Cientistas confirmam fraude em trabalho sobre células-tronco

29 de dezembro de 2005 • 07h48 • atualizado às 10h31

O suposto "grande passo à frente" do sul-coreano Hwang Woo-suk no campo da clonagem terapêutica acabou sendo uma fraude, segundo as conclusões de uma comissão de investigação que agora examinará as "conquistas" anteriores do cientista.

"Constatamos que Hwang e sua equipe não têm nenhuma base científica para provar que conseguiram produzir células-tronco que correspondem especificamente ao DNA de uma pessoa", anunciou a comissão da Universidade de Seul, encarregada de coordenar as investigações sobre os trabalhos de Hwang.

O suposto progresso foi questionado pela primeira vez há seis dias, quando a mesma comissão revelou afirmações falsas e fotografias trocadas em um artigo do professor Hwang publicado na prestigiosa revista científica americana Science em maio de 2005.

O estudo apresentava como uma "novidade mundial" o isolamento, a partir de embriões humanos obtidos por clonagem, de 11 linhas de células-tronco que possuíam cada uma o patrimônio genético de seu doador.

Os cientistas destacaram na ocasião que esta descoberta representava um avanço enorme para a clonagem terapêutica e o tratamento de doenças incuráveis, como a diabetes ou o mal de Alzheimer.

Depois da primeira denúncia, o pesquisador pediu demissão à Universidade e o ministério da Ciência e Tecnologia, que havia concedido 40 milhões de dólares às pesquisas desde 2002, pediu desculpas públicas e informou que o Estado interromperia os subsídios.

Após examinar as células que haviam sido congeladas, a comissão de investigação desmontou a autenticidade do avanço científico.

"Os exames de DNA demonstraram que não existiam células-tronco específicas para cada paciente em seus trabalhos", declarou Roh Jung-Hye, porta-voz da comissão de nove membros.

As cinco mostras analisadas procedem do mesmo doador.

Os especialistas se centrarão a partir de agora nos estudos científicos anteriores de Hwang Woo-suk: a clonagem de uma vaca em 1999 e de um cão batizado de "Snuppy" em agosto deste ano.

"Temos que realizar uma investigação profunda para determinar se o ''Snuppy'' foi efetivamente clonado", destacou a porta-voz.

O professor Hwang era alvo, há alguns meses, de acusações de fraude por parte de colegas americanos e sul-coreanos.

Na semana passada, o site scieng.net, que reúne 17.500 cientistas sul-coreanos, exigiu que o governo punisse o doutor Hwang, qualificando seus trabalhos de "fraude científica", ao mesmo tempo em que o co-autor do artigo publicado na Science, Roh Sung Il, afirmou que as fotos que o ilustravam eram falsas.

A página virtual qualificou o trabalho realizado por Hwang Woo-Suk de "embuste científico durante o qual se utilizou um documento falso".

O doutor Hwang contra-atacou e pediu a retirada do artigo. Apesar de ter admitido "erros irreparáveis" de ilustração, garantiu ter criado células-tronco específicas para cada paciente.

O biólogo afirmou que, das 11 linhas celulares, seis foram deterioradas depois de uma contaminação, mas que as outras cinco foram congeladas.

Em fevereiro de 2004, o cientista sul-coreano anunciou a extração de células-tronco a partir de um embrião humano obtido por clonagem, mas esta inovação foi considerada limitada porque ele só conseguiu isolar uma linha celular. Além disso, precisou utilizar 242 óvulos.

O fato mais importante do artigo de maio passado era que haviam sido produzidas 11 linhas de células-tronco embrionárias que correspondiam especificamente a DNA de uma pessoa e que haviam sido necessários apenas 185 óvulos. Porém, tudo não passou de uma fraude, segundo Roh Sung-il, que explicou que Hwang utilizou 313 óvulos em 2004 e 700 este ano.

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