveis, como o ecoturismo, segundo Márcia Hirota.

Ela também destaca o papel das Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPNs). "Já são mais de 700 no bioma. A maior parte do que resta de Mata Atlântica, mais de 80%, está nas mãos de particulares, temos que ajudá-los a preservar".

Distante
Embora tenha sido observada queda de 21% na taxa média anual de desmate da Mata Atlântica no comparativo com o período anterior do estudo (2005 a 2008), a realidade ainda está distante da ideal. O Brasil se comprometeu a zerar o desmate no bioma durante a Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB) da ONU, em 2002, mas deixará de cumprir o acordo.

Composta por 1.300.000 km², a Mata Atlântica está reduzida a 7,3% de sua vegetação original. A lei do bioma (nº 11.428/06) foi regulamentada em janeiro de 2009, e busca quadruplicar a cobertura vegetal no Brasil. Ela também estabelece incentivos financeiros para a restauração dos ecossistemas, estimula a iniciativa privada quanto às doações para a conservação das áreas verdes e proíbe o desmatamento de florestas primárias, além de criar regras para exploração econômica.

Fonte: EcoDesenvolvimento
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