Ciência

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24 de setembro de 2009 • 10h33 • atualizado às 11h59

Invasão de espécie gigante de cobra vira pesadelo na Flórida

Invasão de espécie gigante de cobra vira pesadelo na Flórida

À esquerda, pítons birmanesas, ao centro uma píton rochosa africana encontrada na Flórida e à direita, uma píton rochosa africana retirada do seu habitat natural
Foto: National Geographic

Já sob pressão devido à invasão das gigantescas cobras píton birmanesas, o Estado da Flórida agora enfrenta aquilo que um cientista define como "o pior pesadelo" para esse Estado americano.

A maior das cobras africanas - a píton rochosa africana, um animal de seis metros de comprimento e conhecido pelo mau gênio - está colonizando o Estado americano, de acordo com novas descobertas científicas.

Foram localizadas seis pítons rochosas africanas na Flórida de 2002 para cá. E o mais perturbador é que uma fêmea grávida e dois filhotes também foram encontrados identificados no período, o que significa que esses agressivos répteis fixaram residência na região.

Mais perigosas que as já letais pítons birmanesas - uma espécie que pode devorar até mesmo crocodilos -, as pítons africanas são "tão malvadas que elas já saem do ovo atacando", disse Kenneth Krysko, herpetologista sênior no Museu de História Natural da Flórida, em Gainesville. "Trata-se de um animal realmente malévolo", ele afirma.

Até agora, as cobras gigantes foram encontradas apenas em uma região de 2,5 quilômetros quadrados de terras suburbanas, a oeste de Miami. Criadores de animais despreparados para a ferocidade das pítons podem tê-las libertado na natureza, de acordo com Krysko.

O que é "realmente assustador" é que as novas invasoras precisam apenas atravessar uma estrada para chegar ao território do Parque Nacional dos Everglades, onde as pítons birmanesas já devoraram milhares de espécimes de animais nativos, ele afirma.

Com a adição da píton rochosa, a Flórida agora se tornou um lar distante do lar para três espécies diferentes de répteis constritores oriundos de fora dos Estados Unidos - a jiboia, a píton birmanesa e a píton rochosa-, de acordo com Robert Reed, que estuda espécies de répteis invasivas para o Serviço de Levantamento Geológico dos Estados Unidos (USGS), em Fort Collins, Colorado.

No seu habitat, a África subsaariana, a píton rochosa africana se alimenta de pequenos mamíferos ¿antílopes, porcos selvagens- e aves, bem como de outros animais.

Na Flórida, a cobra africana pode "comer praticamente qualquer animal de sangue quente que ela tenha tamanho suficiente para ingerir", como faz a píton birmanesa, disse Reed, do USGS.

"Dezenas de espécies da fauna nativa, de cervos de cauda branca a crocodilos de 1,83 metro de comprimento, bem como pássaros, foram encontrados no aparelho digestivo de pítons birmanesas na Flórida", disse Reed, que também está colaborando com Krysko para resolver o problemas das pítons na Flórida.

Como a píton birmanesa, a cobra africana é constritora. Por não dispor de peçonha, ela mata os animais envolvendo-os nas dobras de seu corpo e literalmente esmagando-os até a morte. A fauna da Flórida pode ser não a única categoria sob ameaça. Na África, são conhecidos casos de ataques de pítons contra seres humanos, segundo Krysko.

Escondida em um pântano da Flórida, ele acrescentou, uma píton africana poderia "atacar uma pessoa sem que esta nem mesmo estivesse consciente de sua presença".

Píton mais píton = supercobra híbrida?
As pítons africanas provavelmente já penetraram na região dos Everglades, diz Krysko. Caso isso proceda, não deve demorar muito para que encontrem suas primas birmanesas.

Caso as duas espécies de pítons vierem a se acasalar, é possível que gerem uma espécie híbrida, algo que já aconteceu em condições de cativeiro. E por conta do fenômeno biológico conhecido como vigor híbrido, existe uma chance, se bem que pequena, de que as cobras resultantes sejam mais resistentes e mais poderosas como predadores - se presumirmos que não venham a ser estéreis, como acontece a muitos híbridos, disse Reed.

"Não podemos desconsiderar essa possibilidade", disse Reed. "A introdução de genes de uma espécie diferente poderia ter um efeito que permita às pítons rochosas ganhar ainda mais eficiência em sua adaptação à Flórida, e possível expansão".

Piores que as pítons birmanesas?
A expansão das pítons rochosas espelha a explosão das pítons birmanesas, na opinião de conservacionistas, e oferece uma oportunidade de aprender com os erros do passado.

"O que mais me assusta é a possibilidade de que isso repita o ocorrido com as pítons birmanesas", disse Kristina Serbesoff-King, gerente do programa de espécies invasivas da organização ecológica Nature Conservancy, um grupo sem fins lucrativos, na Flórida.

Em 1994, um relatório do Departamento de Proteção Ambiental da Flórida lançou um alerta sobre a explosão da população da espécie invasiva no Estado, cuja temperatura elevada e diversos portos internacionais importantes o colocam em risco especial. Mas os especialistas previram que a cobra africana seria incapaz de se reproduzir na natureza, sob as condições da Flórida.

"E aqui estamos, passados 15 anos, e é preciso relembrar uma vez mais que um pouquinho de prevenção poderia ter impedido esse problema", diz Serbesoff-King.

"Existe uma oportunidade real de montar uma resposta agressiva¿, a fim de eliminar a píton rochosa africana enquanto a cobra africana está limitada a apenas uma pequena área, acrescentou a especialista.

Um modelo possível seria a "patrulha contra pítons" que a Nature Conservancy montou nas ilhas Keys, ao largo da Flórida. Depois que a píton birmanesa nadou dos Everglades para algumas dessas ilhas e começou a devorar exemplares raros da fauna local, a equipe passou a conduzir buscas e capturar cobras, a fim de retardar a evolução da espécie.Krysko e Reed concordam em que a cobra africana precisa ser erradicada, e agora.

A chegada da píton birmanesa "foi o maior e mais devastador problema que a Flórida poderia ter imaginado", diz Krysko."Mas agora temos problema pior", ele concluiu.

Tradução: Paulo Migliacci ME

National Geographic