Gás pode ter aquecido o planeta no passado

02 de junho de 2004 • 21h09 • atualizado às 21h09

Um enorme jato de gás lançado das profundezas do Atlântico Norte há 55 milhões de anos pode ter aquecido o planeta e dar pistas sobre a atual ameaça de aquecimento global. A informação foi divulgada hoje por cientistas.

Em artigo na revista científica Nature, pesquisadores noruegueses disseram ter encontrado traços de milhares de fendas hidrotérmicas na lava que fica na costa da Noruega e que poderia ter sido a fonte do efeito estufa ocorrido há 55 milhões de anos. A aparente liberação de hidrocarbonetos de rochas subterrâneas no período Eoceno também pode reforçar a teoria que diz que espasmos de atividade vulcânica podem ter provocado extinções em massa, como a dos dinossauros, 10 milhões de anos antes do Eoceno.

Até agora, os cientistas não conseguem explicar o que fez a temperatura média do planeta subir entre 5 e 10 graus Celsius cerca de 10 mil anos depois de começado o Eoceno - um "piscar de olhos" em termos geológicos.

"Achamos que o magma aqueceu sedimentos que continham material orgânico e levou a uma explosiva liberação de gases", disse Henrik Svensen, pesquisador da Universidade de Oslo e principal autor do artigo. "É como assar uma pizza e criar um monte de gases do efeito estufa no seu forno", afirmou ele à Reuters.

Algumas das crateras chegavam a ter dez quilômetros, ocupando as bacias de Voering e Moere, no Atlântico Norte, perto da atual Noruega. Algumas plantas e animais, especialmente nos mares, foram extintas por causa do aquecimento. "Mas este não é um dos maiores eventos de extinção global", disse ele.

Os cientistas disseram que ritmo anual das emissões humanas de gases do efeito estufa na década de 1990 - a queima de combustíveis em carros, indústrias e usinas - é de 35 a 360 vezes mais veloz do que o acúmulo de gases do Eoceno.

"Podemos causar o mesmo aquecimento global em algumas centenas de anos no atual ritmo", disse Svensen. Cientistas prevêem como consequência a elevação do nível dos oceanos, tempestades e inundações. Uma comissão da ONU prevê que a temperatura mundial vai subir entre 1,4 e 5,8 graus Celsius até 2100.

Gerald Dickens, da Universidade do Texas, escreveu na Nature que o aquecimento do Eoceno deve ser estudado mais, por ser "uma analogia intrigante, embora imperfeita, com as atuais emissões de combustíveis fósseis."

Durante o Eoceno, os mamíferos consolidaram seu controle sobre o planeta, após a extinção dos dinossauros. Havia criaturas semelhantes a cavalos, mas do tamanho de cães, e um parente do ouriço que aparentemente saltava como os coelhos.

Grande parte do gás liberado na época aparentemente era metano, um componente importante do gás natural e o segundo maior responsável pelo atual aquecimento global, atrás apenas do dióxido de carbono. O Protocolo de Kyoto, criado em 1997, prevê limites para a emissão desses poluentes, mas os EUA não aderiram.

Svensen disse que a teoria sobre o aquecimento no Eoceno pode reforçar a idéia de que os vulcões já foram responsáveis por mudanças climáticas e explicar extinções maiores, como a dos dinossauros, que hoje são comumente atribuídas à colisão de um meteorito gigante com a Terra.

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