O resultado foi obtido graças aos instrumentos de imagem infra-vermelhos da sonda americana Mars Odyssey, em órbita marciana desde 2001. Os cientistas dão conta de "um período no qual a água líquida estava presente no planeta de forma estável, no curso de um período quente mais longo do que habitualmente se considera", destacou o CNRS em comunicado.
Os vales marcianos foram interpretados primeiro como redes de vales fluviais fósseis, como os observados nos desertos terrestres, formados por correntes d'água na superfície num clima mais quente que o atual. Mas a escassa ramificação dos vales de Marte em relação aos da Terra podia sugerir também que estes vales se formaram pela ação de correntes subterrâneas ou fontes hidrotermais ou subglaciais, sem necessidade de um clima mais quente.
O instrumento Themis (Thermal Emission Infrared Imager) permitiu estabelecer mapas de temperaturas que evidenciam as propriedades físicas da superfície, em particular as diferenças entre rochas e acúmulos de areia ou de poeira. Alguns vales, desconhecidos até agora, foram observados na região de Valles Marineris, o famoso cânion de Marte. "São claramente mais ramificados do que todas as redes estudadas até agora em Marte. A análise do seu tamanho, da sua geometria e da sua organização traz parâmetros muito similares aos dos vales terrestres formados por cursos de água na superfície", explicou o comunicado.
Nem os leitos subterrâneos nem o degelo de geleiras apresentariam redes tão ramificadas na superfície. A existência destes vales "é um testemunho de um período em que a água líquida estava presente na superfície de Marte de forma estável, ou seja, em condições atmosféricas (pressão e temperatura) que permitiram sua presença", continuou o comunicado.
Esta investigação modifica nossa visão sobre o clima de Marte no período Hesperiano (entre 3,4 bilhões de anos e 2,9 bilhões de anos), durante o qual se formou a região de Vales Marineris. Quando a ausência de vales fortemente ramificados nesta região reforçava a hipótese de um período Hesperiano exclusivamente frio, a nova detecção de redes ramificadas em Vales Marineris sugere, ao contrário, a existência de um período mais quente durante o Hesperiano.
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