A Academia de Ciências Médicas da Rússia advertiu hoje para o perigo extremo que a gripe do frango representa, afirmando que se o vírus que a produz sofrer uma mutação poderá criar a pandemia mais mortífera que o planeta já viu. Os especialistas russos em virologia não quiseram pôr panos quentes ao avaliar a progressão mortal da epizootia e por isso fizeram hoje um apelo à comunidade internacional para que encontre o mais rápido possível uma vacina contra essa infecção.
Quem fez o estridente alerta foi o diretor do Instituto de Virologia da Academia Russa de Ciências Médicas, Dmitri Lvov, que afirmou que a gripe do frango pôs o mundo "à beira de uma catástrofe sanitária". Segundo Lvov, existem todas as condições para que a população mundial enfrente em pouco tempo uma pandemia originada pela doença.
Nesse caso, as conseqüências não poderiam ser piores. Segundo Lvov, a gripe do frango transmissível entre seres humanos por uma mutação do vírus e estendida a todo o mundo "poderia acabar com 80% da população humana". Lvov explicou que, segundo os últimos relatórios da Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de vinte pessoas foram infectadas pela doença, sendo que 16 morreram.
Isso significa, disse, que o índice de mortandade é de 80%, "muito maior que a da peste negra" na Europa medieval. Estas considerações coincidiram com as análises de outros especialistas, como o doutor David Hui da Universidade Chinesa de Hong Kong, que estabeleceu que o índice de mortandade ronda os 70%.
Segundo Hui, este surto da gripe do frango é pelo menos duas vezes mais mortífero que o declarado em 1997. Lvov foi além: "Este vírus é mil vezes mais perigoso que o que produz a chamada Síndrome Respiratória Aguda Severa (Sars)", que se originou na província chinesa de Cantão em novembro de 2002 e causou o pânico no mundo todo. Segundo o cientista russo, caso se declare uma pandemia de gripe do frango em nível mundial, poderiam morrer 4 bilhões de pessoas.
Lvov explicou que "a única esperança da espécie humana, à beira de uma catástrofe epidemiológica, é que até o momento o vírus da doença não sofreu a mutação para um híbrido de vírus animal e humano". Lembrou que, até o momento, "é somente gripe do frango. As pessoas doentes dela foram contaminadas diretamente das aves e não de outras pessoas". O especialista russo descartou que haja um contágio por consumo de carne de frango, pois a infecção (do vírus H5N1) se propaga através das fezes das aves.
A epizootia já afeta a China, Vietnã, Tailândia, Indonésia, Japão, Laos, Taiwan, Camboja, Coréia do Sul e Paquistão. Segundo os últimos dados oficiais, a epidemia pode ter causado 14 vítimas humanas no Vietnã e outras 5 na Tailândia.
Lvov, um dos principais especialistas russos em doenças virais, insistiu em que todos os esforços deveriam concentrar-se na descoberta de uma vacina capaz de erradicar a "gripe do frango". No entanto, reconheceu, "existem inúmeros problemas para criar uma vacina desse tipo, sobretudo problemas tecnológicos. No momento atual, só nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha poderia preparar-se uma vacina assim ".
O cientista explicou que na Rússia estão sendo realizados muitos experimentos no Instituto que dirige, mas com dificuldades, por não poder trabalhar com o vírus mortal. "Até o momento, trabalhamos com cepas inócuas do vírus, já que fazê-lo com as cepas patógenas poderia abrir uma porta à epidemia. Se pudermos desenvolver essas cepas inócuas nas condições adequadas, uma vacina obtida das mesmas poderia servir para deter o vírus mortal", disse.
Segundo Lvov, "conseguiu-se um sistema de teste para trabalhar com os materiais genéticos do vírus", passo importante para conseguir a vacina adequada. No entanto, recomendou ao Ministério da Saúde russo que comece a organizar pavilhões de camas de reserva nos hospitais de todo o país para enfrentat um possível surto da doença dentro das fronteiras russas.